segunda-feira, 1 de maio de 2017

Abertura da exposição “Pintura do tipo Brasileira. Texto Profa Dra Renata Gesomino.




  • Sexta, 5 de maio às 17:00 - 21:00
    Próxima semana21—30° Parcialmente nublado

  • Centro Cultural Laurinda Santos Lobo
    Rua Monte Alegre, 306. Santa Teresa, 20240-193 Rio de Janeiro


    Obras de: Manfredo de Souzanetto, Raimundo Rodriguez, Osvaldo Carvalho e AntonioBokel,
    -----------------------

    A forma fácil e a pintura do tipo Brasileira

    A exposição coletiva “Pintura do tipo Brasileira” tem em seu título uma sutil sugestão de contra narrativa que atravessa uma cara metodologia historiográfica chamada formalismo. A metodologia formalista, como se sabe, se inicia com a teoria da pura-visualidade de Konrad Fiedler e sua consequente aplicação pelo historiador da arte suíço Heinrich Wölfflin em obras como “Os conceitos fundamentais da história da arte”e encontra um dos seus últimos grandes representantes ainda no século XX, através das reflexões e da produção textual do crítico de arte americano Clement Greenberg.

    Assim sendo, “Pintura do tipo Brasileira” pretende fazer uma remissão irônica ao famoso artigo publicado pela primeira vez em 1955, intitulado “American type-painting”, que pode ser encontrado com as seguintes traduções: “Pintura do tipo Americana” e em tradução mais recente como “Pintura à Americana”. Neste trabalho, Greenberg reúne esforços retóricos pautados na criação de dois fundamentais parâmetros estéticos de qualidade para autorizar e afirmar a potência da geração de artistas pertencentes ao expressionismo abstrato americano a partir de conceitos evolutivos de planaridade (flatness) e de pureza.

    Pensando na iniciativa Greenberguiana, isto é, a de legitimar diante da tradicional hegemonia europeia toda uma geração de artistas americanos, sobretudo, após o término da segunda guerra mundial, reiterando a massificação do imperialismo cultural ianque, pretende-se afirmar, da mesma maneira, utilizando o arcabouço teórico da metodologia formalista como alicerce, a produção pictórica contemporânea brasileira diante do atual panorama hegemônico que privilegia e destaca ainda majoritariamente artistas europeus e americanos. Yes, nós temos pintura!

    Para tanto a mostra coletiva buscou reunir de maneira inédita, quatro importantes artistas de gerações distintas da arte contemporânea brasileira estabelecendo uma “Forma fácil”, isto é, de fácil compreensão para o observador e para o público não

    cultivado (outra contra narrativa que sugere uma oposição à narrativa sobre a “forma difícil” desenvolvida pelo crítico de arte Rodrigo Naves em livro homônimo).

    Inspirada no desejo modernista de totalidade e baseada na apreensão tipológica ou taxonômica de algumas obras especificamente circunscritas na esfera do campo pictórico de Manfredo de Souzanetto, Raimundo Rodriguez, Osvaldo Carvalho e Antonio Bokel, a exposição justapõe trabalhos de dimensões variadas e elementos estéticos plurais que vão desde a silenciosa planaridade dos colorfields de Manfredo de Souzanetto às narrativas figurativas de cunho político, cujo aspecto tipológico remete às narrativas do universo das HQ´s de Osvaldo Carvalho. Encontram assim uma espécie de transição de linguagens exatamente entre a figuração e abstração na obra peculiar e reflexiva repleta de signos soltos de Antonio Bokel e, por fim, se complementam através de uma ocupação inusitada do espaço porpulsantes campos de cor compostos por latas de tinta que são usadas como suporte e como a própria pintura,diversificando sua materialidade e deixando vestígios poéticos e atemporaisnas obras de Raimundo Rodriguez.

    4 tipos de pintura à Brasileira

    Retornando a seara investigativa do formalismo a tarefa que se apresenta é a de classificar em “tipos”, porém, evitando o reducionismo e um processo secundário de criação de supérfluos estereótipos partindo do conjunto de obras que se abrem para um
    franco diálogo formal e estrutural dos artistas supracitados.

