quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Conversando sobre Arte entrevista com a artista Ingrid Bitar/Britta.



 Quem é Ingrid Bittar/Britta.
Nasci e cresci no Rio de Janeiro em 18/04/1989, tenho uma irmã mais velha e um irmão mais novo. Nossa família materna é alemã e a gente cresceu numa espécie de bolha composta por velhinhos alemães. Muito do que a gente fazia quando era pequeno era relacionado ou esbarrava nessa comunidade. Eu acabo traçando muitos paralelos entre a cultura daqui e a europeia por conta dessas sobreposições que rolaram quando a gente era pequeno.

Uma boa parte da nossa infância foi passada na fazenda, minha avó nasceu e cresceu lá e acho que ela era mais feliz ali do que em qualquer outro lugar. Ela sabia o nome de tudo, das flores, das plantas e foi uma tristeza perceber que ela foi perdendo isso à medida que foi envelhecendo e indo cada vez menos pra lá.

Minhas duas avós foram influências muito fortes e uma parecia ser o absoluto oposto da outra. Minha avó paterna morava no Leblon, tinha o cabelo sempre feito no salão e não deixava que a vissem sem maquiagem. Minha avó materna morou no Engenho de Dentro minha infância inteira, nunca usou maquiagem e cortava o cabelo curtíssimo pra não ter trabalho. As duas bordavam, mas uma fazia quadros, a outra fazia objetos do dia a dia.

Minha avó materna me ensinou a bordar, fazer crochet e tricot porque eu pedi que me ensinasse. Talvez por isso ela não exigisse resultados, me deixava fazer o que quisesse com o que ela tinha me passado. Quando começou a me ensinar crochet eu só conseguia fazer uma tripa e eu estava determinada em conseguir fazer sem olhar para o que estava fazendo, fiz uma tripa rosa choque que dava duas voltas na casa. Depois comecei a fazer crochets 3D sem querer porque eu fazia com muita força e um dia saiu um negocio que parecia um frango assado. Minha irmã usou aquilo de brincadeira como chaveiro na mochila dela por anos.

Meu avô construiu vários móveis que acompanharam eles a vida toda, tinha uma infinidade de ferramentas e sabia resolver a maior parte das coisas sozinho. Eu achava aquilo incrível e até hoje me dói ser algo que eu não aprendi dele. Tanto meu pai quanto ele tem caixas de ferramentas recheadas, mas como não sabia construir nada eu me limitava a desmontar tudo de eletrônico que quebrasse e que me dessem para destruir. Assim como os livros e revistas, eu desmontava, pegava o que queria e mandava o resto embora. Em algum lugar tem um saquinho cheio de mini parafusos. hahah


Como a arte entrou em sua vida?
 Isso é difícil de dizer. Minha mãe sempre incentivou isso, muito nos meus irmãos e em mim. Minha irmã sempre foi habilidosa e artística, ela acabou entrando na EBA e estudando Pintura, depois fotografia e hoje trabalha com tatuagem. Eu entrei pra Escultura na EBA porque me sentia mais confortável construindo e destruindo coisas do que com a liberdade de uma tela em branco, mas depois de um ano saí por não ter me entendido com a desestrutura da EBA.

Acabei indo pra Design de Produto pelo mesmo motivo que tinha  Algum tempo depois, meu irmão mais novo entrou pra Design também. Gosto muito que os três tenham isso... acho engraçado, queria fazer um projeto com eles, mas eles não deixam. rs Acho que acabaram todos indo pra esse lado porque minha mãe e minha avó sempre deram muito valor a isso de ser capaz de produzir algo que seja uma expressão sua, ou sei lá, to falando bobagem.a entrado pra Escultura, mas com esperanças de uma estabilidade maior. hah

Mas não foi só isso, acho que todo mundo que trabalha com artes sabe que é difícil seguir para esse lado sem apoio e a gente sempre teve apoio dos nossos pais. Para o meu pai não tem coisa mais importante que a gente seguir o que se gosta de fazer, talvez por ele não ter tido essa liberdade.


Qual foi sua formação artística?
 Eu fiz um ano de EBA na UFRJ e cursos livres na EAV do Parque Lage, mas acho que minha experiência de ateliê, residências e conversas com colegas artistas e curadores me salva mais do que qualquer outra coisa.


A sua graduação em Desenho Industrial de que maneira influencia seu trabalho?
 No âmbito da criação não influenciou em nada, mas ter a base de Desenho Industrial me deu ferramentas pra organizar e produzir exposições de forma independente com uma qualidade e alcance maiores. Ser independente significa que nada acontece se você não correr atrás, saber fazer identidade visual, lidar com gráfica, pedir orçamento, ter os controles e arquivos organizados já é uma boa mão na roda.


Que artistas influenciam em sua obra?
 Minhas referencias são mais de livros e filmes. Os filmes do Wong Kar-wai e do Wes Anderson tem fotografias que mexem com alguma coisa no meu peito. O livro que mais me marcou é o The Wind-Up Bird Chronicles do Murakami e o filme é foi o My Winnipeg do Guy Maddin. Os dois relatam a vida, um autobiograficamente, e a misturam com elementos de sonhos, de uma realidade alternativa, surreal, mas não improvável. Não sei se posso dizer que eles influenciam minha obra ou se eu só sinto uma identificação e uma conexão muito forte com eles, mas eu acredito e realmente espero que meu trabalho tenha vislumbres desses elementos.


