terça-feira, 26 de abril de 2016

Alexandre Mazza No Deserto, O Oasis Somos Nós - Luciana Caravello Arte Contemporânea Curadoria e Texto: Bernardo Mosqueira







(ao meu amor)

Mesmo o início surgiu da linguagem. Houve sempre ação, criação e transformação – simultaneamente. Ainda antes do tempo, já havia tudo em potência e como chance de sentido. A Universo já nasceu da vagina dessa mulher-linguagem enquanto paria outra versão de si mesma, parturiente de uma nova Universo que seguiu, então, o fluxo dessa constante gestação da Universo, dando à luz a cornucópia de cornucópias. O que existe que nos utiliza para criar sentido? Ao que as existências se determinam? Mesmo com essa distância que, em segredo, me corrói de saudade, está tudo bem no outro lado, onde brilhava aquele ponto no Atlântico Sul? Ainda brilha? Brilhará?

Inúmeros verões antes da época de nossas bisavós, despertou Ogum, que criaria os instrumentos de metal para a guerra e a agricultura. Foi ele quem ajudou os sumérios a criar o arado que seria capaz de cavar linhas na terra que os romanos viriam a chamar de “lira”. A palavra “delírio” derivou de uma expressão em latim para quando o movimento do arado saía do sulco retilíneo e criava curvas inesperadas no solo. Delirar tem, portanto, uma relação direta com semear no desvio, florescer na diferença.

Numa tarde do ano passado, entre os carros parados na Autoestrada Lagoa-Barra, revelou-se para Alexandre Mazza a imagem de uma linda entidade penosa, meio pássaro, meio anjo, meio mulher, mas que definitivamente não poderia ser definida por meias comparações. São muitos os tipos de desertos (rochosos, arenosos, nevados, habitados, extraterrestres, afetivos, metafóricos, encarnados, Samarcos etc.), mas a aparição da rodovia escolheu se mostrar flutuando sobre o solo de um deserto plano e espelhado. Antes de logo desaparecer, apontou, porém, ao artista o caminho para reencontrá-la. Poucos meses depois, uma equipe de 7 pessoas começaria a incursão de 20 dias por desertos latino-americanos com a missão de encontrá-la para investigar a relação entre vida e mistério, desejo e movimento.

Não foi fácil estar no deserto. Por um momento, acreditamos que onde não havia água, não poderia haver vida, lucidez, fertilidade ou vaidade. É bem verdade que passamos dias sem ver nem insetos. Por um momento, estivemos no lugar mais seco do planeta; em outro, estávamos a mais de 5 mil metros de altura, sem ar. No caminho, passamos por vales encantados, cruzamentos entre Shangri-la, El Dorado e Neverland; fomos de 45ºC para o centro de uma nevasca em uma hora; estivemos entre o espelho d’água salgada e o espelho de Oxum, que é a Lua; fugimos dos trabalhadores sem-terra que cercaram a cidadela e atiravam fogos-de-artifício contra nós; dirigimos horas no escuro dentro de uma nuvem de areia; visitamos o Pico da Loucura, subimos no mastro do perigo, batemos cabeça a Xangô no pé do poderoso Vulcão Licancabur; pensamos que talvez não voltaríamos nem ao Rio, nem ao normal. Porém, juntos, pudemos entender que no deserto o oásis somos nós: feitos 70% por água, carregamos conosco tudo o que nela pode haver.

Numa tarde, à sombra de uma duna, percebemos que uma das integrantes de nossa equipe, a Falta, ardia em febre. A temperatura do corpo da Falta aumentou tanto que ela queimou à frente de nossos olhos. De suas cinzas, 3 ovos de pedra cintilante surgiram. Para que eles não dormissem, tocamos sinos e lambemos um holograma de alta tecnologia que reproduzia os poderes da Universo. Quando caímos no sono, o tempo fez seu papel e a Aurora chocou os ovos para que nascesse a entidade que procurávamos.

Logo percebemos que a entidade definia seus movimentos se afastando e se aproximando de sinais que correspondiam a seus medos e desejos respectivamente. Compreendemos que, mesmo visível e semelhante a nós nesse aspecto, ela habitava outra Universo. Seguimo-la, e as pegadas que geramos na parte arenosa do deserto só serão apagadas na próxima chuva. Parece que já faz 8 anos desde a última precipitação. Numa região rochosa e frágil do deserto, demoraram alguns milhares de anos para desenvolver suas finas superfícies sólidas sobre a areia. Se mesmo o passo cuidadoso é capaz de destruir milhares de anos de trabalho da Universo, passamos a refletir sobre o que motiva cada ação.

Quando a transgressão é uma escolha e não uma escravidão, torna-se mais dono dos próprios questionamentos, compreende-se melhor o risco em que se coloca o meio que nos cerca. No deserto, perseguíamos as nossas perguntas (E a vida? E a vida o que é? Diga lá, ‘mano’.), deixamos respostas voarem com o vento, fomos miragens para as montanhas descrentes, amorosamente oferecemos um ramo de angélicas perfumadas na encruzilhada da Calle Pachamama. É bom lembrar que Fé é definido como a coragem de acreditar num mistério, e que mistério é a substância do inexplicado. Existe vida enquanto existir atração pelo mistério, que tem destino fatal semelhante ao desejo: com a imperativa morte à frente, com uma fonte inesgotável por trás.

