segunda-feira, 4 de julho de 2016

Tributo a Ivad Granato

O blog ArtArte associa-se à tristeza e pesar dos familiares, amigos, colegas e admiradores pelo falecimento do artista Ivald Granato. Com mais de 50 anos de atividades e um dos precursores da performance no Brasil, Ivald deixa seu nome inscrito entre os grandes nomes da arte brasileira.






Saiu no Ceará.
O pincel com asas de Ivald Granato

No Brasil da Discoteca do Chacrinha, a pintura de Ivald Granato e sua consistência estética pode ser entendida como uma avis rara, em todos os sentidos

Floriano Martins*
... Especial para o Diário de Cuiabá

Ivald Granato (Rio de Janeiro, 1949-2016) é o melhor artista que o mundo pop deu ao Brasil. Evidente que para ele não importa essa condição de “o melhor”, tanto quanto importa ao pop. Granato recorreu a todos os truques do mundo pop e por suas veias conduziu a primazia de uma pintura que soube rapidamente ir além do pop. O artista não comporta comparações entre os grandes nomes do pop em todo o mundo, pois cada um de seus artistas é fruto de uma sociologia distinta. Importa saber que Ivald Granato deixou longe, minúsculo, quase invisível no retrovisor, o restante do mundo pop no Brasil. Com a intrigante performance de seus pincéis, infinitamente além do bailado gestual dos truques de palco e do circo auto-promocional do mundo pop, a pintura de Granato hoje constitui uma obra refinada e de intensa consistência estética. No Brasil da Discoteca do Chacrinha, a pintura de Ivald Granato é uma avis rara, em todos os sentidos. Este diálogo com o artista reflete sua sinceridade. É uma breve partitura incendiária para os leitores do DC Ilustrado.

Floriano Martins: Em meio a todos esses personagens que saltam frenéticos da ponta de teu pincel, como se invadissem o salão de uma gafieira, e que ali se mesclam a tantos outros encarnados pelo próprio pintor, talvez não esteja de mais indagar quem é Ivald Granato. Ou melhor: qual Ivald Granato se sobressai em meio a todos eles?

Ivald Granato: Sempre fui plural, gosto da diversificação, o lado simples da vida e meio sem graça. O fato de variar é dinâmico e fica sempre atuante colaborar com o processo de viver.



FM: Mas no meio da multidão o Granato se reconhece em alguém em especial?

IG: Sim, tenho um pouco de muitos, mas tenho muito de poucos.



FM: Recordo uma exposição tua, Dorsaymomaqui (1994), que a imprensa abordava como sendo uma evocação de outros artistas, como Picasso ou Gauguin. Já o Jacob Klintowitz, em ensaio com que abre livro dedicado a ti, observa que a tua maneira “de construir a figura, através das relações dos volumes internos, tem o seu exemplo máximo na obra emblemática de Paul Cézanne”. Há algum destaque, não necessariamente na pintura, alguém em particular que tenha importância essencial para ti, alguém que talvez até aqui a crítica nem tenha percebido, em parte por limitar a vida de um pintor ao universo da pintura?

IG: Dorsaymomaqui foi extremamente experimental e ambicioso, pois fazer um relato da história da arte sem sobrepor a fotografia na base do olhar foi excitante, forte e desafiador. Achei essa experiência formidável, deitei e rolei, foi compulsivo e muito alto astral. Não foi a primeira vez que fiz coisas assim nas pastas, pintei retratos e estilos de todos, foi muito rica essa forma de trabalho.

FM: Então o Granato não se reconhece na pintura de alguém? Não digo necessariamente uma influência, porém uma afinidade. Isto me interessa mais.

IG: Com certeza tenho afinidades: Rembrant = Picasso = Lautrec = Cézanne = Matisse = Bacon = Basilit = Granato.

FM: Exposições, fases, detalhes de traços, vultos, cores – por detrás do estilo em si, seus truques, jogos de aparência, evoluções, qual obsessão permanece ao longo desses anos todos de pintura?

IG: Organização-desenho-pintura-performance-liberdade e independência.

FM: Gêneros artísticos – a performance, por exemplo – se desgastam com o tempo ou com o excesso de sua utilização, sua banalização?

IG: A performance, das tendências dos últimos quarenta anos, foi a que mais se renovou e correu paralelo à pintura. Desgastante foi o conceito de instalação e a apropriação de obras sem participação do artista, estes sim, são conceitos que ficaram banais.



