quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Dalton Paula - Rebelião Negra Texto: Divino Sobral






A obra criada por Dalton Paula durante os últimos seis anos promove um questionamento no interior da história da escravidão negra, desenvolvida com o tráfico de povos africanos para o continente americano após  seu descobrimento. Vigorante no Brasil do século XVI ao XIX a mão de obra escrava sustentou o desenvolvimento dos ciclos econômicos do país desde os primeiros anos de colonização até quase a chegada da República. Foi empregada na extração de pau-brasil, na produção de produtos agrícolas como cana-de-açúcar, tabaco, algodão e café, na extração de ouro e pedras preciosas, nas atividades domésticas e nos serviços urbanos. Por mais de três séculos um enorme contingente  de africanos viveu no país em condições degradantes e sofrendo violência extrema, até que a Lei Áurea encerrou o período de escravidão. Entretanto, a abolição não resolveu o problema da população negra, pois foi seguida pela ausência absoluta de políticas públicas destinadas a dar direitos e a integrar os antigos escravos na sociedade; assim, como consequência, se formou o grave e injusto processo de exclusão social e de perseguição racial, fundado na rígida hierarquia de classes e nos preconceitos enraizados na mentalidade escravagista, que inferiorizava africanos e seus descendentes – mentalidade atrasada que ainda vigora em segmentos elitizados da sociedade brasileira contemporânea.

Nem a reconhecida importância da participação dos negros na formação da rica cultura e nem sua contribuição para a singular produção artística brasileira, desde o período colonial até o momento, nem mesmo a teoria da miscigenação e da pacificação de atritos raciais postulado por representantes das ciências humanas responsáveis, no século XX, por desvendar a identidade do país, conseguiram desfazer diferenças e desmanchar os conflitos raciais encravados na estrutura do Brasil. Os negros ainda vivem segregados, ocupam as beiras e vivem sem acesso aos bens da cidadania, continuamente violentados pelo estado e pela sociedade.

Como um artista que assume sua negritude Dalton Paula trabalha com lucidez os problemas causados pela escravidão, considerando os contextos do passado e do presente, ampliando seu território de investigação, redimensionando o sentido da arquitetura em relação ao corpo, revendo lugares e personagens e se contaminando com narrativas extraídas do subterrâneo da história, seja do país seja de fora dele. Ao elaborar seus trabalhos lança mão de diferentes fontes imagéticas e de diferentes procedimentos de pesquisa e realização, emprega distintas categorias visuais e instaura  por meio da plasticidade e do conceito da obra  uma crítica negativa sobre os discursos oficiais, desestruturando representações e tensionando as relações de trocas e de apropriações acontecidas entre negros e brancos, escravos e senhores, dominados e dominadores.

A exposição Rebelião Negra apresenta um recorte de oito obras realizadas em diferentes períodos e com distintos suportes: pintura, objeto, foto-performance e vídeo-performance, com a intenção de oferecer leituras tanto da diversidade de linguagens e de procedimentos artísticos quanto da poética profundamente política e questionadora configurada pelo artista,  compromissada com sua vida, com o revisar da historiografia, com a potencialização do excluído, com a cura dos traumas da escravidão. Deseja mostrar como Dalton Paula desenvolve um trabalho de fôlego que dilata a tradição política, ética e social da arte brasileira tocando em assuntos contundentes e necessários de serem refletidos na atualidade, aqui e alhures.

