sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Sergio Lucena - Silent. Curadoria: Julia Lima na Galeria Eduardo Fernandes



Poeira de pintura
De vigor e leveza, matéria densa e de luz é feita a pintura do artista Sergio Lucena, em individual na galeria Eduardo Fernandes, em São Paulo

Julia Lima
curadora independente.



Escrever sobre o trabalho de Sergio Lucena e sua próxima exposição é falar em uma chave de entendimento duplo: como um prefácio a esse momento específico, que consolida algumas etapas recentes de sua produção; mas também como contextualização de uma pesquisa e uma prática amplas que vêm se desdobrando há mais de uma década. O artista encontra-se em um momento auspicioso – não só está preparando a primeira mostra solo na galeria que agora o representa, Eduardo Fernandes, como também vem produzindo trabalhos para a feira de Chicago e a Untitled em Miami a convite de Mariane Ibrahim, galerista que o representa nos Estados Unidos. Essa conjunção, associada a uma insaciável busca pelas questões (às vezes sem resposta) que o ofício de artista traz, abriram mais e maiores possibilidades de arriscar-se no campo pictórico.
Nascido na Paraíba e radicado em São Paulo, Lucena tem uma trajetória que até poderia ser vista como previsível, uma vez que a passagem da figuração à abstração já foi realizada por tantos, antes e depois. Mas há aqui uma singularidade que merece ser mencionada. O imaginário folclórico nordestino e a força telúrica das tradições regionais eram evidentes nas cenas fantasiosas que criava no início de sua carreira. Uma abundância de elementos foi suplantada não por uma abstração igualmente carregada, mas por uma espécie de campo plano e profundo de cor e luz que, às vezes, se dava a mostrar linhas ou círculos em contrastes matizados, e outras, insinuadas paisagens.
No desenvolvimento dessa maneira diametralmente oposta de lidar com a pintura, e com os desafios que surgem no diário embate no ateliê, Lucena tem experimentado com desapego ao trabalho já estabelecido. Algumas de suas obras, conta, demoram mais de um ano para ficarem prontas. Outras são o resultado de uma segunda empreitada, pois o tempo impõe a necessidade não apenas de revisão, mas de completa refatura. Ele sempre conjura a imagem de uma espiral, que passa de novo e de novo sempre pelo mesmo ponto, mas nunca no mesmo lugar.
Neste novo conjunto – em parte apresentado na exposição –  a vibrante paleta que emergia perfurante na série ænigma, por exemplo, tem sido aplicada agora sob tons pastéis enevoados, que criam uma espécie de véu que turva a imagem; a linha que remete a um horizonte de paisagem ou oceano, tão reiterada no passado, agora se faz presente em uma ou outra obra. Diante desses quadros poderia-se quase ouvir o mar quebrando em espuma na areia, ou sentir a brisa, ou o mormaço, ou ouvir os ruídos todos. No entanto, essa sinestesia dá lugar a um silêncio profundo, um estado constantemente pesquisado e pretendido.
Em frente a uma tela que era simultaneamente branca e colorida, o artista comentou com despretensão: “Aqui há poeira de pintura”, uma colocação desconcertante – são tantas as camadas de tinta sobre o tecido já esticado no chassis (muitos chegam a carregar mais de 1 kg de matéria), que a ideia de um pó leve e ralo é o extremo oposto do que o olho vê em suas obras. E mais, assistir ao pintor agilmente agarrar um pincel e investir contra a tela, presenciar a intensidade da pincelada feita com um trincha larga, uma fatura bruta, reforçam esse estranhamento com a associação ao pó. Entretanto, é nas finas camadas delicadas se acumulando que talvez resida essa percepção do resíduo, de algo rarefeito que é, ainda assim, capaz de tudo cobrir.
Vê-lo pintar também permite entender a gestualidade dos trabalhos, algo que não fica muito claro ou que não se revela de imediato – é como ver uma dança. É claro que não há nada de novo em imprimir um ritmo corporal da pintura – Pollock e Tomie Ohtake são apenas dois dos incontáveis exemplos dessa relação performática-pictórica. No entanto, para Lucena, não há a coreografia livre em direção ao chão com bruscas levadas centrípetas de braço e mão, ou a repetição controlada de uma escrita que cria padrões meio geométricos, mas uma quase mecanização do gesto, que evoca não a action painting, mas o operário interpretado por Charlie Chaplin e seus movimentos repetidos incontrolavelmente.
Sendo o artista um homem alto, há aí também uma outra relação curiosa com o corpo, que é impulsionado contra a superfície em toda sua dimensão, em toda sua envergadura. Mais curioso ainda é sua insistência de que, assim, as telas de pequena dimensão são seu maior desafio. O esforço exigido pelas telas amplas é um mergulho de corpo inteiro. Nas menores, um arrastar-se na água na altura dos joelhos, algo que ele chama de assentamento, uma tentativa de resolver problemas que as pinturas grandes suscitam mas que precisam ser depurados, destrinchados, antes de então voltar à estrutura expandida.
De novo a figura metafórica da espiral surge e, quando perguntado se vê como um problema o fato de voltar de novo e de novo aos mesmos impasses, Lucena responde: “O desafio é sempre o mesmo, foi antes, é hoje e será adiante, a pintura almejada jamais é alcançada, o desafio é permanente, sua qualidade é que muda.” Lidar com isso parece demandar um porto seguro para suas tentativas de explorar os entornos. “Sei onde estou, qual é meu chão, e por isso me dou ao luxo de ‘passear’ – porque sempre tenho um lugar para voltar”. 



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Maurizio Cattelan

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