terça-feira, 10 de abril de 2018

Paulo Laender entrevista dada a Isabela Teixeira da Costa


Um artista completoNascido em Teófilo Otoni, cresceu no meio de artistas e uniu arquitetura e artes plásticas

Isabela Teixeira da Costa
Publicação: 08/04/2018 04:00



Pode-se dizer que Paulo Laender é um artista multifacetado. Desenha em bico de pena, faz litografia, gravuras em metal, pintura, esculturas em madeira, bronze e aço, peças em cerâmica, além de ser designer de joias e confeccionar suas criações. Mas não para por aí. Laender é arquiteto dos bons. Nascido em Teófilo Otoni e criado em Belo Horizonte, teve nessas duas cidades as grandes referências de sua vida: suas avós. Paralelo a tudo isso, criou seu único filho, Cristiano, que morou com ele desde os 7 anos. Sua única paixão é não ter voz para cantar – se diz muito desafinado –, mas atribui ao talento nas artes a compensação pela perda de audição que o impede de perceber as nuances da melodia, não lhe permitindo identificar as sutis variações musicais. Paulo está com exposição de seus trabalhos na Minas Contemporânea Galeria de Arte até 21 de abril.

Como foi essa vida dividida entre Belo Horizonte e Teófilo Otoni?
Vim para Belo Horizonte com dois anos, mas passava as férias escolares em Teófilo Otoni até os 12 anos. Meu pai é filho de imigrante alemão que veio para Brasil e fez fortuna em Teófilo Otoni. Teve lavoura de cacau e café, pecuária e também trabalhava com pedras preciosas. Meu pai, Aderbal Laender, morava no Rio de Janeiro e veio para Belo Horizonte para estudar medicina, conheceu minha mãe e se casou. Tentou montar clínica em Teófilo Otoni, mas minha mãe sempre o puxou para cá.

Em quê essa vivência nas duas cidades o influenciou?
Tive duas casas que foram referencias muito fortes para mim. Uma foi o casarão da minha avó Cocota Frade, na Rua Paraíba. A casa tinha uma placa de 1720 no alto da fachada, um varandão lindo e imenso, o quintal era maravilhoso. Minha tia Neli me criou, ela foi aluna de Guignard. E sempre estavam em sua casa Maria Helena Andrés, Estevão, Marília Giannetti. Tenho a lembrança de eu ainda criança pintando o fundo dos quadros para eles e escutando as conversas.

Foi essa convivência que o levou a ser artista?
Acho que foi o cheiro de terebintina que me pegou. Ficou grudado em mim desde a minha infância (diz entre risos). Depois estudei com Maria Helena em várias épocas da minha vida.

E a segunda casa que o influenciou?
Foi a casa da minha avó paterna em Teófilo Otoni. Quando eu ia pra lá, a fazenda ainda funcionava. Via a prosperidade e aprendia a coisa bucólica rural, da mata atlântica que ainda existia, via os índios maxacalis. Saía com meus primos, via onças, catava pedras preciosas na beira do rio. Tudo isso ainda muito criança. Com 6 anos conhecia todos os tipos de pedras que existiam na região. Eu campeava gado com os vaqueiros, andava a cavalo. Só parei de ir pra lá no início da juventude, porque já estava com turma aqui em Belo Horizonte e ficava por aqui para “curtir” com o pessoal. Essas duas pontes fizeram meu córtex. Absorvi o que foi fundamento da minha história e desse meu interesse artístico.
Pode-se dizer que sempre levou jeito para as artes?
Não sei, acho que foi mais uma compensação. Na minha juventude, todo mundo cantava e tocava violão, nessa época percebi que era muito desafinado. Quando era criança tive muita pneumonia, meu pai era médico e me enchia de estreptomicina, mas isso queimou meus capilares auditivos, e em consequência, não percebo a frequência do som e isso me impede de conseguir a afinação. Na época em que eu estudava no grupo tinha aula de canto e a professora me tirava na hora. Sempre achava que ia solar, mas acabava fazendo os cartazes. Não sei se levava jeito para o desenho, mas quando temos deficiência em alguma área desenvolvemos outra. Sempre desenhei. Procuramos nos expressar onde conseguimos, é a lei da compensação. Leonardo da Vinci tinha deficiência auditiva. Sempre tive tendência para desenho e por isso fui estudar arquitetura.

Quando decidiu ser artista plástico?
Quando ainda estava no ensino médio já frequentava a Escola Guignard como ouvinte, e me interessei muito por gravura. Fiz uma amizade muito profunda, que existe até hoje, com  Lotus Lobo, e criamos, junto com Roberto Vieira, Clara Kaiser e Nivea Bracher e Lúcio Walker (esses dois já nos deixaram), o grupo Oficina de Gravura, no qual trabalhávamos com litografia. Era sensacional, criamos muitas gravuras lindas. Tenho um projeto de resgatar o grupo e fazer um trabalho com eles, mas atualmente está muito difícil de emplacar projeto.

