terça-feira, 6 de novembro de 2018

Baixa na Galeria Virgílio, SP



“o que há além de vidros e membranas em paredes vazias, entre as gotas, nos reflexos, nas sombras?”

Com obras de Ana Calzavara, Celina Yamauchi, Marcia Cymbalista e Marco Buti, a mostra “baixa” abre na Galeria Virgílio com a produção recente desses artistas. São desenhos, gravuras, fotografias e pinturas que compartilham a preferência pelo gesto discreto, por uma não-retórica e pelo olhar que atenta para a sutileza das pequenas variações e diferenças.
As pinturas de Calzavara que, ao primeiro olhar, dialogam com a tradição construtiva por trazerem elementos de natureza geométrica, revelam também uma matéria pictórica rica em nuances, seja nos tons, nos gestos, ou mesmo nos desbastes que acabam por agregar uma ideia que se opõe (e complementa) à precisão e puro rigor inicialmente atrelados ao pensamento geométrico. Nas fotografias que a artista apresenta percebemos a mesma estrutura construtiva subjacente às imagens a qual é igualmente interpelada e contraposta por uma leitura opaca, não muito clara em seu primeiro momento, mas que, pouco a pouco, permite-se desvelar.
O conjunto de imagens fotográficas apresentado por Celina Yamauchi traz sua investigação dirigida ao sistema digital onde procura associar as qualidades da luz capturada e interpretada aos valores cromáticos e tonais em impressões fotográficas a jato de tinta. A montagem valendo-se de tiras de papel penduradas em forma de varal, dialoga com o caráter etéreo do trabalho.
A série "Portas de enrolar" de Marcia Cymbalista consiste em vinte trabalhos feitos de 2014 até o presente momento. No limiar entre desenho e pintura, a têmpera a ovo serve como fundo para diversas intervenções com pontas de metal (ouro, prata, cobre e latão). Algumas ferramentas utilizadas foram adaptadas de instrumentos de desenho e gravura, assim como de objetos cotidianos. Ao atualizar este procedimento secular, que leva em conta a oxidação das linhas e sua consequente mudança de cor, o trabalho sugere a convivência entre tempos distintos.
A obra em vídeo de Marco Buti intitulada “que fazer da chuva, da sombra e da brisa” foi iniciada em 2011 com a captação da primeira cena. O título surgiu este ano, adaptado de um volante anunciando uma peça teatral em Bruxelas em 2015. Até agora são 10 sequências, editadas através de um programa de edição básico, sem previsão quanto à possível continuidade do trabalho. 
Já a série de gravuras “atacamachaça” é um trabalho iniciado em 2012 com uma única matriz de cobre que vem sendo alterada sucessivamente até hoje, sem que se intencione nenhuma conclusão.
Embora imersos em suas poéticas particulares, os quatro artistas demonstram o mesmo gosto pela brecha que aninha a fala baixa (ou o próprio silêncio) à grandiloquência dos grandes discursos.

ABERTO AO PÚBLICO

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Maurizio Cattelan

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