quinta-feira, 29 de junho de 2017

Jonas Aisengart na CoGalleries, Berlin.Pindorama Remix. Texto Guilherme Gutman




Junho de 2017 - CoGalleries, Berlin.
Texto Guilherme Gutman
Fotografias: Tahian BheringFilipe Marques e Eduardo Magalhães



Jonas Aisengart: notícias de um outro Pindorama.

Guilherme Gutman
Médico Psiquiatra e Psicanalista, Prof. de Psicologia da PUC-Rio e da EAV - Parque Lage, Curador independente e Crítico de Arte

Há na obra desse artista um caráter transgressivo, porque quando Jonas se deparou com o Mal, não recuou diante dele; ao contrário, procurou acolhê-lo, ainda que a grande preço; esta é a sua ética.
Jonas trabalhou com seus pincéis e com as suas mãos - com os quais produz as suas telas e objetos escultóricos - indo tão longe quanto pôde, em seu processo de criação e, sem opção, ele avança em direção a algo que denominaremos “maldade pictórica”.
Uma espécie de força pulsional empurra Jonas a “fazer aparecer” em seus trabalhos um apanhado de personagens, de situações e de cenas representativas dos assim chamados, digamos, em uma linguagem mais médica, de “perversos”.
Mas se buscarmos a etimologia do adjetivo “perverso”, encontraremos o latim em perversitas et perversus, particípio passado de pervertere que contém uma multiplicidade aberta e interessante de significados: retornar, derrubar, inverter, erodir, desorganizar, cometer extravagancias.
Historicamente, a filiação histórica de Jonas é a de outros grandes criadores transgressivos, não apenas no campo das artes visuais, tais como Bosch, Goya, Lucien Freud e Bacon, como nos campos da literatura, do cinema e da música gigantes como Sade, Emily Bronte, Baudelaire, Kafka, Pasolini, e Lou Reed.
Foucault nos apresentou a “vidas infames”, miúdas, soterradas, obscuras, malditas, monstruosas e que terão o seu único reconhecimento em sua ignomínia; há algo disso no trabalho de Jonas.
Outro pensador e escritor, foi muito importante foi Georges Bataille, fundamental para que se entenda o interesse que há no mal, como uma espécie de atração pelo excedente; por aquilo que não é necessário, mas que faz transbordar uma certa forma de vida.
Com Freud, não nos esqueçamos jamais que também temos todos um lado sombrio, que movidos pela pulsão de morte, somos capazes e que também gozamos a partir de nossas ferocidades e de maldades.
A questão é a de que há, no mal, algo como uma duplicidade, na qual o desejo de morte, de destruição do outro e de si mesmo, vem surpreendentemente enlaçado ao desejo de vida, e da possibilidade de ligar-se amorosamente ao outro. Bem, talvez Jonas apresente um outro amor.
Não se enganem com as cores vibrantes, que, em outro contexto, remetem aos trópicos e a uma fantasia de Brasil. As cores quase sempre quentes em seus trabalhos, apenas acentuam a bivalência daquilo que ele produz.
Não que Ainsengart rejeite o Brasil, mas ao mesmo tempo, nos dá notícias frescas de parte da produção artística brasileira, na qual os trópicos também podem fazer respirar outros vapores.
Deixemos que apareçam essas criações de sombra, permitamos que os trabalhos de Jonas sejam apresentados à Alemanha, e que a escuridão não precise mais esconder-se.
Mas, com Freud, não nos esqueçamos jamais que também temos todos um lado sombrio, que movidos pela pulsão de morte, somos capazes e que também gozamos a partir de nossas ferocidades e de maldades.

























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Maurizio Cattelan

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