terça-feira, 1 de novembro de 2016

Conversando sobre Arte entrevista com o artista Mauro Silper




Quem é Mauro Silper? 
  Sou artista plástico, resido em Belo Horizonte, MG, onde tenho meu atelier Mauro Silper Art Studio. Graduado em Direito, sou casado com Cristina Fonseca, curadora de arte e produtora e tenho duas filhas, Júlia (25) e Marina (21). Cinco anos após meu nascimento (1948) minha família mudou-se da minha cidade natal (Teófilo Otoni, MG) para a capital mineira, pois meu pai havia sido eleito deputado estadual. Sem saber, pelas asas da Real Aerovias Nacional, na qual bebi minha primeira Coca-Cola, vivi as iniciais experiências com a perspectiva, proporção, distância e espaço tridimensional. Naquela época, adaptação de criança era imediata. Tínhamos quintais, ruas livres de trânsito, amigos prontos para tudo, férias escolares de três meses, imaginação e habilidade para fazer muitas coisas. Éramos autodidatas em tudo. Na juventude, me defini "como alguém que não seguiria o script usual". Frequentava exposições, festivais de cinema, happenings, agitações culturais diversas e tudo que envolvesse o cenário cultural da cidade. Deslumbrado com o movimento hippie, no final dos anos 60, decidi morar em New York, onde iniciei minhas atividades artísticas com a pintura. Na volta, participei das primeiras exposições, embora tenha me envolvido em um projeto turístico no sul da Bahia, durante alguns anos. Depois me casei, passei por uma transição profissional, até que comecei a viver exclusivamente da arte e de atividades correlatas. Mesmo tendo me formado em Direito, jamais exerci a profissão

 Como a arte entrou em sua vida?
Não posso dizer exatamente quando e como, mas me lembro que na exposição "Telhados de Ouro Preto" do Carlos Scliar, senti algo diferente. A ordenação dos volumes das edificações feitas com um pincel firme e alma sensível, os traços suaves que chegavam quase a abstração, toda aquela técnica me encantou muito. Descobri ali que, mais do que fazer, a grande magia da arte estava em saber olhar.

 Qual foi sua formação artística?
A habilidade me induzia a ser autodidata e com a pintura não foi diferente, embora, hoje, vejo que essa lacuna na formação universitária, conduz a um caminho mais árduo e demorado. Única vantagem que visualizo é a de não se deixar ser algemado pelas regras e influências acadêmicas, por toda uma trajetória.

 Que artistas influenciam sua obra?
Considero essencial para qualquer artista a pesquisa e o estudo, principalmente da história da arte. As aproximações no viés artístico vão se bordando quanto mais nos aprofundamos no conhecimento e, acredito que, a mão de Deus frequentemente faça essas ligações. Quanto a mim, não posso me auto categorizar, mas admiro e tenho afinidades com a pintura de Carlos Scliar, John Martin, Adolph von Menzel, Joseph Zburkvic, Herman Pekel e Herry Arifin.

Como você descreve seu trabalho? As ideias, como o vento, não surgem do nada e eu me movimento em torno delas, que vão compor minha identidade expressiva, meu CPF artístico. Afinizo-me à pintura de paisagens, que embora sugiram uma linha figurativa, busco sempre dar um toque abstrato, talvez como um artifício para fugir da repetição, e me reinventar a cada tela, a cada provocação. A essencialidade das minhas paisagens baseia-se na luz, que sempre será o altar preferido das minhas alvoradas íntimas, que são aventuras cotidianamente vividas, ao me defrontar com o branco do papel ou as tramas do algodão. Caminho com um pé na Arquitetura e outro nos aspectos que interligam o urbano à natureza e ao homem, mas sempre navegando em mares que me dão prazer, que me são íntimos. É onde me sinto à vontade. Minhas paisagens são imaginárias, tão secretas que, se der um zoom em um recorte qualquer da pintura, vai se deparar com o inesperado. Em vez de declarativo, público, o observador vai perceber, através do detalhe, todo o mistério que envolve meu trabalho. Utilizo poucas cores que se diluem em variados tons graves ou agudos, às vezes, também em harmônicas composições monocromáticas. Espaços vão sendo preenchidos e definidos, principalmente em termos de planos, os quais utilizo muitos, e os considero impressões digitais da minha obra. Raramente faço um "antes", um esboço ou algo parecido. Tudo é imediato, na hora. A intuição, no entanto, persiste, não permitindo que desvie do trajeto a ser percorrido. O "como fazer" nunca poderá ser elemento impeditivo, por isso a necessidade do saber proceder. Talvez diferenciar seja a questão, e é o que me supre e enriquece, uma inquietação que não pode ser desconsiderada. Não intelectualizo, nem busco controvérsias na minha pintura, pois me apoio sempre na procura deliberada da estética da beleza, que é ampla e subjetiva mas que deve criar questionamento, possuir mistério e solicitar novas descobertas em cada outra procura da intenção.

