sábado, 14 de março de 2020

Meu amigo Nelson Leirner




Dizem que as amizades verdadeiras são aquelas iniciadas na infância. Com Nelson foi diferente. Quando nos conhecemos, ele estava com 73 anos e eu, com 62. O encontro ocorreu num curso ministrado por ele que, na primeira aula, ao entrar na sala, olhou com estranheza para aquele aluno tão fora da média de idade de seus colegas.

Foi um grande professor. Aulas  dinâmicas, em que os alunos eram permanentemente estimulados e as discussões enriquecidas com suas intervenções precisas. Estrilava, quando o trabalho apresentado era ruim; mostrava-se satisfeito, quando de qualidade. Exigia dos alunos que seguissem a carreira por conta própria, deixando a condição de  eternos estudantes.

Terminado o curso, fui convidado por sua assistente Mara Martins para uma reunião em seu ateliê, pois havia sido selecionado, com outros cinco alunos,  para participar de uma exposição na Galeria Anna Maria Niemeyer. Foram muitos os encontros até acertarmos a seleção dos trabalhos a serem expostos. Nesse período, a relação com Nelson tornou-se menos formal. Ficamos mais próximos. Na falta de recursos para elaboração de uma publicação, Nelson doou um de seus trabalhos para o amigo dono de uma gráfica em troca para produção do catálogo

Mais adiante, novo convite para participar de exposição Retrospectiva do Nelson no Instituto Tomie Otake, na “Sala Nelson Leirner Curador” Como foram três dias de montagem, em São Paulo,  nosso convívio se tornou mais intenso.

Desde então, costumávamos almoçar e visitar exposições juntos e falar com frequência ao telefone, sendo os assuntos mais comuns arte, política e esporte, tema recorrente em sua obra. O tênis aparecia sempre e aí tínhamos uma discordância: ele  implicava com Nadal, de quem sou um fã ardoroso.  

Acompanhei inauguração de exposições suas no Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Vitória. Discutíamos a mostra, algumas vezes ele considerava fraca, sempre com minha discordância. Em tom de brincadeira, chamava sua atenção para as retrospectivas, nas quais metade se constituía de trabalhos inéditos. Foi o único artista a utilizar essa estratégia, confirmando sua criatividade inesgotável.

A mim, tratava como um igual. Estimulava-me a publicar um livro com meus trabalhos, já que não desejei seguir a carreira de artista, mas, lembrava, somos parecidos, pensamos nos outros, e você não retiraria nada de sua família, para divulgar sua produção. 

De sua internação, voltou bem, mas se referia com frequência à aposentadoria.  Eu não acreditava e dizia que já haveria muitas exposições em sua cabeça. Nas últimas semanas, falava com Liliana e lhe disse que ficaria muito feliz no dia em que pudesse falar diretamente com ele. Três dias depois, recebi seu telefonema. Foi ali nossa despedida.

Nelson, no início de sua vinda para o Rio, entendia que o carioca não gostava dele, apesar de seu sucesso como artista e professor. Corrido o tempo, nunca mais tocou nesse assunto. De inteligência brilhante e viva, tinha enorme vida interior, uma generosidade extrema. Era um ícone da arte brasileira e nunca perdeu  a gentileza e doçura no trato com colegas, curadores, galeristas, alunos e aqueles que o serviam, como porteiros, garçons, barbeiros e funcionários de sua farmácia preferida. O carinho dedicado a Dog, seu cão, era inigualável. Cuidou dele como pessoa querida nos 16 anos de sua vida. Sofreu com sua morte.

Gostava de viajar, e o fazia com frequência, sendo Paris e Nova York os destinos prediletos. De lá, trazia muitos objetos para suas instalações.

Foram mais de 65 anos de produção abundante, sem se repetir. É impossível editar um catalogo raisonné tal a quantidade do que foi criado. 

Teve uma companheira impecável, Liliana Leirner, constante em seu apoio e em sua ajuda na compra dos materiais, escolha e desenvolvimento dos temas e mesmo na elaboração de obras. Para Nelson, em muitos trabalhos deveriam figurar como autores Liliana e Nelson Leirner, mas ela nunca aceitou.

Mais do que um grande artista, foi-se um amigo inesquecível. Permanecerá em minha lembrança eternamente.


Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
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