Vasculhando a memória coletiva e buscando as fontes do passado, a pintura A Rede (2016) atualiza a representação extraída de Jean-Baptiste Debret (1768-1848) publicada no II tomo de Viagem Pitoresca e Histórica ao Interior do Brasil (1834-1839) – dedicado ao registro da vida cotidiana, do trabalho e dos castigos vivenciados pelos escravos, e que ressalta a participação fundamental do negro na formação social e cultural do povo brasileiro durante o século XIX. Da representação original de Debret Dalton Paula extrai alguns personagens: o senhor que era conduzido no interior da rede; duas crianças escravas; um cachorro que acompanha o grupo. Mantem apenas dois escravos segurando uma madeira onde está dependurada a rede vazia, porém inverte suas direções: um segue à direita e o outro à esquerda, criando uma situação que impede o deslocamento, gerando um travamento no exercício da função, desobrigando do trabalho e paralisando a cena. Também abandona a paisagem e representa as figuras no ambiente interior de uma sala doméstica, em cuja parede encontra-se uma prateleira com três garrafadas de ervas e cachaça – materiais que o artista utiliza em vários outros trabalhos.
Obra que atua sobre veículos do conhecimento, Retrata Divina (2015)  é um conjunto de nove pinturas realizadas sobre capas de enciclopédias. As figuras são baseadas em fotografias recolhidas pelo artista junto a uma colega de trabalho, uma mulher branca e anônima. Imagens triviais de cenas amorosas, de situações profissionais e de lazer são reformuladas por uma série de expedientes adotados por Dalton Paula: supressão dos fundos que registravam os contextos originais; seleção de elementos específicos que desfaz a narrativa primeira; enegrecimento da personagem; sequenciamento de cenas não lineares; fusão de expressionismo e pintura popular.  Existe a ironia de alterar a cor da pele e de colocar uma negra num local em que nunca esteve antes, a capa das enciclopédias produzidas pelo mercado editorial de massa responsável pela difusão de um conhecimento ao mesmo tempo amplo e raso às parcelas medianas da sociedade brasileira. A figura da mulher negra, duplamente excluída pelo racismo e pelo machismo, triunfa  sobre um extrato do conhecimento formulado por séculos de teoria eurocêntrica, branca, masculina.
O uso do próprio corpo é uma situação que marca bastante a produção de Dalton Paula. Seu corpo negro, fora dos padrões estéticos da sociedade de consumo, geralmente de torso despido, com vendas nos olhos ou de olhos fechados é recorrente em propostas de performance em estado cru e nos trabalhos de foto-performance e de vídeo-performance – que se dão enquanto ações que ocorrem distantes da presença do público, apenas para as objetivas de câmaras de fotografia ou de vídeo posicionadas fixamente; são obras que não podem ser consideradas autônomas da performance, portanto são híbridos que transitam entre as condições de registros e de meios de formalização da pós-performance.
Máscara (2015) é um objeto que remete ao corpo do artista, uma vez que foi elaborado para a realização de sua última foto-performance, mas que não chegou a ser exibida ao público. Destinava-se a cobrir a cabeça e o rosto, assim como uma vestimenta de orixá. É um objeto simples e muito simbólico, constituído por centenas de pequenos frascos de vidro de remédio contendo  mistura de cachaça com folhas, raízes, galhos e sementes da erva-da-guiné (Petiveria alliacea), conectados em uma rede executada com fio de costurar couro. São pequenas garrafadas, poções capazes de curar ou de matar, heranças conservadas pela resistência e pela sabedoria dos herbolários negros.  
A erva-da-guiné tornou-se conhecida popularmente como “amansa senhor”. Outrora foi utilizada por escravos sacerdotes que manipulavam e distribuíam poções de ervas venenosas como armas silenciosas para ataque aos senhores, feitores e inimigos. O envenenamento contra a tortura. O pó de sua raiz fazia parte do receituário amplamente usado pelos que agiam contra a vida de seus carrascos, e seus efeitos eram agressivos, potentes e letais: letargia, superexitação, insônia, alucinação, convulsão, paralisia da laringe e morte[i].

Na rebelião promovida pela obra de Dalton Paula, a erva-da-guiné aparece em diversos momentos apontando para multiplas leituras: símbolo de resistência à opressão e à dominação; meio de defesa e de ataque; cura das chagas históricas da escravidão; folha de orixá e elemento sagrado de proteção.