Quando fez sua primeira exposição?
Foi em 1963, no Minas Tênis Clube, com Palhano Júnior. Eram desenhos em bico de pena. Éramos três alunos de Maria Helena Andrés – o irmão dela Antônio Eugênio Sales Coelho e   Luiz Lanza, arquiteto.

Continuou produzindo nas artes?
Sim. Dos desenhos passei para as gravuras e me mudei para o Rio de Janeiro para estudar gravura no MAM, onde tinha o melhor estúdio de gravura do país. Estudei com Edith Bhering, Ana Letícia. Aprendi gravura em metal e lá também aprendi a pintar. Conheci Antônio Dias, Rubem Guerchman, Paulinho Bittencourt. Fiquei lá três anos. Vim a Belo Horizonte para as férias, fiz vestibular, passei e voltei para fazer arquitetura.

O que o levou a fazer arquitetura, já que estava gostando tanto das artes?
Tudo na minha vida vem de histórias que me marcaram na infância. Quando tinha 7 anos, o meu tio Wilson Frade me levou para passear com ele pela Pampulha. Ele tinha um carro Nash coupê conversível 1953, dois lugares, e me levou ao Iate em um domingo. Vi as mulheres de maiô Catalina e óculos Dior e os caras com boné de Comodoro e foulards. Achei que estava em Hollywood. Antes, ele passeou comigo pela orla da lagoa, vi a igrejinha, o cassino, fiquei fascinado pela arquitetura de Niemeyer. O fundo para aquela viagem toda eram iates navegando, coisas que eu nunca tinha visto. Isso me marcou muito e me levou a querer fazer arquitetura para criar coisas lindas assim. Meus colegas, que se formaram comigo na arquitetura na década de 70 – nos encontramos mensalmente, somos grandes amigos –, todos nós entramos para a profissão por causa do Niemeyer. Ele foi importantíssimo na cabeça dessa juventude que pensava a estética do ponto de vista formal. Mesmo sendo artista, isso bateu em mim e tenho uma paixão imensa por arquitetura. Eu vivi fazendo casas. Tenho uma escultura que é uma casa, a Casa do Mago. Eu vivo fazendo arquitetura.

Trabalhou muito com arquitetura?
Quando formei me dediquei muito. Era colega e amigo de Cid Horta, do Veveco Hardy. Tive escritório com o José Eduardo Ferolla por 20 anos. Mas a arquitetura começou a cair, a demanda diminuiu na época do Plano Cruzado. A arte começou a me dar mais demanda e voltei a investir mais na arte. Mantive escritório sozinho por um tempo. Mas depois fiquei só com a arte.

Mas estava feliz e realizado trabalhando só com arquitetura?
Sim, muito. Amo a arquitetura, mas é muito difícil porque depende do cliente, da opinião da sogra, do filho, do cunhado... E paga-se muito mal. É muito desgastante fazer arquitetura em um país como o Brasil que não tem cultura para absorver possibilidades. Se for pensar a profundidade da arquitetura brasileira é inacreditável. O Brasil, em 1943, quando fizeram o Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro, Gustavo Capanema chamou Oscar Niemeyer. O Brasil não valia nada, não existia no cenário mundial. Quando ficou pronto, os maiores arquitetos do mundo vieram aqui ver o que era aquilo, que arquitetura era essa que esses caras estavam fazem nessa roça? Le Corbusier (o arquiteto suiço Charles-Edouard Jeanneret-Gris), se tornou amigo de Niemeyer e trabalhou com ele. Ali nasceu a arquitetura brasileira com uma força tão violenta e maravilhosa, junto com o modernismo, na década de 40, que também formaram os melhores pintores, como Di Cavalcanti, Guignard, Portinari. Uma escalação de cair para trás. O Modernismo também trouxe a literatura de qualidade com Carlos Drummond de Andrade e até mesmo Jorge Amado. Tudo explodiu com o Modernismo brasileiro. Tenho uma ligação explicita com o modernismo. Minhas amebas, minhas curvas, tudo tem uma referência ao modernismo porque é uma das épocas mais brilhante que o Brasil já teve e essa herança veio de lá. E Oscar Niemeyer colocou a arquitetura no patamar internacional.

Conheceu Oscar Niemeyer 
pessoalmente?
Sim. Um grupo de arquitetos amigos, eu entre eles, montamos uma revista chamada Pampulha, e saímos daqui para entrevistar Niemeyer para o número de estreia. O Ferolla tinha um fusquinha chamado Amélia e fomos ele, eu, Éolo Maia, Veveco e outro colega de quem não me recordo o nome agora. Fomos os cinco para o Rio de Janeiro entrevistá-lo. Eu  liguei para o escritório para pedir a entrevista. Ele veio ao telefone e conversou comigo. Virei o contato para isso. Recebeu o grupo maravilhosamente. Deu a entrevista, depois descemos para um restaurante famoso que tinha embaixo do escritório dele e ficamos horas conversando. Veveco ficou amigo dele até o final da vida e fizeram muitos trabalhos juntos.

