sexta-feira, 23 de março de 2018

Exposição Camile Sproesser | Pantera Serpente e outros amuletos | curadoria de Ana Prata e Bruno Dunley

Pantera Serpente e outros amuletos
Intitulada Pantera Serpente e outros amuletos, Camile realiza sua primeira exposição individual. O título acrescenta um sentido enigmático ao trabalhopois amuletos costumam ser peças de esfera íntima,que guardamos e confiamos por nossa conta e risco. De certa forma nos cabe buscar entender e formular internamente um sentido para o que vemos, de maneira similar ao modo como atribuímossignificado a um objeto tornando-o um amuleto.
Camile de fato não é o tipo artista cheia de intenções previamente construídasportanto é necessárioolhar e entender o que ela busca comunicar na construção de linguagem que ela organiza dentro da tela, ou seja, como ela associa os elementos de sua gramáticanão pré-condicionada ao discursomas aindaassim urgindo por nos dizer algo. Este último aspecto me interessa de um modo geral ao olhar para arte, a capacidade que uma coisa feita tem de nos dizer algo e nos tocar de fato.
Na introdução de seu livro de ensaiosHow To See, David Salle ressalva que ao olhar um trabalho devemos buscar de fato entender o que aquilo nos leva a pensar e sentir, e não o que supostamentedeveríamos pensar baseados em algum discurso externo ao trabalho, em última instânciasermos maishonestos conosco. Como ele mesmo diz, às vezes o texto na parede nos fala sobre as mil estratégias doartista e você se encontra pensando em outra coisa qualquer, talvez até onde fique a cafeteriaEle buscauma leitura mais ensaísticasendo um artista e não um crítico ou historiadore é nesse caminho quebusco olhar para o trabalho de Camile, uma artista que está iniciando sua trajetória.
Me lembro quando em uma das primeiras visitas que fiz ao atelier-casa de Camile, sem saber muito bem o que me esperava, uma pequena pintura pendurada na parede de fato me capturou, essa pintura se chama Colibri Astral, de 2017, e nela está escrito ARISE DEAD BIRDAcho que ao falar deste trabalho, e como o senti neste primeiro encontro, consigo expressar o que sinto em relação ao seu trabalho de ummodo geral.
Uma coisa escrita costuma exercer muita força sobre nosso pensamento, o verbo costuma ser dominante, ARISE DEAD BIRD é uma frase carregada de poesiame remete à fala de uma criançaqueclama por alegria, por açãopor um lindo vôo  ignorando a morte que existe neste mundo, a tristeza - a criança naquela pulsão de vida com a qual somos natos. O que acontece é que apesar da força destafrase, não foi ela que me chamou a atençãoe sim a própria pintura enquanto objeto. A própria pinturacarrega em si uma pulsão de vida, celebrativa, urgente, viçosaPorém o seu aspecto infantil nos leva auma espécie de nostalgiauma tristezinha guardada, que não nos deixa enganaro mundo é duroé luta,se a criança não sabe disso aindanós sabemosCamile sabeCom suas cores extravagantes, sua tinta massuda assentada de maneira sensual, uma mancha se encaixando na outra, bem pertinho numa espécie de carência umas das outras, dividindo o mesmo espaço de forma amorosaesta pintura temsimultaneamente um caráter combativoporque os trabalhos de Camile parecem ser feitos com certa pressa, com certa urgência e ansiedade. A alegria e o amor como urgência nos fazem lembrar dos seusantônimosafinal porque alegria e amor são importantes e urgentes?
O trabalho de Camile é um agregado de significados, as frases muitas vezes têm direções própriasàsvezes não lembramos o que lemoselas não estão lá para totalizar ou resumir, mas para agregar, àsvezes elas nem estãoJunto vemos manchas abstratas, gordas ou magras, junto de figuras, que muitas vezes parecem brinquedos, doces, artigos de sex shop, coisas de plásticoTrata-se de uma pintura meio gulosa, que parece dizer: pode vir que você também cabe nesse retângulo-maravilha.
Eu pensei que queria levar aquela pintura pra casa, como um objeto de sedução meio imediata. Mas o trabalho não se reduz a este traçoum segundo depois ela te recoloca no mundo real, como uma droga de efeito rápidoe nessa ambiguidade eu acho que mora o verdadeiro valor do trabalho.
Definitivamente ali não é um lugar de descanso, tudo flutua e você tem que olhar de novo para que nãote escapem coisasnão se trata de uma pintura contemplativaainda que carregada de afeto. Por trás deuma aparente festa que se consome rapidamente, de certa euforia de cores e coisas”, por trás dessasensualidade melequenta de tinta, me parece haver uma necessidade ansiosa de dar conta deste mundo missão impossíveltalvez patéticatalvez heróicatalvez palhaçaque é ao mesmo tempo engraçada e profunda. ARISE DEAD BIRD.                                                   
                                                                                                                        Ana Prata

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Maurizio Cattelan

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