terça-feira, 27 de setembro de 2016

Orlando Lemos Galeria Projeto Solo: Evandro Soares ArtRio




A ARQUITETURA DE VAZIOS E DE SOMBRAS 

Evandro Soares é um artista guiado por saber intuitivo que se faz pela vivência na construção do espaço e na elaboração da forma. De origem afrodescendente, oriundo da camada simples da população brasileira à qual é negado o acesso ao conhecimento acadêmico, teve que trabalhar muito cedo para ganhar a vida, e ainda jovem tornou-se artesão serralheiro dedicado ao ofício. Foi esta experiência profissional que deu base e estofo para a estruturação formal, técnica e poética de sua obra.

Evandro Soares faz uso inteligente do saber artesanal extraído da serralheria pra elaborar seu trabalho, que é distante da estética popular e próximo ao raciocínio erudito das vertentes geométricas construtivas, reducionistas e minimalistas dedicadas à investigação da autonomia da forma e do espaço plástico. Pautadas no rigor e na assepsia formal, suas operações são econômicas e se armam com poucos elementos: plano, linha, luz e sombra. O espaço arquitetônico de sua obra é construído pela fina linha de metal pintado de preto que se projeta do suporte, e se prolonga por meio de outra linha da mesma espessura desenhada a nanquim sobre a superfície; a forma fixada perpendicularmente ao suporte ao receber a luz lança sua sombra sobre a alvura do fundo, provocando o embaralhamento das perspectivas e agindo como multiplicadora da visão.

Em sua produção a noção de desenho expandido advém do hibridismo das categorias que aciona o trânsito entre desenho e objeto e instalação. Trata-se de um desenho que se aliena da tradição, com mancha gráfica mínima e sutil, com corpo próprio avançando no espaço tridimensional e se expandindo no espaço bidimensional, ora como matéria ora como sombra. Desenho sem lugar fixo tal como as escadas suspensas que acessam cômodos disfuncionais e que ligam o alto ao baixo e vice versa, tal como cubos que confinam espaços disfuncionais de habitar e de falar (como os balões usados nos desenhos HQ), formas que se repetem, se ligam e travam conversações entre si, levando o espectador a percorrer a obra com o movimento silencioso do olhar que se surpreende com o engenho da ilusão.

A produção de Evandro Soares sugere uma arquitetura frágil, aberta, vazada e vazia, cujo lugar é o deserto branco do suporte. Uma arquitetura de filamentos, simples e complexa simultaneamente, habitável apenas pela percepção e pela imaginação. Seja dentro do espaço da moldura como desenho-objeto seja diretamente afixada na parede como desenho instalação, sua obra planeja um lugar nenhum, possível apenas por meio da arte que refaz nosso conceito de mundo.

Embora próxima à linguagem construtiva a geometria de Evandro Soares não é fria e possui proposições de significados que aquela negava. Advinda de um conhecimento empírico ela se contorce na construção desse lugar nenhum que sobe e desce, se expande e se contrai, se fecha e se abre num movimento contínuo. É uma geometria que nasce da intuição, se configura como projeto despretensioso sobre um papel e se concretiza pelo exercício da solda e do desenho. A arquitetura construída por essa geometria apesar de inabitável e vazia suscita questionamentos e possibilidades de interpretação.
As escadas com andares descompassados que se estreitam  na parte inferior e se alargam na superior introduzem as ideias de ascensão e de risco de queda no trajeto. No Brasil historicamente escravagista e racista, que relega aos afrodescendentes a faixa inferior da sociedade, o artista negro não possui os mesmos meios de ascensão cultural e social que o artista branco vindo de extratos sociais mais elitizados, que dispõe de amplos recursos para produzir e fazer circular sua obra. Na maioria dos casos o artista negro vive da adversidade, trabalha em um lugar nenhum na quase invisibilidade e na margem do circuito de arte, sob o risco constante de cair ainda mais um degrau. Os mecanismos de subida, de acesso, de passagem propostos pela obra de Evandro Soares podem ser metáforas do processo de reação social e cultural dos que até bem pouco tempo estavam silenciados publicamente no meio de arte. É uma arquitetura de natureza sutilmente política.
 
Divino Sobral
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Maurizio Cattelan

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