 É possível viver de arte no Brasil? 
Criei minha família exclusivamente com a moeda da arte. Tirar sustento da imaginação é para os determinados, os guerreiros. Não se pode depender somente da boa vontade de instituições culturais. Nos últimos anos estreitei meu relacionamento profissional com galerias de arte, que passaram a me representar em Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro e em Lisboa, Portugal, promovendo a comercialização das minhas obras. Trabalho com uma produtora que realiza a gestão da minha carreira de artista plástico, envolvendo todas as minhas atuações, desde a manutenção do meu site (maurosilper.com) até as definições acerca das exposições que irei realizar. Percebo que essa organização da minha atividade artística contribui para a maior visibilidade do meu trabalho, favorecendo também a sua circulação no mercado de arte.


 Que comentário você faria sobre a arte contemporânea em Belo Horizonte?
Vários movimentos estão acontecendo em Belo Horizonte, com diversos novos espaços acolhendo-os, como ateliers coletivos de artistas, galerias de arte, residências artísticas, corredores e circuitos culturais. O conhecido marchand André Blau, em uma entrevista para a extinta e ótima revista "Galeria" disse que "em cada dez quadros produzidos por um artista, dois são excelentes, seis ou sete são bons e um é fraco. Trata-se de estatística fria e profissional." Estava nos alertando que nem tudo que produzimos deve ser exposto.

A tinta nacional já tem qualidade adequada?
Para quem já trabalhou com algumas tintas produzidas nos anos 60 e 70, se comparadas às de hoje, pode-se dizer que melhorou sim, não o bastante para se aproximar de uma importada de qualidade.

  Os salões de arte ainda são válidos? Alguma sugestão para aprimorá-los? 
Apesar de terem se arrefecido nos últimos anos, ou mesmo mudado sua característica para concessão de bolsas de arte, os salões sempre serão válidos, pois são oportunidades incontestáveis, principalmente para iniciantes se qualificarem no cenário nacional, alcançando visibilidade do trabalho. Também boa oportunidade para alavancar seu currículo artístico, principalmente com as premiações. Pena que os prêmios financeiros são escassos e, muitos salões não adotaram ainda o padrão digital para o envio e seleção das obras. Muitas vezes, os artistas tem uma despesa elevada devido às exigências dos editais, sem nenhuma contrapartida ou ajuda de custeio.


 10) Como você concilia suas múltiplas atividades e como elas se completam?

 As múltiplas atividades nunca serão obstáculos quando você tem um plano de trabalho definido e o executa com a disciplina alcançada no decorrer do tempo.

 11) Quais são seus planos para o futuro? Algo no Rio de Janeiro?
 

Gostaria muito de ter planos efetivos para o Rio, mas embora seja representado por uma galeria carioca, ainda não tenho prevista nenhuma exposição nesta cidade. Ainda neste ano, participo da primeira Bienal de Arte Contemporânea de Brasília, em novembro, com a curadoria de Jacob Klintowitz. Em 2017, a convite do curador Rodrigo Vivas, exponho individualmente no Centro Cultural da Universidade Federal de MG. No mais, muita dedicação, estudo e saber que devemos ter como objetivo despertar e incentivar aqueles cujo dom ainda não eclodiu, através dos nossos conhecimentos adquiridos e técnicas aprimoradas ao longo dos anos. Acesse o site www.maurosilper.com Acesse o currículo artístico em http://www.maurosilper.com/curriculum.







Serie Natureza Cena 11 ASC 33 x 55 cm 2013.





Série Lago.














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Maurizio Cattelan

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