As pedras no caminho de Matheus Rocha Pitta
Literatura, artes plásticas e ação social se misturam em individual do artista no Rio
Radicado no Rio de Janeiro há duas décadas, o artista mineiro Matheus Rocha Pitta conhece bem a realidade de pobreza e exclusão da capital fluminense. E, para sua mais nova exposição, literalmente “tirou leite de pedra”: em julho passado, na comunidade da Maré, trocou mais de mil litros de leite por pedras para a realização de um projeto escultórico. Agora, esta e mais três obras do artista podem ser vistas na individual “Caminho da Pedra”, com curadoria de Luísa Duarte, em cartaz no Espaço Cultural BNDES até 30/11.
“Tirar leite de pedra é uma expressão popular que significa fazer algo impossível. De uma certa forma ela traduz o famoso dito de Hélio Oiticica: ‘da adversidade vivemos’. ‘Leite de Pedra’ pretende fazer tal adversidade visível”, pontua o artista.
As quatro obras articuladas no espaço expositivo da Galeria BNDES são inéditas no Rio de Janeiro. Em comum, mesclam a memória de narrativas literárias – tal como o poema de Carlos Drummond de Andrade, que batiza a mostra – ao fazer artístico e à ação social. A “pedra” na trajetória de Matheus, entretanto, não significa obstáculo: pelo contrário, representa o despertar da poesia a partir do que à primeira vista seria considerado hostil. “Esse é o caminho da pedra: conseguir responder aos impedimentos com delicadeza”,diz Rocha Pitta.
MAIS OBRAS
Além de “Leite de Pedra”, a exposição inclui a escultura “Sopa de Pedra” – uma alusão à lenda portuguesa do estrangeiro que congrega moradores de uma cidade em torno de uma refeição feita inicialmente só com pedras. Na galeria, Matheus exibe legumes reais e outros feitos de pedra-sabão, ingredientes da sopa que o artista de fato fez e serviu a amigos, moradores de rua e transeuntes em cidades como Londres, Porto Alegre e Rio de Janeiro entre 2014 e 2018. Registros em foto e vídeo mostram como as pessoas se reuniram em torno da sopa nas ruas, quebrando barreiras socioeconômicas.
Já em “Aos Vencedores, As Batatas”, o artista remete à obra de Machado de Assis para evidenciar a banalidade da vitória nos dias atuais – em que “vencer na vida” muitas vezes equivale a uma situação precária de sobrevivência, a uma “luta” cuja glória é esvaziada. Na instalação, os troféus se mostram petrificados e substituídos por sacos de batata. Segundo Matheus, a instalação se relaciona com as demais, em que se “tira leite de pedra” nas relações de troca. A obra passou por Berlim em 2017.
E, por fim, o artista convida o público a interagir com a obra “Primeira Pedra”: uma instalação em que pedras-esculturas feitas por Matheus podem ser levadas para casa, desde que os visitantes as troquem “pela primeira pedra encontrada na rua e que encha a sua mão”. As pedras são depositadas sobre folhas de jornal do dia anterior, no lugar de cubos de concreto esculpidos pelo artista. A instalação, que pertence ao acervo da Pinacoteca de São Paulo, foi exposta em São Paulo em 2015 e remete à passagem bíblica em que Jesus convoca pessoas que nunca pecaram a atirar “a primeira pedra” numa mulher adúltera. O ato da troca evoca questões diversas, desde o inconformismo na imagem de se carregar uma pedra da rua até o questionamento do status de luxo da arte.
SOBRE O ARTISTA
Mineiro, radicado no Rio de Janeiro há 20 anos, Matheus Rocha Pitta sedimentou interesses e estratégias que permitem identificar, em uma obra que se adensa a cada novo trabalho, enunciado crítico sobre os gestos que regem a vida comum. O artista remove os gestos de seu fundo biográfico e os apresenta como atos estéticos com uma dimensão histórica. Através do uso de fotografias, vídeos, esculturas e instalações, Rocha Pitta constrói seu próprio repertório de gestos, ativados diretamente com o público de suas exposições. Sem apelar para enunciados discursivos de disciplinas que tomam os gestos de troca como objeto de investigação (economia, filosofia, política), Rocha Pitta articula objetos e imagens que inventa para gerar conhecimento que não cabe nesses campos de estudo, mas que assumem implicações éticas de grande alcance.
Caminho da Pedra tem curadoria de Luísa Duarte e produção executiva de Rosa Melo Produções Artísticas. A classificação etária é livre e
o programa educativo da exposição é coordenado em parceria pelas arte-educadoras Mariane Rodrigues e Pamela Carvalho, da ONG Redes da Maré.
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Sopa de Pedra.
SERVIÇO
Caminho da Pedra - exposição de Matheus Rocha Pitta
Visitação (entrada franca): até 30/11/2018 (seg. a sex., exceto feriados, das 10h às 19h)
Classificação etária: livre
Onde: Espaço Cultural BNDES (av. Chile, 100, Centro, Rio de Janeiro. Próx. metrô Carioca)
Agendamentos educativos: educativo.caminhodapedra@gmail.com
Informações: www.bndes.gov.br/espacobndes; espacobndes@bndes.gov.br






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