    Como representante de uma geração que experimentou o momento de transição entre o modernismo e o pós-modernismo, por volta da década de 70, Manfredo de Souzanetto é o artista com mais experiência e anos de participação no meio de arte estabelecido, e, portanto, sua obra atravessa diversos períodos e fases. Neste contexto é também um autêntico portador de uma produção que seria facilmente eleita por Greenberg como detentora dos mais altos padrões estéticos de qualidade, a partir das noções mencionadas de planaridade e de pureza (como pode ser verificado nas obras de artistas como Barnett Newman e Mark Rothko), uma vez que suas pinturas afirmam a bidimensionalidade da superfície plana e, consequentemente, a “missão” ou real “vocação” não ilusionista alcançada durante a afirmação kantiana auto referencial dos meios da pintura.

    Deste modo, sua produção faz confundir cor e forma enquanto estruturas únicas, ativas e operantes. Nas pinturas de Manfredo há um tipo de poética que ultrapassa a percepção apressada de sua complexidade geométrica, isto é, capaz de transcender uma racionalidade matemática. Coincidindo os meios da pintura com a criação de formas- tipo que escapam a regularidade do retângulo Manfredo cria um inventário de objetos pictóricos cujos tons terrosos só são interrompidos por linhas trêmulas e por tons
    quentes que sugerem, no campo da poesia visual, a construção de uma sinfonia inquietantemente suave. A “cor-forma” também se converte em “cor-música” como um resgate ou herança lírica e espiritual encontrados na abstração de artistas como
    Kandinsky e Mira Schendel. A forma fácil começa a se anunciar pelo seu avesso e o verso no anverso.

    No enfrentamento ainda exasperado por uma pintura do tipo brasileira não poderia faltar uma versão da abstração geométrica feita em suporte bruto, feita a partir de um impulso quase arqueológico, colecionista. É desta maneira que será possível, diante de uma noção de “forma fácil”, procurar uma chave de leitura para a poética desenvolvida por Raimundo Rodriguez e seus “objetos encontrados – objet trouvé” ou nas próprias
    palavras do artista em suas “sobras do mundo”.

    Desta maneira, Rodriguez compartilha um processo deambulatório a priori, análogo aos impulsos encontrados nas obras de artistas como Farnese de Andrade e Bispo do Rosário e uma visão quase mística e até mesmo alquímica dos objetos que compõem o cotidiano da sociedade de massa. Costuma assim afirmar que seu interesse encontra-se voltado para o que não interessa a mais ninguém, trabalhando a partir de uma materialidade insuspeitada e ampliando as possibilidades e o devir do campo da pintura.

    Amplia,portanto, os meios da pintura na conversão de elementos considerados “não-nobres” em nobres, convertendo tais objetos descartados do cotidiano em objetos estéticos, isto é, operando como Manfredo uma inversão, uma outra forma ou tipo de verso no anverso. Da dessacralização à sacralização. As latas são desamassadas e esticadas e assim, transformadas em suporte e própria pintura, aproveitando os vestígios e resíduos de uma pintura anterior, nascida do acaso.Agrupada em partes, em módulos que gozam de certa ordenação e padrão geométrico resultam em vibrantes campos de cor, sugerindo outra possibilidade de manifestação da abstração geométrica sensível, outra colorfield. As pinturas do tipo “lata” da série em processo “Latifúndios”, sua ordenação e disposição em função do espaço são como as silenciosas e contemplativas orações sufis desafiando o sincretismo religioso: possuem uma lógica interna, um preceito próprio, um mistério e solenidade na obviedade da matéria que se investe de poiesias- a forma criativa, e na magia numérica dos padrões repetitivos.

    No meio do caminho e na tensão permanente entre abstração e figuração encontra-se a pintura de aspecto expressionista abstrato deAntonio Bokel. Na melhor tradição greenberguiana, esta poderia ser uma possibilidade de apreensão de suas construções imagéticas, fazendo-nos lembrar dos signos soltos de Adolph Gottlieb e Franz Kline, e das manchas e escorridos que dissolvem a figuração sem perdê-la por completo de Willem De Kooning.

