O dever do agradecimento
Entre os fatos mais significativos em minha carreira
profissional, saliento a oportunidade de colaborar no esforço de implantação do
nosso Hospital Universitário. Foi um privilégio ter dedicado tempo e energia à
abertura de uma instituição de serviço à vida humana. Foi um privilégio
compartir a experiência com pessoas que se distinguiam pela competência e a
aptidão para o trabalho coletivo, sem a ambição do papel de solista.
Na regência do grupo, a figura invulgar
de Clementino Fraga Filho. Tão breve o perdemos, mais uma perda na equipe
inaugural, a de José Manuel Ribeiro dos Santos, primeiro Coordenador da
Comissão de Residência Médica do Hospital.
Naquele início, a tarefa mais desafiadora
na área educacional era organizar os
programas dessa etapa da formação médica, depois de um impecável concurso para a escolha dos jovens
médicos que optaram por fazer parte da história da nova instituição. A um só tempo, era necessário dar-lhes
condições para ajudar a pôr em marcha as atividades assistenciais e a promover
seu aprendizado.
Como iniciar programas educacionais
cuja essência é o treinamento em serviço
num hospital sem pacientes? Como desenvolver os programas educacionais paralelamente
à progressão das práticas assistenciais? Como preencher adequadamente o tempo
sempre precioso dos Residentes? Como acolher seus justos e inevitáveis reclamos?
Passados os primeiros momentos, ainda
sob a orientação da Comissão encarregada da seleção dos Residentes, a tarefa
foi atribuída a José Manuel, professor assistente, originário do Serviço do
Professor Luiz Feijó, no Hospital Moncorvo Filho. Dedicou-se integralmente à
tarefa, procurando aprender os conceitos fundamentais dessa modalidade de
pós-graduação, manter-se atualizado com sua crescente regulamentação, aprender com
os mais experimentados, e preservar o diálogo com os Residentes, pontuado de
reivindicações.
Não foi encargo de fácil condução. Além
das restrições inerentes ao funcionamento recente do HU, deparou-se com a contrariedade
de Chefes de Serviço, que, habituados à tradição do trabalho isolado, insistiam
em conduzir sozinhos o programa de treinamento, já regularizado para todo o
Pais.
José Manuel exerceu modelarmente sua
atividade. Mostrou sua inteligência incomum, sua lealdade, sua inteireza moral,
com que, aliás, conduzia também seu trabalho fora da Universidade. A
sinceridade, por vezes incômoda, era outro de seus traços distintivos. Em
condições desfavoráveis a sua atuação, não recorreu à simpatia e a promessas,
para conquistar apoio. Não se valeu de ocasiões e amizades de circunstância para
benefício próprio, ou para alcançar visibilidade.
Irmanados, Márcio Fonseca e eu acompanhamos
o final da vida desse colaborador. Por sua formação espiritual, foi exemplar nos
preparativos para a viagem e na serenidade ao ver aproximar-se seu início.
O tempo passa, as
horas passam, o mundo interior se despovoa, a saudade viceja e cresce. De você,
José Manuel, ficam a gratidão pela colaboração inestimável, a amizade duradoura,
o exemplo de honradez. Obrigada.
Alice Rosa
Ex-Coordenadora da CAE

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