segunda-feira, 2 de maio de 2016

Jeff Chies - A Vida Secreta das Imagens Curadoria: Juliana Monachesi na Usina do Gasômetro Porto Alegre







A vida secreta das imagens

No contexto da globalização cultural e financeira, de voracidade da sociedade do consumo e de espetacularização do capitalismo digital, o que poderia ser mais coerente do que olhar a pintura atual sob a ótica da filosofia da imagem? Nos trabalhos de Jeff Chies, podemos ver um universo de imagens capturadas em pleno movimento através do tempo e do espaço. Um caligrama à Cy Twombly, um desfoque à maneira de Gerhard Richter, uma solução à la De Kooning de conciliação entre linha desenhada e tinta espalhada. Alguém poderia objetar que estes não são exemplos de “imagem” emprestada ao fluxo inexorável das mídias de massa. Mas a arte também foi engolida e reprocessada no contexto de explosão demográfica imagética que sintetiza o século 21: aqui, o vocabulário abstrato conheceu o mesmo destino que o léxico figurativo, qual seja, a transformação em um vastíssimo banco de dados no qual os artistas garimpam elementos para suas composições. Daí não se poder separar mais o que seria abstrato daquilo que seria figurativo. 


Na pintura “Sem Título 1”, predominantemente feita em tons de azul, há uma espécie de clarão que se desprende dos iluminados amarelos Nápoles , mas sobretudo de um rasgo salmão mais ou menos centralizado, em sentido vertical, na tela. Esse “rasgo” não é contínuo, interrompido por pinceladas horizontais na parte superior e parcialmente velado por respingos, escorridos e raspados na parte inferior. Mas ele se impõe ao espectador como uma evidência de descontinuidade entre a pesquisa do artista e o projeto expressionista abstrato de afirmação absoluta da planaridade; projeto com que se poderia identificar as telas de Jeff Chies em uma primeira e apressada apreciação. Ali está uma fresta iluminada, jogando para a frente a estranha coreografia de movimentos azuis que parece ter dado a forma final à obra. Bem ali, a fissura no sistema filosófico moderno da arte. Em outras pinturas do artista, é possível identificar frestas da mesma natureza, que insinuam a existência de figura e fundo, mas em nenhuma o dispositivo aparece tão deliberadamente como nessa obra. É que a pesquisa de Jeff não é um sistema. O desvelamento e ocultamento das imagens da arte abstrata, em sua trajetória, se dá como mobilização, a cada trabalho, de todo um repertório internalizado e refletido. Não ocorre como releitura de um ou outro artista ou de determinada obra, como era frequente encontrar na arte de fins dos anos 1980 e da década de 1990, por exemplo, o que se chamou de pastiche pós-moderno. A atitude de Jeff Chies na pintura, como a de seus pares de geração 2.0, é de experimentação informada pela experiência.

“Dois Mundos” contrasta com “Sem Título 1” porque a presença, nele, de um elemento vertical iluminado no centro da tela não guarda relação nenhuma com a do outro trabalho. Aqui, ocorre uma negação da pincelada; recurso predominante na tela. O gestual, quase extinto, surge apenas como resquício, fantasmal, de um pensamento. Seria a isto que se refere o título da obra, “Dois Mundos”? As pinturas mais recentes de Jeff Chies – como “Aqui”; “Algo Precisava Ser Dito, o Lago Acima da Água”; e “Nem com Todas as Palavras Seria Possível”– parecem se localizar todas do lado de cá entre aqueles dois mundos. O lado de lá sendo o gestual e, o de cá, o não gestual. No sentido de que o gesto é anterior à linguagem falada e escrita; precede qualquer possibilidade de articulação lógica; e sereniza à medida que o discurso passa a direcionar a intenção. Quando a “escritura” irrompe nas telas recentes, vemos a mobilização de um outro vocabulário sendo agregado ao pensamento do artista, assim como um contexto informacional sendo posto em questão, ampliando o escopo da discussão de Chies. Vemos a sua pintura migrar de Greenberg a Debord, bem diante de nossos olhos. 

Arte é um lugar. Imagem é uma economia (de circulação). Pintura é um (conjunto de possibilidades de) discurso. Qual o discurso das telas de Jeff Chies? Para mim, elas contam a vida secreta das imagens.

Juliana Monachesi
maio de 2016

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