quinta-feira, 19 de maio de 2016

Conversando sobre Arte entrevista com a artista Sani Guerra






Quem é Sani Guerra? 
Nasci e fui criada em Friburgo, região serrana carioca. Tenho casa no Rio, mas atualmente, por conta de espaço e tranquilidade, fico mais na serra onde construí meu atelier. Na adolescência, estudei teatro na Martins Pena, fiz algumas peças, mas acabei me voltando para o visual, fazendo design na Faculdade da Cidade. Já fui muita coisa nessa vida, empresária, corretora, tabeliã... até assumir definitivamente a arte.

 Como a arte entrou em sua vida?
Eu cresci onde a arte sempre se manifestou através da música. Na minha família materna, temos muitos instrumentistas autodidatas. Eu estudei violão para seguir a tradição, mas desde novinha, criança ainda, adorava desenhar com grafite e fazia retratos de pessoas que admirava, sempre com muita facilidade, como meu pai, que valorizava e me incentivava... Eu não tinha noção de que poderia desenvolver esse talento e me tornar artista plástica, acho que até hoje uso muito a intuição no trabalho por conta disso. Muita vida aconteceu e em 2006 resolvi me dedicar integralmente as artes, iniciei um curso no Parque Lage-EAV com o Luiz Ernesto e a partir daí não parei mais, com muita pesquisa e trabalho. 

Qual foi sua formação artística? 
O Parque Lage (EAV) foi essencial para mim. Hoje vejo que todas as experiências fazem parte dessa formação, tudo está interligado. Desde que comecei a trabalhar com arte, todas as minhas vivências, viagens, pesquisas, relações, passaram a fazer parte de um laboratório de ideias que vão sendo lapidadas e inseridas no trabalho. Eu chamo de atelier flutuante que me persegue onde quer que eu vá. 

Que artistas influenciam em sua obra?
Na pintura são muitos... nesse momento, posso citar um em especial, Hieronymus Bosch. O Barroco, o Renascimento, a Arte Tibetana, são pesquisas constantes no meu processo. Na escultura, Rachel Whiteread, Kiki Smith

. Como você descreve seu trabalho?
No início da minha carreira, me dediquei à escultura e intervenções urbanas, em 2008, comecei a desenvolver meu projeto Construção que consiste em moldar parte da arquitetura e monumentos históricos nas cidades. Foram mais de vinte intervenções que geraram algumas esculturas. Utilizo a técnica do papel marche para criar esses moldes que podem ser reproduzidos em gesso e outros materiais... A pintura aconteceu em 2013, até então tinha alguns trabalhos em acrílica, mas foi com a tinta a óleo que me identifiquei e hoje, a maioria das minhas pinturas são a óleo. Os textos escritos pela Isabel Portella e pela Tatiana Martins para a minha exposição “Memória e Impermanência”, na Galeria do Lago, no Museu da República, descrevem muito bem, minha trajetória e pesquisa nesse momento. 

É possível viver de arte com a crise atual?
Viver de arte é uma ousadia em todos os tempos. Ao contrário do que muitos imaginam, é uma vida dura e cheia de trabalho. Eu, particularmente, tenho uma rotina bem árdua, mas não sei mais viver de outra forma. Tenho conseguido espaço para mostrar meu trabalho e espero que ele possa tocar as pessoas.

 Qual a importância para seu trabalho da atual exposição no Museu da República? 
A importância é enorme! Minha primeira individual no Rio, com duas curadoras, a Isabel Portella e a Tatiana Martins que acreditam no meu trabalho e me respeitaram muito nas escolhas e no processo todo até chegarmos à exposição que apresenta trabalhos de pintura e escultura tendo como referência os jardins que abrigaram duas propriedades do Barão de Nova Friburgo, o “Chalé do Barão”, atual Parque São Clemente (Friburgo) e o Palácio do Catete, atual Museu da República. Tudo isso entrelaçado com a minha vivência que nasci e fui criada na cidade de Nova Friburgo. Conheci a Tatiana Martins através da Revista Dasartes Brasil, quando venci o concurso Garimpo e ganhei um texto lindo dela. Depois disso, Tatiana me apresentou à Isabel e propôs a parceria na minha exposição. Foram dois anos de imersão...uma pesquisa intensa e um processo muito rico que inclui intervenções em duas esculturas do acervo do museu – “Alegoria à América” e “A Escrita”. Desenvolvo desde 2008 o meu projeto Construção que cria Intervenções Escultóricas em monumentos históricos e arquitetura, já foi feito em diversos lugares, dentre eles, MAM/Rio de Janeiro, EAV/Parque Lage, antigo Cassino da Urca, Castelinho do Flamengo, participou do Salão de Artes Plásticas de Petrópolis, Centro de Cultura Raul de Leoni, Petrópolis/RJ. Em 2009, ganhou o Prêmio Interações Estéticas da Funarte/MINC. Foi maravilhoso poder executá-lo para essa exposição na Galeria do Lago, no museu da República. A Isabel Portella, foi incrível me possibilitando esse acesso às esculturas do museu. 

O material nacional para pintura já tem a qualidade necessária? 
Acho que sim, tenho conseguido bons resultados com ele.

