sábado, 10 de dezembro de 2016

Somos Todos Clarice Curadoria: Isabel Sanson Portella na Galeria do Lago, Museu da República




Somos todos Clarice. Somos a ambiguidade, a procura da liberdade, do desapego, da loucura. Somos Clarice. Somos a resistência, a aprendizagem, a percepção de mundo. Somos todos Clarice.

Mas quem é Clarice? É aquela que domina a narrativa com tanta clareza que chega a ser hipnótica. A que se adestrou para ter a língua em seu poder e a palavra como seu domínio do mundo. Clarice Lispector é a escritora das epifanias, das revelações do cotidiano, do pequeno e do insignificante. É a operária da língua que sempre fez questão de ser amadora, nunca a profissional. Quando escrevo me comunico com o mais secreto de mim mesma. Clarice Lispector é a mulher assumidamente só, que precisa de segredos para viver e afirma que é preciso saber não entender. Compreender será sempre um erro. Tenho que viver uma certa glória íntima, que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Clarice Lispector tem mistérios. O que fazer de alguém que não sabe o que fazer de si? No entanto sabe que o amor não acaba e sempre lhe restará amar. Amar os outros é a única salvação individual que conheço. O amor é o desapego e chega quando não há mais nada a perder. 
Clarice Lispector é intuitiva e impulsiva. Sou palavra e também sou eco. 
É preciso ler Clarice para apreender a vida, para enxergar como a matéria humana se move no mundo do ponto de vista social, familiar, do eu e do outro e da solidão de si mesmo. Das palavras de Clarice surgiu a necessidade geradora da arte. A dimensão comum de humanidade e o sagrado permanente em tudo estão presentes nos seus escritos, assinalando que é possível ir ao limite extremo sem se perder. Eu vou ao encontro do que me espera. E cada artista foi ao encontro da Clarice que o esperava. Cada olhar encontrou um de seus mistérios. Uns descobriram que liberdade é pouco, outros que adoram voar. Às vezes uma frase ou um conto, uma indagação ou uma imagem sugerida são o ponto de partida para mais questionamentos. E tudo sempre volta para a escritora Clarice. Para as brechas que ela abre e por onde passa a dor do mundo. Para os seus gritos de dor e de cólera pelo passado e pelo presente. Até pelo futuro gritei, meu Deus.

Isabel Sanson Portella

Curadora e crítica de Arte



 Josias Benedicto




Manoel Novello

Nenhum comentário:

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
Now