terça-feira, 26 de abril de 2016

Apontamentos sobre a Poética Visual de André Bauduin - Texto: Marcia Zoé Ramos








APONTAMENTOS SOBRE A POÉTICA VISUAL DE ANDRÉ BAUDUIN
TEXTO MÁRCIA ZOÉ RAMOS:
“Em seus ensaios sobre fotografia, Suzan Sontag escreve que fotografar é atribuir importância. Ela diz que “não há tema algum que não se possa tornar belo; ademais, não há como anular a tendência inerente a toda fotografia de valorizar o seu tema”. Pessoas comuns, objetos, lugares, a natureza, coisas triviais, tudo na fotografia ganha outra dimensão. Mas sabemos que nem todos nascem aptos para esse exercício do olhar.
Observar a vida, olhar ao redor com cuidado, focalizar o detalhe, flagrar o instante decisivo – como se fosse pela primeira vez - é tarefa para escolhidos. Dono de um olhar singular para com os seres e as coisas, André Bauduin vem traçando seu percurso no universo das imagens. Seu olhar vislumbra as coisas para além delas mesmas. Os silêncios, as ausências, as cores invisíveis, as formas, os volumes, até mesmo a direção do vento e sua sombra luminosa: tudo isso o olhar de André Bauduin busca capturar.
Sabemos que fotografia é luz, mas é preciso saber ver através dessa luz algo mais que o óbvio, o certo, o belo. André cria belezas a partir desse pensamento. Acostumado a manusear, analisar e redimensionar imagens em virtude de seu ofício de longa data no campo da publicidade, André Bauduin transita com verdadeira intimidade pelo mundo da fotografia, construindo significados, fazendo escolhas, selecionando temas, contando histórias e desafiando o observador a uma leitura atenta. Cuidadoso, ao selecionar imagens, busca nos encantar mediante uma primorosa miríade de detalhes, ora abstratos, ora concretos, ora luminosos, ora sombrios. Detalhes que passam desapercebidos pelo nosso olhar e que ganham força e graça nos recortes escolhidos pelo olhar de André Bauduin. Cada pedra no caminho faz diferença, cada círculo ou reta inscritos no asfalto desgastado, nas paredes sujas, sobre a areia da praia, entre os pisos dos corredores, nas floradas pelo chão batido - tudo é signo. Tudo faz sentido, tudo ressoa em sintonias, tudo compõe e o resultado estético é sempre surpreendente.
A fotografia de André Bauduin não pretende formular teses ou ensaios filosóficos, ela se apresenta sem pretensões e ao mesmo tempo renovando potencialmente os significados sobre os lugares da cidade. Ao compor a imagem final, em muitos casos, André parece nos propor um jogo em forma de composição que, na repetição do quadro, nos remete a um infinito possível. Repete-se para não ter fim, é ela, a repetição, que faz crescer em potência a imagem apresentada que acaba por nos impactar no nível da consciência. Com essas imagens exercitamos o pensar e o pensar é que nos permite compor a vida nossa de cada dia. Pois a vida é assim, composições se fazem e se desfazem e se refazem. As imagens fotográficas de André contêm essa perspectiva espiritual ratificando a representação. Não recebemos a fotografia nela mesma, mas em suas variadas composições, como um devir a partir das relações que se estabelecem quando nosso olhar faz contato com as composições finais de André Bauduin.
Enfim, o diálogo que ele estabelece entre seu olho e o objeto fotografado nos convida à fruição da imagem com a qual estabelecemos uma relação intensa, pessoal, única e surpreendente. Surpreendente porque são pequenos sinais a nos indicar outras paradas, outros rumos, outros conflito - ora íntimos, ora conceituais, ora figurativos, evidentes. Para isso, basta olhar e ver. A poética de André Bauduin chega para nos ensinar a redescobrir o olhar para as coisas, os seres, a natureza, a vida na cidade, certificando-nos, mediante seus elementos, de uma presença real e/ou imaginária. Parece-nos que, para André Bauduin, a fotografia só ganha sentido ao se esgotarem todas as possibilidades das imagens ao nos propor outra realidade, outro sentido, outro reflexo. Eis aí a sua arte.”

Marcia Zoé Ramos, artista plástica, professora de arte e história , produtora e gestora de projetos de arte e cultura.






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