Num dia, acordamos e não encontramos mais a entidade. Conosco, estava novamente a Falta, nos acompanhando e completando nosso grupo. Quando finalmente, conseguiu voltar ao Rio de Janeiro, Alexandre Mazza trouxe consigo uma série de trabalhos, traduções visuais das falas enigmáticas do deserto e da entidade que rastreamos por aquelas semanas. São peças que investigam, relacionam e reverenciam as ideias de revelação, ciclo, tempo, transformação, desejo, vida e mistério. Em cada trabalho, os ecos de muitas perguntas, os reflexos de muitos movimentos e a certeza de que, se é de Luz, deixa brilhar.
Bernardo Mosqueira
Abril, 2016

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(to my love)

The very beginning comes from language. There was always action, creation and transformation—simultaneously. Even before time, everything was already in potential with a chance of meaning. The Universe was born of the vagina of this language-woman, while she gave birth to another version of herself, delivering a new Universe that then followed the flow of that constant gestation of the Universe, giving birth to the cornucopia of cornucopias. What exists that we use to create meaning? What determines existences? Even with this distance that, secretly, wears me down with longing, is everything well on the other side, where that point shines in the South Atlantic? Does it still shine? Will it shine on?

Many summers before the time of our great-grandparents, Ogum, who would create metal tools for farming and war, stirred from sleep. It was he who helped the Sumerians create the plough that could dig lines in the earth that the Romans came to call “lira”. The word “delirium” comes from a Latinexpression referring to when the movement of the plough is dislodged from the rectilinear furrow and creates unexpected curves in the soil. Delirium is thus directly related to the diversion of seed, the flowering in difference.

One afternoon last year, in a traffic jam on the Lagoa-Barra highway, Alexandre Mazza had a vision of a beautiful winged entity, part bird, part angel, part woman, but which could definitely not be defined by comparison. There are many kinds of desert (rocky, sandy, snowy, populated, extraterrestrial, emotional, metaphorical, incarnate, Samarco), but the apparition on the highway chose to reveal itself floating over the ground of a flat mirrored desert. It soon disappeared but not before showing the artist the way to find it again. A few months later, a team of seven would begin its 20-day excursion in the deserts of Latin America, with the mission of investigating the relation between life and mystery, desire and movement.

It was not easy to be in the desert. For a while, we believed that where there was no water, there could be no light, lucidity, fertility or vanity. It is true that we spent days without even seeing insects. At one point, we were in the driest place on the planet; at another, we were 5,000 meters above sea level, struggling for air. On the way, we passed through enchanted valleys, crossing Shangri-la, El Dorado, Neverland; we went from 45ºC to the middle of a snowstorm in one hour; we were between salt lake and the mirror of Oxum, which is the Moon; we fled from the landless workers who surrounded the citadel and threw fireworks at us; we drove for hours in the darkness of a sandstorm; we visited Loucura Peak, we climbed the mast of danger, we bumped into Xangô at the foot of the powerful Licancabur volcano; we thought that we might not return to Rio, go back to normal. But, together, we understood that, in the desert, we are the oasis: we are 70% water, and carry within all the power it contains.

On afternoon, in the shadow of a dune, we noticed that one of our team, Lack, was running a fever. Lack’s body temperature was rising so fast that she was burning up before our very eyes. From her ashes, three shining stone eggs appeared. To keep them awake, we rang bells and licked a high-tech hologram that reproduced the powers of the Universe. When we fell asleep, time did its work and the Dawn cracked the eggs and the entity we were seeking hatched out.
 
We soon noticed that the entity defined its movements by approaching and recoiling form signs that corresponded respectively to its desires and fears. We understood that, although visible and similar to us in this respect, it inhabited another Universe. We follow it and the footprints we make in sandy part of the desert will only be erased by the next shower of rain. It seems that it has been 8 years since it last rained. In a rocky fragile part of the desert, it takes several thousands of years to develop its fine solid surfaces over the sand. If even a careful step is capable of destroying thousands of years of work of the Universe, we must reflect on the reason for each action.

When transgression is a choice and not a form of servitude, it is more in charge of its own questions, better understands the risk it poses to the surrounding environment. In the desert, we pursue our questions (And life? What is life? Tell me, ‘bro’.), we leave answers blowing in the wind, we are mirages to the unbelieving mountains; we lovingly offer a branch of perfumed angels at the Calle Pachamama crossroads. It is good to remember that Faith is defined as the courage to believe in a mystery and mystery is the substance of the unexplained. Life exists so long as there is attraction to mystery, whose final destination is similar to that of desire: inevitable death ahead, an inexhaustible source behind.

One day, we woke up and the entity had gone. Lack was back with us, following us as part of the group. When we finally got back to Rio de Janeiro, Alexandre Mazza brought with him a series of works, visual translations of enigmatic desert words and of the entity that we tracked for several weeks. These are pieces that explore, relate to and revere ideas of revelation, cycles, time, transformation, desire, life and mystery. In each work, there are echoes of many questions, reflections of many movements and the certainty that, if it is of the Light, it will shine.
Bernardo Mosqueira
April, 2016

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