 O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria? 
Participar de salões, fazer exposições, conhecer curadores, são boas opções para mostrar o trabalho, as pessoas precisam te conhecer.

 A mulher e o homem já estão em igualdade de condições no mercado de arte?
Espero que sim. Mas, sem ilusões.

 O que você pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?
Existem ótimos salões. 

Quais são seus planos para o futuro? 
Quero continuar minha pesquisa com a pintura e desenvolvendo meu projeto de escultura, o “Construção”. 


Texto sobre  exposição Memória e Impermanência



Memória e Impermanência – Tatiana Martins.



Na arte contemporânea, dificilmente a produção do artista se revela a partir dos limites rígidos de um meio de arte. As obras de Sani Guerra, apresentadas na Galeria do Lago no Museu da República, contornam esse parâmetro: são objetos característicos e celebrados no contexto da arte tradicional: telas e esculturas figurativas. Porém, associá-las ao rigor normativo das Belas Artes é equivocado. O registro dos trabalhos pertence à contemporaneidade, pois, friccionam a positividade dos meios específicos com a qualidade superficial das imagens. As imagens não são propriamente figurações de uma narrativa coesa...são fragmentos atemporais do imaginário da artista. Sani Guerra estrutura suas obras em sintonia com o Palácio do Catete, seus Jardins e o próprio acervo do Museu. Como a premissa inicial do projeto, a artista considera a transitividade - oferecida comumente pelos espaços museológicos - entre diversos tempos e espaços. No díptico, o Barão e Baronesa de Nova Friburgo - primeiros habitantes do Palácio – estão dispostos em plano assimétrico e convivem com curioso cenário: galhos, tapeçaria e mosca. A composição nonsense, motivada pela paródia, aciona uma espécie de labirinto, revelado na trama de infinitos de espelhos refletidos na superfície da tela. Assim se comportam as pinturas da exposição... As esculturas alegóricas do acervo do Museu se apresentam como perfis provisórios, são invólucros inacabados. A artista opta por tratar as cabeças, bustos e máscaras como fragmentos, reconduzindo-nos à dimensão imaginativa da arte de outrora. Florestas, pedaços de arquitetura, figuras incompletas e detalhes de objetos decorativos pertencem aos sonhos...da artista, mas, são igualmente nossos. O embate entre eterno e impermanente está em jogo. O Museu da República representa um marco da nossa História. Nele, temos garantida a salvaguarda da memória coletiva. Confrontar sua simbologia exige esforço e astúcia. Nesse sentido, a exposição da artista nos faz transitar por tempos e espaços oblíquos nos quais símbolos familiares são levemente distorcidos. Estranhamos as imagens porque estamos conformados à pintura e à escultura; estranhamos as pinturas e as esculturas porque as imagens são flutuantes e superficiais, correspondem à memória. 




Memória e Impermanência – Isabel Portella

 A artista fluminense Sani Guerra traz para a Galeria do Lago sua visão encantada da floresta cujo mistério ambivalente gera ao mesmo tempo angustia e serenidade, opressão e simpatia como todas as poderosas manifestações da vida. O convite da artista é para que penetremos com ela nesse santuário de harmonia, seguindo seus passos, suas memórias, seu olhar. As antigas residências do Barão de Nova Friburgo, o atual Parque São Clemente, em Friburgo, e o Palácio do Catete, hoje Museu da República, são referencias em sua obra que transita entre o real e o onírico. As pinturas a óleo revelam a força do desenho e do colorido exuberante, enquanto a fragmentação da imagem permite uma imersão nos vários planos do inconsciente. A memória traz imagens que a visão registrou, mas o tempo transformou. Jardins parecem florestas para uma menina de vermelho que passeia, alheia aos perigos. Não são lobos que Sani esconde entre as árvores, mas doces gazelas, símbolos da inocência, da vivacidade e da acuidade visual. Dizem que seu claro olhar escurece sob o desencadeamento da paixão. Impermanência é a realidade que também está presente nas intervenções feitas nas esculturas do Museu da República, Alegoria à América e A Escrita. A artista privilegia o molde e suas esculturas são provisórias, frágeis e impermanentes justamente porque dialogam com outras formas artísticas e precisam se adaptar a elas. Sani Guerra parte de narrativas pessoais, recolhe memórias e revira seu acervo de experiências para depois transformar tudo em fábulas deliciosas. É ver para crer.



 "Floresta"  2013 - óleo sobre tela, 175x135cm.




"Familia"  2013 - óleo sobre tela, 100x150cm.


 "Passeio na Floresta" 2015 - óleo sobre tela, 200x140cm.



"Na Floresta" 2014 - óleo sobre tela, 100x150cm.


 "Atravessando a Floresta" 2015 - óleo sobre tela, 200x130cm.


"Sem título" 2015 - óleo sobre tela, 150x150cm.



 "Menina de vermelho" 2014 - óleo sobre tela 200x193cm.


Instalação 2010 - Sesc Nova Friburgo-exposição "Superfícies".




Fragmento de "A Escrita" 2016 - Projeto Construção.




Detalhe da exposição "Memória e Impermanência" 2016.





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Maurizio Cattelan

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