FM: Um dos riscos da ruptura com o mito é o de criar, com essa ruptura, a figura de um novo mito. Granato rompe com o mito da arte pop, por exemplo, mas com isto evoca um mito Granato. Sinuca de bico sempre?

IG: Sempre convivi com a ruptura. Não me atrai o estático. Ruptura é processo de vida. Não o que fazem na arte, essa de romper e depois ficar fazendo o que chamou de ruptura anos e anos.

FM: Performance, arte gestual, expressionismo, no fundo sempre me pareceu que o Granato tem em mãos uma guitarra elétrica disfarçada de pincel, que és em essência um roqueiro, sem que isto signifique uma frustração, mas antes um deslocamento de retina (inclusive a do observador), como quem tem a alma em um ambiente e o corpo em outro, não por estar perdido de si, mas antes, como estratégia ou golpe ilusionista. Acerto?

IG: Sempre gostei de música. Na minha infância a minha irmã tocava piano e meu irmão bateria. Sempre fui amigo da música, porém tudo o que se refere ao material de produção para expressar arte, como pincel, tintas, lápis, canetas, papel, tudo isso sempre foi a minha maior paixão.

FM: Aqui eu pensava muito em uma frase do Jacob Klintowitz, ao dizer que “o caminho brasileiro em direção a uma cultura de massa tem na sua obra uma linha de tempo que pode servir de paradigma”. Até poderia referir-me àquele teu encontro com o Ron Wood, por exemplo, onde os pincéis mais pareciam duas guitarras, emblemáticos da cultura pop.

IG: Sim, foi uma atividade super-nova e grandiosa, o Ron Wood é fantástico. Ele também fez Belas Artes.

FM: Diante da máxima aceita por muitos de que o artista é fruto de seu tempo, cabe indagar: onde está o artista hoje?

IG: O conceito abriu uma grande janela na arte, o que foi muito saudável nos últimos tempos. Depois resolveram trocar o glamour, a criatividade e a sabedoria pela punheta, todos querem ser paquerados como se fossem uma mocinha com 17 anos.

FM: Diante disto o que sobra atualmente como arte?

IG: A arte continua Bela : Sofisticada : Desafiadora. O meio é que ficou lamentável.

FM: Já em 1979 observavas, acerca dos críticos de arte no Brasil, que “na maioria quase total só sabem falar sobre bom e ruim, sem capacidade de análise, mostrando uma imaturidade e uma sensação de pouca evolução”. Desde então decaiu muito o ambiente jornalístico, alcançando uma alta voltagem de superficialidade na leitura dos acontecimentos culturais do país. A crítica de artes seguiu a mesma trilha ou acaso algo em especial te surpreende nos últimos tempos?

IG: A crítica sumiu, foi decapitada, a superficialidade ficou clara e nasceu a Curadoria, que não exerce o seu papel, nasceu um tipo cínico-obediente repleto de trapaças. O jornalismo da arte não caiu: despencou. Alguns críticos que estudam e sabem observar não têm espaço. A surpresa e a falsidade ideológica estão sempre presentes.

FM: Como está o gás existencial, querido? O que o Ivald Granato ainda espera de si mesmo?

IG: Acredito nas mudanças. Como tudo mudou muitas vezes não tem como não mudar novamente. Estou convicto que fazer arte livre ainda é espetacular.

FM: Esquecemos algo?

IG: Creio que falamos o essencial. Estou à disposição.



*Floriano Martins (Ceará, 1957) é poeta, editor, ensaísta e tradutor. Dirige a Agulha Revista de Cultura (www.revista.agulha.nom.br) e colabora semanalmente com o DC Ilustrado com uma série de entrevistas que futuramente reunirá em livro intitulado Invenção do Brasil. Contato: arcflorianomartins@gmail.com.
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DomadorDEboca


Faap, 1975.


IG-1974.

Pinacoteca.


Folha de São Paulo. Artes Visuais, 1978.


O Discurso Poético.


Texto José Roberto Aguilar.


Texto Aqui é Aqui Mesmo.
Texto Mario Schenherg.





Catálogo Mônica Filgueiras de Almeida.



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Cicatriz.





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 Mão no Rosto.



Guarda Chuva.



























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