Como você descreve seu trabalho? 
Minha infância teve um enfoque forte em família. Minhas duas avós eram mulheres muito fortes e a medida que eu fui crescendo, fui reconhecendo como a força delas construiu, afetou e destruiu aspectos dos meus pais e nossos. Eu amo e admiro as duas, isso nunca vai mudar, o que elas foram e fizeram formaram meus pais e a forma como a gente vive hoje, por bem e por mal.

Mesmo uma sendo oposto uma da outra, as duas tinham um apego forte a flores e ao belo, forma de mascarar a brutalidade e, não por mera coincidência, meu trabalho funciona assim. Por ser bonito, por estar num contexto bonito, ou visualmente exagerado, a violência passa desapercebida pra quem não olha com atenção.lo. Em algum momento eu fiz a associação de que as flores e o belo eram uma

Eu comecei a trabalhar com colagem há 4 anos e no começo minha meta era melhorar tecnicamente, depois a falta de um porque no trabalho começou a me incomodar. A busca pelo aperfeiçoamento técnico e o aprofundamento no trabalho foi se dando paralelamente. Ao longo dos últimos 4 anos eu passei por 4 tipos de cola e ao mesmo tempo a questão do trabalho se desdobrou para outras técnicas, como bordado, crochet e agora tenho experimentado com aquarela.


É possível viver de arte no Brasil?
  
Essa é uma pergunta complicada. Acho que sim, mas é uma área difícil, são muitas variáveis.

Tem quem viva só de vendas, tem gente que consegue edital, muitos artistas dão aula, seja em universidade ou por iniciativa própria, tem artistas que são assistentes de outros artistas e tem gente que trabalha em restauração e produz paralelamente, enfim, existem diferentes possibilidades.

Eu acho que só fui capaz de chegar onde cheguei em tão pouco tempo porque os últimos 4 anos da minha vida foram dedicados quase que exclusivamente ao meu trabalho. Isso só foi possível por não ter que me preocupar em ganhar dinheiro no começo, sendo que nos dois primeiros anos eu praticamente paguei pra trabalhar. Ninguém se compromete com isso se não estiver intimamente e essencialmente ligado à própria produção.

Não conheci nenhum artista que tenha entrado nesse campo pra fazer dinheiro, mas essa não deixa de ser uma necessidade. Acho que se a meta começa a ser ter um determinado dinheiro no final do mês o processo pode ir para o espaço e o trabalho se esvazia, perde sentido. Ao mesmo tempo é necessário ter grana todo mês porque conta não só precisa ser paga quando você tem dinheiro. O equilíbrio entre produção, trabalho e vendas é muito particular e depende da situação de cada um. 

Qual a importância de sua participação no 89Plus?
  Apresentar meu portfólio no 89plus me rendeu novos colegas de trabalho e meu primeiro convite pra expor numa galeria comercial, que resultou no meu trabalho ser adquirido e virado parte da Coleção Gilberto Chateaubriand, do acervo permanente do MAM-Rio e ter sido subsequentemente exposto em duas exposições no museu. Só quando isso aconteceu eu tive coragem de começar a me chamar de artista plástica. Serviu pra validar o trabalho que eu estava fazendo e me fez aprofundar minha produção.


O que é necessário para um jovem artista ser representado por uma galeria?
 Não sei, sigo independente. rs Essa é uma pergunta que eu não sei responder mesmo. Acho que galerias precisam se sentir seguras pra investir em um artista e um artista novo é um risco que muitas não estão dispostas a tomar sem alguma espécie de garantia.


Quais são seus planos para o futuro?
 Continuar trabalhando, melhorar e construir algo mesmo que seja pra destruir depois. 




Transmissão. Série Olho Nu, 2016. Colagem. Coleção particular.


Feathery. Série Olho Nu, 2016. Colagem. 



Cavalaria Ligeira. Série Reencontros, 2015. Coleção particular.

Zuavos. Série Reencontros, 2015. Coleção particular.



 Patolada Série Recontos, 2015. Coleção particular.




Engenho de Dentro. Série Ostensório, 2015.



III. Série Comédia, 2014. Coleção particular.


Relicário. Série XXTA, 2014. Coleção Gilberto Chateaubriand.



Writer. Série Período Transitório, 2014. Coleção particular.


Just Because. Série Sobre Silêncio, 2014. Coleção particular


Gray. Série Retratos, 2014. Coleção particular.


Mother. Série Retratos, 2014.



Irmã Laranja. Série Pênis, 2013.


III. Série Pássaros, 2013. Coleção particular.


V Série Pássaros, 2013. Coleção particular.






Bordados.



Seu Cu É Meu Ouro, 2015. Coleção particular.



Ademar, 2015. 



Amazonas, 2015. Coleção particular.




Queen Conch, 2015. Coleção particular.



Artista indicada para o Prêmio Pipa. Inúmeras exposições no Brasil e no exterior. 

www.ibbritta.com

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Maurizio Cattelan

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