terça-feira, 30 de maio de 2017

Imersões Cromáticas de Flavia Tronca Curadora: Simone Boone





Detalhes
Na história, as relações entre a arte e a tecnologia sempre foram intrínsecas. Pode-se dizer que o uso das tecnologias inicia desde que o homem pré-histórico descobriu as potencialidades dos objetos para sua sobrevivência e desenvolveu instrumentos úteis ao seu cotidiano, facilitadores de suas atividades. Assim, em todos os períodos da história, o homem investe em descobertas tecnológicas para aprimorar seu modo de vida e por consequência, traduzir a sua visão de mundo a partir de meios compatíveis com a sua realidade.

Se a tecnologia sempre esteve aliada à criação, o computador hoje é um dos instrumentos criativos contemporâneos, da mesma forma que o mármore, telas e tintas foram os principais suportes da produção artística até o final do século XIX.

Novas tecnologias podem propor novas narrativas, conceitos e sentidos na arte. Os mecanismos tecnológicos não vêm substituir a matéria que compunha as formas tradicionais da arte, mas coloca-se como uma nova realidade que caminha junto a essas, possibilitando novas formas de pensar, coerentes com a realidade.

Assim, a distância entre o pensamento criador e a obra de arte pode ser maior ou menor a partir da escolha da sua linguagem. Para a artista Flávia Tronca, que há mais de trinta anos pesquisa o universo da arte através da sua produção, a essência da pintura se manifesta em múltiplos suportes geradores de imagem e entre eles, o uso das tecnologias digitais.

Arte digital é o termo que abrange a maioria das manifestações artísticas que se utilizam de tecnologias computacionais no processo de criação. Uma imagem digital é uma imagem gerada ou transformada em números, decodificada por um sistema computacional enquanto informação. Esses recursos oferecidos pela tecnologia digital aumentam as possibilidades e conferem à imagem contemporânea uma nova significação.

Entre o processo tradicional da pintura e as transformações digitais que resultam

em novas imagens, há um não lugar em suspensão: da mesma forma que a artista move o pincel sobre a superfície concreta do papel ou da tela, utiliza as ferramentas computacionais para transformar pontos e traços em pixels. A artista promove uma conversa entre as técnicas tradicionais pictóricas e as tecnologias computacionais, onde a cor-tinta vira cor-luz, e da ação expressiva do gesto real até a transformação da qualidade original da imagem em pontos, surge um espaço imaterial.

Na criação de Flavia Tronca, é determinante entender os movimentos originais de criação que permanecem no processo digital: linhas intensas que se repetem ou se replicam, cor que se satura nos limites do software, ponto que se transforma em pixel; cenário real que se transforma em não-lugar; imagem pictórica tornada linguagem numérica.

Nesse processo de idas e vindas, muitas voltas e muitos conceitos apreendidos em cada movimento. A tecnologia usa o termo “imersão” para colocar o espectador num outro lugar. A cor transforma-se em sensação cromática. Em cada imagem, a sensação de imersão numa superfície imaterial. Mão e mente buscam na tecnologia a complementação de um pensamento.

Imersões Cromáticas tem na cor uma força aliciante que provoca o mergulho visual imediato para muito além da superfície do papel. O conjunto de azuis traz, de forma indireta, a referência ao YKB forte e impactante, como foi para o artista Yves Klein, descobrir na incorporalidade da cor, uma razão ainda maior para criar. Na multiplicidade de conceitos implícitos em cada imagem, o mergulho do olhar na cor amplia os sentidos. Por um instante, a arte a tecnologia transformam-se apenas na experiência de uma imersão instantânea, no hiato que existe entre o olho e mente.

Silvana Boone

Doutora em Artes Visuais

Curadora da Exposição

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