    Tipologicamente, poder-se- ia dizer que Bokeloscila entre uma espécie de primitivismo urbano que procura inserir nas zonas de extensos e planos campos de cor a interferência ruidosa e entrópica de elementos que parecem ter sido extraídos dos muros das cidades, elementos vivos do pixo que flutuam soltos através do gesto manual sobre a superfície plana se convertendo em signos de uma linguagem contemporânea e cacofônica das
    ruas – alma conturbada da urbes em constante mutação.

    Assim ocorre em obras como “Novo Geo” e “São Paulo”. Algumas figuras geométricas reduzidas graficamente às linhas imperfeitas isolam parte da composição, lembrando também, por uma comparação taxonômica, os esquemas geométricos de artistas
    expressionistas como Francis Bacon e as monotipias de Mira Schendel, novamente evocada na análise formal.

    A pintura de Antonio Bokel traduz um tipo de pintura brasileira recente e autônoma, apesar de todo arcabouço estético encontrado na história da arte, assume um pathos universal pautado numa ideia de informação caótica, fragmentada, incompleta. As pinturas possuem marcas manuais, um gestual que se traduz nas manchas e escorridos, além da presença constante de uma escritura anárquica urbana, encontrada por sua vez como parti pris nas grandes metrópoles e reproduzida nasletras e palavras que repousam enigmáticas sobre planos que simulam paredes de onde foram apreendidas originalmente na poiesisintimista do artista.

    Completando a transição do abstrato à figuração encontramos a narrativa visual inspirada na pop arte na publicidade de Osvaldo Carvalho. Deve-se citar não apenas as remissões aos artistas da pop art americana como Warhol e Lichtenstein, mas, sobretudo à pop art questionadora e engajada politicamente que se desenvolveu no Brasil e na América Latina, de maneira mais geral, em meados da década de 60 e que tem como principais expoentes artistas como Rubens Gerchman e Antonio Manuel.

    Momento, pois, de decreto do esgotamento da flatness Greenberguiana, do retorno à pintura figurativa, narrativa, representacional. Momento de desbunde ou reabertura da pintura para fora de determinados parâmetros estéticos formais.

    Destarte, inspirado na criação de planos-sequências, as pinturas de Carvalho adquirem uma forma-tipo corajosa que discursam de maneira crítica e consciente sobre o momento histórico atual apontando suas respectivas absurdidades.Em obras como “A construção do pensamento Ocidental 1 e 2”, a acidez e a ironia ficam por conta do close dado numa paisagem constituída por uma sugestiva cerca de arame farpado.

    Essas narrativas são retiradas precisamente da urgência de esclarecimento e discussão encontrados nas instâncias sociopolíticas, econômicas e culturais, no clima de revolta popular e nas inúmeras manifestações de rua que proliferaram no país e no mundo nos últimos anos. As narrativas que constituem o corpo da pintura de Osvaldo Carvalho nascem principalmente, da apreensão de informações visuais e discursos ideológicos que circulam massivamente na mídia (TV, jornais, e demais veículos de desinformação) e nas redes sociais.

    Esses dados ficam claros quando analisamos obras como “Niuna menos” e “PEC 215 (O descobrimento do Brasil)”, esta última, uma pintura majestosa de dimensões muralistas que revela um Brasil corrupto e genocida, país do retrocesso, criticando

    ostensivamente a aprovação do projeto de lei que permite a retirada do poder Executivo na demarcação de terras indígenas, numa realidade que assombra o Brasil neste cenário “Pós-Golpe”. Ademais, a obra de Carvalho mantém uma, podemos dizer, tradição na história da arte brasileira de criar uma “forma fácil”, isto é, de reconhecimento e leitura instantâneas, que visa informar em tom de denúncia a realidade política contemporânea.

    Renata Gesomino.
    Prof.ª Drª.IART-UERJ.Crítica de arte e curadora independente.

Nenhum comentário:

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
Now