Como começou com a escultura?
Sou muito curioso, via as coisas acontecendo perto de mim e queria saber como era. Com isso comecei com desenho, gravura, pintura. Como disse, conhecia muito de pedras preciosas e, de novo, minhas lembranças de criança. Passávamos algumas férias no Rio de Janeiro e Burle Marx tinha uma loja em Copacabana, sempre que passava por lá indo e vindo da praia, parava para ver suas joias. Ele não só trabalhava com a pedra, mas também esculpia a pedra. Eu tinha sete anos e guardei isso. Na juventude, estava meio hippie e comecei a fazer joias em prata, desenhava e fazia. Voltei a fazer, só não faço em ouro porque tem que estar muito treinado, porque o ouro é muito caro e não dá para desperdiçar material. Trabalho com prata como ferreiro, na bigorna, batendo, uma coisa bruta, rústica, primitiva. A arquitetura me deu noção da terceira dimensão, e existiam poucos escultores em Belo Horizonte, então entrei na escultura, primeiro na madeira, depois bronze, e há 10 anos passei a trabalhar com o aço. Minhas tatuagens são as cicatrizes das máquinas.

E a cerâmica?
É uma coisa mais ou menos nova. Quando tive ateliê em Lagoa Santa, no final da década de 80 até meados de 90, tinha chegado do Oriente, de uma viagem à Índia, Nepal, Bali, China, etc. Um amigo me chamou para montar uma indústria de joias e eu topei. Tivemos muito sucesso, eu desenhava e ele produzia. Foi muito rentável, vendíamos em dólar, viajávamos para os Estados Unidos duas a três vezes por ano. Tínhamos representantes nas principais capitais americanas. Mas com o tempo a sociedade não deu certo, porque ele não esperava que eu ficasse tão importante. Saí disso e fiquei 20 anos sem mexer com joias. Fui reconhecido internacionalmente e vi passar pelos dedos. Montei um ateliê em uma antiga casa de fazenda e ao lado do curral tinha uma cerâmica fechada, e estava cheia de argila. Comprei um torno e comecei a fazer racu. Você só consegue centrar a argila se está centrado. Se estou com a cabeça agitada vou para o torno. Dá fio terra, porque mexe com a terra. Enquanto isso construía minha casa na Vila do Conde. Comprei dois terrenos lá quando a ex-ministra Zélia Cardoso disse que a poupança era imexível. Tirei o dinheiro na mesma hora. Falei com meu ex-sócio, mas ele me chamou de louco. Ele perdeu tudo o que tinha. Eu fiquei com dinheiro e os terrenos no Conde, um passei para o Cristiano, meu filho de 42 anos, e fiquei com o outro.

Pretende voltar à arquitetura?
Estou com um projeto p fazer uma exposição no saguão da Escola de Arquitetura que o título seria “Algumas arquiteturas imaginárias, outras nem tanto”. São arquiteturas que eu penso e vou fazer as maquetes delas como esculturas e meu filho, que é arquiteto também – todo pai da minha geração tem um filho que é arquiteto, é uma praga total –, vai desenvolver para mim virtualmente, fazer desenho digital, perspectivas de tudo, e projeto arquitetônico 3D. Se aparecer um doidão querendo construir uma casa daquele tipo será possível, porque estará projetado para isso. Vou voltar à arquitetura. Talvez não comercialmente, mas de maneira de pensamento, propostas, teoria, escritos arquitetônicos utópicos, por que não? Filosoficamente, você se propõe a pensar de uma forma diferente e isso tudo para mim é arte.

Para você, o que significa ser artista?
É tão importante ser artista para mim que eu me direciono para isso e o trabalho de arquitetura me ajudou muito na minha arte. Aprendi a planejar, medir, ter proporção. A formação arquitetônica ainda é o último resquício na formação humanista do mundo. O arquiteto é preparado para muitas coisas, trabalha em função do homem, do bem-estar, da proporção, da cidade, das medidas, do conforto. Tem milhões de possibilidades de trabalho. São maleáveis, fazem diversos tipos de coisas, são preparados para isso. A formação arquitetônica é maravilhosa. Tanto do ponto de vista cultural quanto técnico. Algumas pessoas percebem isso no meu trabalho, porque invade determinados campos que a arquitetura me proporciona. Tenho uma possibilidade de enfoque mais ampla, porque chegou mais conhecimento à minha mão. Amplitude da arquitetura vai até a filosofia.

Quais são seus planos?
Depois dessa exposição que está aqui, na Galeria Minas Contemporânea, da Celma Alvim, que fica até 21 de abril, vou para a Europa ficar lá por um ou dois meses. Quero resgatar contatos antigos que tenho lá, de quando fiz cinco exposições, porque tenho portas abertas. Quero produzir minhas peças lá – fica mais barato do que levar daqui –, e expor meus trabalhos. Pátria é onde passam manteiga no seu pão.





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Maurizio Cattelan

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