sábado, 17 de setembro de 2016

Ivan Grilo - Preciso Te Contar sobre Amanhã na Luciana Caravello Arte Contemporânea.



 Três ventos

Sem o outro, falar sobre amanhã seria não dar ao hoje a chance de ser. E este é um convite ao encontro: passado, presente e futuro. Três ventos inquietos que seguem direções cruzadas. Entre os sopros, se abre uma fresta, uma lacuna, uma brecha. Não ausência, nem falta. Mas uma poeira visível a quem busca decantar sentimentos de tempo. 21 gramas.

Se todas as trajetórias são possíveis, por que seguir apenas uma? Uma que teima em engolir as vírgulas e as interrogações. Uma que insiste em imobilizar os porquês. E se a travessia do tempo não se curvasse a ela? Viveríamos em uma ciranda que se reescreve a cada ponto, em que nada se fecha, nada está salvo, nada é perdido.

Esta é uma escavação na contramão de nostalgias e em direção às palavras opacas, nubladas, silenciadas. Em tempos de opressões, grandes são as sutilezas*. Sutilezas ecoadas: ao som das panelas, o toque de Obaluayê. Sutilezas coroadas: na cabeça do Chico, ouro de Rei. Sutilezas retratadas: nas vozes sem rosto, batalhas esquecidas. Sutilezas hasteadas: em dias cinzas, bandeira branca.

No percurso, tudo é semente. É preciso nutri-la ao tempo. Um tempo que não pertence a ninguém, mas que se faz em você aqui. Talvez você ainda não possa ver os frutos. Talvez você já possa comê-los. Pois só assim fazemos esta individual – de outros.
com Ana Luiza Gomes e Anita Giansante
Setembro, 2016
*Inspirada em frase dita por Millôr Fernandes, 1972

--

Three winds
 

The possibility to talk about tomorrow requires the presence of another person. Without the other, today would not have a chance to be. This is an invitation to join past, present and future together. Like three restless winds with crossed paths. Voids are open between their gust. But not as an absence, or lack. Those blanks are like dust lost in the wind. 21 grams.

If all paths are possible, why should we follow just one? Why follow the one path that insists swallowing commas and question marks. What if the crossing of time did not bow to this path? We would live in a circular dance that is constantly rewritten, where nothing is ever closed, where nothing is safe, where nothing is lost.

This path feels like an excavation that goes in the opposite direction of nostalgia. It walks on the search toward the opaque, foggy and silenced words. In times of oppression, great are the subtleties*. Echoed subtleties: the sound of the pans, the ringing of Obaluayê. Crowned subtleties: in the head of Chico, King’s gold. Portrayed subtleties: the faceless voices, forgotten battles. Hoisted subtleties: in grey days, white flag.

Along this path, everything is a planted seed. You must nurture it with time. A time that does not belong to anyone. A time that is built now with you here. Perhaps you can not yet see the fruits of it. Maybe you can already eat them. This is the only way we can make this individual exhibition – with others.
with Ana Luiza Gomes e Anita Giansante
September, 2016


*Inspired by phrase said by Millôr Fernandes, 1972

Nenhum comentário:

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
Now