Na vídeo-performance Unguento (2015), realizada diante do antigo mercado de escravos de Lençóis – cidade da Chapada Diamantina (BA) fundada no ciclo do ouro – Dalton Paula desenvolve o ritual de feitura de uma estranha garrafada feita da mistura de cachaça com cacos de vidro de outra garrafa de cachaça macerados com erva-da-guiné. Bebida extremamente popular, a cachaça possui registro no Brasil desde o século XVI e o uso feito pelo artista remete tanto ao ciclo da cana-de-açúcar, sustentado pela mão de obra negra, quanto ao preconceito social que associa cachaça às classes mais rebaixadas da sociedade, aos negros, índios, párias e bêbados abandonados às mazelas. Unguento é o nome dado às pastas empregadas desde a antiguidade para tratar distintas enfermidades. A garrafada possui a mesma finalidade curativa sendo largamente utilizada pela população em misturas de cachaça com inúmeros exemplares de ervas, raízes, folhas, cascas, seivas e animais. Porém, no duplo processo de cura e de defesa o artista acaba por produzir uma garrafada capaz de matar por hemorragia interna, atualizando a imagem do arcaico sacerdote que medicava ou envenenava de acordo com a necessidade de amansar ou matar o senhor.
A erva-da-guiné também é utilizada na vídeo-performance Implantar Anamu (2016), realizada durante residência em Habana Vieja, Cuba, diante do muro do forte La Cabaña,  grandiosa construção do século XVIII projetada pelos espanhóis e edificada pela mão escrava, que  se impõe como símbolo da arquitetura do poder e do controle punitivo. O forte anteriormente fora usada como base militar e como prisão de tortura e hoje funciona como museu – também uma instituição de poder que trabalha continuamente com critérios de seleção e de exclusão não só da linguagem estética, mas de aspectos de ordem política, social, gênero, raça. Implantar Anamu é um trabalho que distende a pesquisa de Dalton Paula com a erva-da-guiné e com os procedimentos de triturar  objetos. Mergulhado na repetição de um gesto obsessivo e cego Dalton Paula leva seu corpo à exaustão, distendendo o tempo da ação de macerar no almofariz de metal alguns vasos de cerâmica, até transformá-los em pó, expressando uma vontade de devolver a terra aquilo que a ela já pertenceu e que a cultura humana extraiu. A longa duração do trabalho remete à lentidão da vida dentro de uma prisão, onde os dias não passam, mas se arrastam. Dalton Paula realiza um ritual para triturar o que antes fora moldado e plantar nas ruínas da destruição o antídoto contra a opressão e o subjugo, plantar na mescla de pó e cacos de cerâmica e terra fértil da ilha uma erva-da-guiné, chamada em Cuba de anamu. Planta que age como elo conectando as narrativas dos negros escravizados no Brasil e em Cuba e por meio da qual o artista questiona poderes e reposiciona o lugar de fala e o volume da voz do negro diante do passado, do presente e do futuro.
Desprovida de categoria e acoplando performance, vídeo e fotografia  a obra Coronel Castelo Negro B (2013) também se confronta com a conjunção dos poderes militar e político. O título parodia o nome do General Humberto Castelo Branco (1897-1967), principal agente do exército no Golpe de março de 1964 e primeiro presidente da ditadura militar, responsável por inaugurar o período de trevas marcado pela suspenção dos direitos políticos, pela repressão aos movimentos de esquerda, pela perseguição aos opositores e pela censura à livre expressão intelectual e artística. Dalton Paula cria um autorretrato no qual funde referências ao exército e à polícia militar; se apropria das insígnias da patente de coronel, as três estrelas gemadas, e as costura na pele de seu ombro desnudo. O local da cena é uma pastagem verdejante  onde comanda o arcaico e vivo coronelismo rural, administrando os latifúndios e o agronegócio com a força política das oligarquias, provocando incontáveis conflitos pela propriedade e uso da terra. Deste local Dalton Paula se apossa e em sua rebelião revira a história, assalta as patentes do poder e as conduz à memória dos ombros do desprovido de posses.
Nilo Peçanha (1867-1924) possuía origem pobre e por causa da cor de sua pele era chamado pejorativamente por seus opositores de mulato, embora negasse qualquer afro-descendência; mesmo com todas as condições adversas para pessoas de sua classe avançar em posições sociais tornou-se um político importante, e chegou até a presidência do país na passagem da primeira para a segunda década do século XX. Fato admirável numa sociedade que havia abandonado oficialmente a escravidão somente há vinte e um anos. Seu nome intitula a foto-performance em que Dalton Paula posicionado de frente a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, exibe costurado na pele de suas costas o brasão da república, símbolo maior do poder do Estado, introduzindo a indagação sobre como um negro pode se apropriar dos instrumentos de governo.
O vídeo O batedor de bolsa (2011) aponta a violência contida nos processos de exclusão social e nos preconceitos raciais da sociedade, pelos quais  formou-se uma imagem deturpada do criminoso e do marginal, associando marginalidade às pessoas de pele negra e de origem humilde, àqueles que vivem muitas vezes desprovidos de bens essenciais, mas que nem por isso seriam capazes de roubar. O racismo, hoje criminalizado, tem seu lastro entranhado no comportamento brasileiro. O trabalho registra a performance feita no espaço público de uma rua em bairro de periferia, tendo como fundo um muro com pintura branca desgastada que contrasta com a pele negra do artista e com a cor preta da bolsa. Sua ação é econômica e rápida: tendo nas mãos um cassetete de madeira (objeto que também é uma arma utilizada pela polícia), tenta bater em uma bolsa feminina suspensa no espaço acima de sua cabeça. Cegamente golpeia o ar com o objetivo de surrar a bolsa; insiste até se cansar. A bolsa encaminha para outros significados como a bolsa de valores pecuniários onde circula o fluxo do capital internacional, e que está também acima de grande parte da população segregada, ou como objeto de guarda dos distorcidos valores morais e éticos das classes médias urbanas. Assim ele revive a situação de preconceito que sofrera quando criança, denuncia a violência racial e ao mesmo tempo expurga a desmedida associação, feita geralmente por mulheres brancas, da imagem de um menino negro e pobre à figura do marginal de rua, autor de pequenos furtos conhecido como pivete, trombadinha ou “batedor” de carteira ou de bolsa.

Divino Sobral.
Goiânia, agosto de 2016





[i]  João José Reis. Domingos Sodré, um sacerdote africano: escravidão, liberdade e candomblé na Bahia do século XIX.  São Paulo, Companhia das Letras, 2008, p152.

2 comentários:

Carlos Monaretta disse...

Adorei o texto Divino! O interessante nas obras do Dalton Paula é a simplicidade dos gestos e a força que estes carregam em sua ação! Das diversas formas de se discutir a corporalidade, raça, gênero, historicidade e também os diversos espaços e privilégios de poder que surgem nas mais diversas instâncias da sociedade. Produções como esta são mais que necessárias para que exista discussões sobre assuntos que infelizmente ainda existem em nossa sociedade.

Carlos Monaretta disse...

Adorei o texto Divino! O interessante nas obras do Dalton Paula é a simplicidade dos gestos e a força que estes carregam em sua ação! Das diversas formas de se discutir a corporalidade, raça, gênero, historicidade e também os diversos espaços e privilégios de poder que surgem nas mais diversas instâncias da sociedade. Produções como esta são mais que necessárias para que exista discussões sobre assuntos que infelizmente ainda existem em nossa sociedade.

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
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