sábado, 16 de abril de 2016

Aquilo que nos une Caixa Cultural R.J.Texto de Isabel Sanson Portella



A exposição Aquilo que nos une apresenta a obra de 26 artistas que falam de desejo, de entendimento, de perdas e danos, e de dor. A dor do corte, da perfuração, por agulhas, giletes e anzóis. Ao todo serão apresentadas 40 obras em que cada um dos renomados artistas expõe as cicatrizes daquilo que foi costurado no seu íntimo; a diversidade dos fios utilizados mostra as muitas possibilidades de nomear feridas, solidão e luto. Rica em referências e ineditismo conceitual e formal, a exposição reflete sobre uma linha de pesquisa estética contemporânea - a junção da arte e da manufatura.




AQUILO QUE NOS UNE
Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel. (...)

porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina, (...)

que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.

João Cabral de Melo Neto, Uma faca só lâmina (1955)

Abra bem os olhos para reconstruir uma imagem só possível a partir de um olhar que nos olha. Se tudo lhe parecer estranhamente familiar, desconfie. Se a delicadeza, o singelo e os jogos de palavras esconderem a verdade de cada obra, questione-se. Procure o que está embutido, abrindo possibilidades para maiores diálogos.
Aquilo que nos une expõe obras de autores que falam de desejo, de entendimento, de perdas e danos, e de dor. A dor do corte, da perfuração, por agulhas, giletes e anzóis. De tecido e de carne furados. Cada artista expõe cicatrizes daquilo que foi costurado e a diversidade dos fios mostra as muitas possibilidades de nomear a dor, a solidão e as feridas. 
As linhas da mão espalmada cindidas pela linha imaginária do Equador, dividindo, separando em dois o que sempre será um. A forma cartográfica impressa em linho, a fotografia de família, os lenços, os bordados em entretela, tecido e seda e até na dureza da pedra falam desse alinhavar de emoções que se quer costurar na alma para que não se percam. São como páginas de um diário íntimo, onde os autores inscrevem suas experiências. Às vezes é a própria pele que serve de suporte e, como no tecido, a agulha vai puxando a linha, penetrando a carne, indo mais fundo a cada ponto. Às vezes é uma veste que corta e faz sangrar a pele.
A dor é uma exigência do corpo para tomarmos consciência. Ela nos obriga a encarar a realidade, a redescobri-la na sua crueza e assim criar. É diante da dor sem remédio, do problema sem solução, que surge a necessidade de algo mais elevado, gerador da arte.
Segundo Platão, o conhecimento nasce do espanto. A arte também. E funciona como expressão da urgência de fugir das contingências da vida.
Prazer e dor, eis o binômio que permite ao homem, seduzido pela ilusão da vida individual, ver apenas as coisas que o tocam pessoalmente. Aquele que percebe a essência de tudo encara com tranquilidade o desejo e o querer. A vida e a cultura são linhas tecidas que se entrecruzam. A dor da perda de um filho, de um irmão, as cicatrizes no corpo e na alma pedem um olhar mais agudo, que penetre as diversas camadas indo fundo até encontrar aquele lugar onde se alcança a compreensão. E então o sublime emerge questionando, abrindo a possibilidade de pensar nossas feridas e as imagens que temos de nós mesmos. O que causa a dor? O que é daninho? Homens e plantas que nascem onde indesejados são invasores daninhos, causam danos e devem ser arrancados pela raiz para que cessem de espalhar suas sementes. Estão fora do lugar. A questão do deslocamento, a eterna procura de um local/casa para depositar as ansiedades é também objeto sedutor de investigações.  A relação arte/vida é uma opção, mas esse exercício é, certamente, uma via crucis, dolorosa. Atacar as causas é preciso, assim como tecer um discurso crítico.
Aquilo que nos une é também a linguagem, força unificadora e identidade cultural de um povo. Por vezes dói tanto que se faz necessário reescrever à exaustão, até que a vista tudo embaralhe, até que o texto original seja apenas uma mancha. Outras vezes é apenas uma palavra desfiada aos poucos até que reste apenas um fio. E, nas palavras do artista, “a linguagem e a fome: é o que nos une”.
É hora de levantar bandeiras, de inscrever em seus panos toda a experiência estética, pois esta será sempre uma experiência fictícia. Existe um fio atávico que realinha e fixa os tormentos internos promovendo a calmaria e produzindo novos significantes. É hora de levantar a bandeira branca, pedindo a paz.

                                                                                                       Isabel Sanson Portella

                                                                                 Curadora

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