quarta-feira, 12 de setembro de 2018

abertura | maria baigur | angelus | amanhã | 12 de setembro | texto de felipe scovino


A primeira impressão que tive ao ver a mais recente série de trabalhos de Maria Baigur, chamadaAngelus, foi tentar identificar a razão desse conjunto de movimentos e ações improváveis, acontecendo em lajes ou coberturas de prédios. Imagino que a dúvida do espectador não seja muito diferente. O que essas pessoas estariam fazendo? Essa transmutação do espectador em detetive, elucidando as imagens através de pistas deixadas pela artista, é um agenciamento pertinente e perspicaz na obra de Maria. Há um tom de mistério que precisa ser esclarecido por nós. Uma das ações mais fascinantes dessas fotografias é a sua própria incompletude, isto é, nunca saberemos ao certo, por exemplo, o que motivou aquelas pessoas a, em maior ou menor grau, arriscarem suas vidas, aparentemente em troca de algo tão corriqueiro e pequeno, como, já supondo, o conserto de um telhado ou o reparo em uma antena.
Nessa exposição, o espectador conseguirá vislumbrar a totalidade da série e compreender, portanto, a sua função narrativa. Agrupadas, essas fotos constroem uma poética lírica. Particularmente, não as interpreto como uma crítica ao abismo socioeconômico brasileiro, em geral, e carioca, em particular, visto que os prédios estão baseados no Rio de Janeiro. Digo isso porque invariavelmente são coberturas de prédios localizados em áreas econômicas mais abastadas da cidade. Não vejo uma crítica da artista ao modelo de habitação e repartição social. E isso pode ser uma força do trabalho ou ao menos um modo muito particular e singelo de observar o Outro. Contudo, quem está nas fotos são em sua maioria trabalhadores que não são os proprietários daqueles imóveis. Além disso, seus gestos ambíguos aliados à capacidade de Maria em criar suspeitas sobre o que vemos, condicionam o nosso olhar a duvidarmos sobre as certezas. Notadamente as fotografias se relacionam ao mundo do trabalho, pois invariavelmente são trabalhadores realizando seus ofícios: pintando, consertando, reparando, construindo algo. Mas é o momento em que isso fica em suspenso e adentramos em uma atmosfera que rapidamente constrói outra cena e visibilidade desse cotidiano tão usual nas grandes cidades que traz potência à obra. Percebam em Angelus #2, por exemplo, que o homem em sua solidão introspectiva parece observar o que se encontra logo abaixo dele, mas também é possível suspeitar que ele pensa que há algo de muito terrível acontecendo. Parece, em um instante, estar à beira do abismo e logo o signo da finitude se faz presente. É essa indefinição do que se coloca diante de nós, essa capacidade da imagem produzir os mais distintos significados, que transforma o espectador em investigador. E em Angelus #4, o que acontece? Uma briga, uma acusação, um atrito ou simplesmente uma conversa trivial? O método narrativo criado pela artista traz o elemento da suspeita, característica largamente presente no contemporâneo. O medo, a violência e os aparatos de vigilância, poder e controle nos transformaram em sujeitos desconfiados e reticentes. Tudo pode ser ameaçador ainda mais sobre o signo de uma intensidade acelerada. Qual foi a sua primeira impressão sobre Angelus #5 e #6? Estaria aquele homem roubando ou consertando algo na casa? Já em Angelus #11, o homem aparece com uma camisa cobrindo o seu rosto e ao que parece, à primeira vista, vislumbrando um dos apartamentos do prédio vizinho. Em ação suspeita, logo nos colocamos em alerta e o julgamos por isso. Distinguir, refletir, analisar, compreender o Outro e não ser levado ou tomado pela primeira impressão são ações que estão constantemente ocorrendo nessa série de fotos. Rápidas e previsíveis apropriações sobre o Outro passam a ser questionadas.
O artista como voyeur é outra circunstância colocada. Maria captura essas imagens/histórias a partir de uma distância segura. Nenhum desses personagens, por assim dizer, a viu. Ela se instala de modo a ser uma observadora. E dessa forma nos revela histórias que constantemente acontecem e dificilmente são vistas. Essa mudança de perspectiva do olhar – fazer com que nos aproximemos de uma cidade oculta que só é presenciada e construída por poucos – é outro ponto de distinção que a série traz. Importante dizer que Maria não está interessada na beleza dos corpos ou da paisagem mas em um estado que se revela simultaneamente imerso em tensão e atenção. Esta atmosfera é ressaltada pela escolha da impressão em preto e branco. O drama ganha mais intensidade e a assertividade se transforma rapidamente em dúvida. As fotos, ao terem o telhado como local da ação, revelam um ambiente fechado e de confinamento. Por esse motivo, há uma sensação ainda mais potencializada dos gestos, comportamentos e atitudes dos indivíduos. Não é à toa, portanto, que uma das referências da artista seja O Anjo Exterminador (1962), de Luis Buñuel. Neste filme, os personagens de uma classe social abastada se veem presos na sala de jantar de uma mansão, apesar de não haver qualquer barreira física que os impeça de sair daquele recinto. As barreiras são imaginárias. Pouco a pouco, as convenções sociais se perdem e o que se revela entre os personagens são os seus mais sórdidos sentimentos, desejos e ações. Nesse encontro entre filme e fotografia, se sobressai a ilusão da aparência e o quanto estamos imersos em possibilidade, expectativa e imprevisibilidade.
Maria utiliza um método discursivo cinemático com esse conjunto de fotografias. A imagem isolada não é bastante para representar o seu pensamento, prefere agrupá-las de modo a criar cadências. O processo criador passa, assim, por duas etapas: o recorte da realidade no ato de fotografar e a construção de outra realidade cujos parâmetros são o significado do conjunto e o seu ritmo interno. Em Angelus #9, a linha divisória entre o corriqueiro e a morte é quase inexistente. Sentado à beira de uma parede no alto do prédio, o operário trabalha passivamente enquanto um precipício é revelado. O que nos faz pôr em risco as nossas vidas? Qual é o limite para essa atitude? É a qualidade desses questionamentos revelando contradições (vida/morte; trabalho/crime; fora/dentro; revelação/obliteração) que interessam a Maria. Nada é dado de antemão, pois a imagem - e a vida - precisa ser escavada, isto é, precisamos desmembrar e revelar as várias camadas que compõem aquilo que vemos. No fim, o legado da experiência dessas obras nos diz que é necessário hesitar sobre aquilo que vemos.
Felipe Scovino
Apoio: W*Kattz Cervejaria Artesanal


GALERIA MERCEDES VIEGAS
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