quarta-feira, 22 de junho de 2016

A Virgem do Alto do Moura, Nadam Guerra Paço Imperial



Antropofagia contemporânea

Na exposição A Virgem do Alto do Moura,  Nadam Guerra apresenta trabalhos inspirados no fazer artístico de Mestre Vitalino

Será inaugurada dia 23 de junho, as 18h30, no Paço Imperial, a exposição A Virgem do Alto do Moura de Nadam Guerra. Sob a curadoria de Raphael Fonseca, a mostra, apresenta esculturas, vídeos e o livro Os doze passos da Virgem do Alto do Moura, resultados da pesquisa, iniciada em 2014, durante a residência artística nos ateliês dos herdeiros e discípulos de Mestre Vitalino no bairro Alto do Moura, em Caruaru, PE.

O projeto A Virgem do Alto do Moura de Nadam Guerra integra o Circuito Cultural Rio, idealizado pela Secretaria Municipal de Cultura e pela Prefeitura do Rio, para a programação cultural dos períodos Olímpico e Paralímpico, que vai de maio a setembro de 2016. 

Nossa Senhora do Alto do Moura, é uma personagem fictícia: uma boneca de Mestre Vitalino recodificada e transformada pelas mãos de Nadam. Após uma reunião popular no sertão comandada por Antonio Conselheiro da qual participaram Lampião, Luiz Gonzaga, o Príncipe da Pedra do Reino (personagem de Ariano Suassuna), entre outros, foi decidido que uma jovem virgem deveria percorrer o mundo em busca de comunhão com outras culturas no intuito de unificar a população mundial, levar ensinamentos de volta as origens e, desta forma, reconduzir o homem ao seu estado natural, como no sertão nordestino, criando a nova era de paz e amor.






Os trabalhos apresentados são esculturas com a imagem da própria virgem e de seus filhos, divindades, concebidas e paridas nos intercursos sexuais e artísticos com seres mitológicos de outras culturas acontecidos durante sua peregrinação pelo mundo até Atlântida, que seria a nova capital do Sertão. As cenas da viagem – os doze passos – assim como as cenas de sexo com deuses do mundo – os 12 encontros - foram registradas escultoricamente e também serão exibidas na exposição.

Nos vídeos, o público poderá ver depoimentos que aproximam a narrativa da Virgem com a história do Rio de Janeiro e com pitadas de ficção científica. Entrevistas de Paulo Knaus (diretor do Museu Histórico Nacional), de Denise Rocha Gonçalves (diretora da Pós-graduação em Astronomia da UFRJ) e da Mestra Marliete (artista de Caruaru), entre outros, serão exibidos na exposição.

Segundo o curador Raphael Fonseca “A obra de Nadam Guerra transcende a contemplação, e discute o hibridismo cultural de nossa civilização. Estimula, ainda, o imaginário ao realizar conexões entre culturas, arte, imagens, poesia, literatura e história. Promove o debate sobre arte e literatura, mesclando a arte popular de Mestre Vitalino à arte contemporânea. Há também neste trabalho o desejo de refletir a relação entre documento e ficção”.

A exposição “A Virgem do Alto do Moura” é uma mitologia transcultural que perpassa diferentes tempos históricos e, por meio da arte e da fé, busca proporcionar  ao visitante uma experiência sincrética e de miscigenação típicas da cultura brasileira.


A Virgem do Alto do Moura – Nadam Guerra
Curadoria: Raphael Fonseca

Abertura: 23 de junho de 2016 às 18h30
Performance:  dia 2 de julho às 10h | Cortejo dos devotos de Cristália com a cantoria do coletivo Céu na Terra
Exposição: 23 de junho a 31 de julho de 2016
Terça a domingo, das 12 às 19h

Paço Imperial
Praça XV de Novembro, 48 - Centro |Rio de Janeiro
( 21 2215-2093
Entrada Franca | Livre para todos os públicos

Informações para a imprensa:
Raquel Silva
Assessoria de Comunicaçãoraquelsilva@alternex.com.br
( 21 2274-7924 | 9965-3433


Sobre o artista
Nadam Guerra vive e trabalha no Rio de Janeiro.
Sempre engajado em projetos multidisciplinares mirabolantes. Começou a inventar história trabalhar com cerâmica aos cinco anos de idade.
Seu primeiro trabalho, em 2001, a Complexiótica, consistia em uma exposição que na verdade era um teatro onde transformava poemas em formulas matemáticas. Depois resolveu fazer o Cinema Manual que eram a projeção de imagens de dramaturgia abstratas produzidas sempre ao vivo com luz e sobra.
Em 2003, cria com Domingos Guimaraens o Grupo UM, lançando o Manifesto UM pelo fim das fronteiras entre artes e organizando esculturas imateriais, teatros abstratos, humanogravuras e chanchadas conceituais.
Em 2006 funda com um grupo ecovila Terra UNA na Serra da Mantiqueira, MG, inventando um lugar onde a gente, o artista e a natureza feliz vivam sempre em comunhão.
Entre 2008 e 2011 materializou sonhos de 50 pessoas em placas de cerâmica e criando com elas um tarô autoral.
Em 2010 inicia parceria com Michel Groisman criando o Desmapas e o Caminhozinho, um jogo em que o público é o tabuleiro e outros jogos.
Nadam vem tentando há muitos anos em vídeos e performances ao vivo ser outra pessoa ou coisa. Em 2012 começa a assumir heterônimos.
Em 2014 canaliza a lenda de Nossa Senhora do Alto do Moura onde uma boneca de barro lidera a grande virada para uma nova era pós-capitalista.
Estudou teatro, cinema e artes visuais e outras maneiras de dominar o mundo sem violência.

Circuito Cultural Rio
Idealizado pela Prefeitura do Rio, o Circuito Cultural Rio conta com mais de 700 atrações, selecionadas e patrocinadas por meio dos editais da Secretaria Municipal de Cultura, que serão apresentadas em mais de 100 espaços culturais espalhados por toda a Cidade, além dos eventos que acontecem ao ar livre. Com peças de teatro, exposições, shows, espetáculos de dança, atrações circenses, eventos de gastronomia, manifestações de rua, saraus, bailes e afins, o Circuito Cultural Rio vai possibilitar uma experiência integral da diversidade cultural carioca. 

Texto do curador Raphael Fonseca
Nadam Guerra realiza objetos com cerâmica desde a sua infância. Sendo um pesquisador de seu fazer e também de sua História no Brasil, se configurou coerente à sua trajetória realizar um projeto que dialogasse de modo direto com Mestre Vitalino, o célebre ceramista de Caruaru.
“A Virgem do Alto do Moura”, portanto, se desdobra entre imagem e texto, assim como projetos anteriores do artista. Há aqui a vontade de refletir sobre a relação entre documento e ficção. A partir da narrativa textual sobre um personagem novo dentro do panteão de figuras icônicas dessa região batizada por “Nordeste”, reina a Nossa Senhora do Alto do Moura, advinda das diversas esculturas em barro que representam cenas de casamento atribuídas ao Mestre Vitalino, recodificada e transformada em uma realidade artística pelas mãos de Nadam Guerra. É nesse lugar entre o diálogo com aquilo que comumente ganhou a alcunha de “arte popular” e a sua própria experiência com o fazer do barro, mas que facilmente seria rotulado por “arte contemporânea” devido à sua formação e lugar de atuação, que o artista parece querer agir.

Não só um texto de sua autoria nasce desse encontro, mas três trabalhos: uma série de figuras de barro dos filhos que a Virgem do Alto do Moura teve durante sua trajetória pelos diversos cantos do mundo que possuem tradições do fazer cerâmico; outro grupo de representações dos encontros sexuais essenciais para a renovação energética da personagem em sua trajetória; um vídeo em que um historiador da arte português comenta uma série de vasos, também narrativos, encontrados após uma expedição arqueológica.

Desse modo, Nadam Guerra parece propor uma outra arqueologia, ou seja, trazer ao público uma visada para um Brasil que, longe de ser purista, está imerso em um caldeirão multicultural condizente ao tempo em que vivemos e, claro, à nossa própria História.



A redescoberta da Virgem do Ato do Moura no Paço Imperial.
(texto de abertura da exposição)

É no mínimo gratificante realizar a presente exposição e reunir pela primeira vez tamanho número de peças relacionadas a Virgem do Alto do Moura justamente no Paço Imperial, cenário de parte desta história. Temos o prazer de mostrar objetos de inestimável valor arqueológico e cultural como os vasos originais que contam as peripécias da Virgem durante a viagem mítica para a salvação do mundo; a chamada Roseta da Gávea, documento da adoração dos filhos da Virgem no Rio de Janeiro; além das recriações contemporâneas de Nadam Guerra sobre os encontros da Virgem e as lendárias esculturas dos doze filhos realizadas por Euclides Terra.

Como é sabido, as circunstâncias biográficas desse importante artista brasileiro levam a caminhos historiográficos bifurcados. Há aqueles que acreditam que o artista teria sido nascido no estado de Minas Gerais durante a Grande Virada, assim como outros pensam que ele teria produzido essas esculturas apenas no século V depois dessa mesma Virada. Nem mesmo as fontes de seu projeto iconográfico foram localizadas – seriam elas frutos da visão divina de um artista contemporâneo à passagem da Virgem ou alguém que se baseou na fonte textual mais referida aos acontecimentos, ou seja, “Os 12 passos da Virgem do Alto do Moura”?  Nunca seremos capazes de responder a essas inquietações de modo objetivo – eis uma das melancolias e uma das delícias do fazer dos arqueólogos, curadores e historiadores da arte.

Tivemos o cuidado de reunir um amplo material audiovisual e didático que nos aproximam e tornam acessíveis ao grande público as pesquisas da pós-arqueologia. Não havendo tempo suficiente para estudos mais profundos, mas entusiasmados pelas relíquias descobertas, esperamos contribuir com uma leitura dessas obras em diálogo com o que se sabe da trajetória viajante da Virgem em nosso mundo. Na ausência de certezas, fica o convite ao público para que contemple tanto essas figuras antropomórficas plenas de aparatos alegóricos, além das placas de cerâmica que criam narrativas em torno da passagem da Virgem entre nós. Esses objetos são facilmente relacionáveis a outras produções de narrativas histórico-religiosas em culturas tão antigas como a egípcia, a indiana e a greco-romana. As placas se destacam pelo estado de conservação impressionante das mesmas. De todo modo, estudos recentes apontam que o tom monocromático das mesmas merece mais estudos e averiguação laboratorial já que fontes textuais antigas teciam elogios à policromia das mesmas. Teriam as cores sido apagadas pela ação do tempo?

Por fim, fico particularmente honrado em compartilhar essa curadoria pela primeira vez com o público residente no Rio de Janeiro. Espera-se que a exposição contribua com a maior disseminação da Virgem do Alto do Moura e que futuras gerações de historiadores, arqueólogos, artistas e autores de ficção se sintam convidados a também contribuir com seus olhares direcionados a ela.

Juca Amélio

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Maurizio Cattelan

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