quarta-feira, 23 de março de 2016

É Como o Vento - Sergio Lucena na Galeria Mezanino. Apresentação Fábio Magalhães e Texto de Julia Lima.




Caros amigos e amigas, 
Segue o o convite da minha mostra individual "é como o vento” na galeria MEZANINO. Com apresentação do Fábio Magalhães, curadoria e texto da Julia Lima.
Com um abraço 
Sergio Lucena

Esta série me fala que a pintura é como o vento vindo de longe, mais longe que as estrelas derradeiras, mas de perto também, de muito perto, uma pintura que sopra na pele, que me veste e me dá um corpo no mundo. Corpo que é o próprio mundo.
Sergio Lucena




Fabio Magalhães
Durante anos a linguagem de Sergio Lucena esteve voltada para a magia, para o encantamento, mas depois de abandonar os seres fantásticos que povoaram seu imaginário,  voltou sua expressão plástica para as poéticas da luz e da cor.  O artista diz que sua pintura atual, de síntese cromática, traz reminiscências da infância na Paraíba, dos vastos horizontes de sua terra natal.
Nas primeiras pinturas, que deram origem à presente fase,  já  percebemos a riqueza das infindáveis variações tonais que compõem zonas diáfanas de cor. Não há contornos nem linhas nessas pinturas. A cor, ou melhor, os tons que se agrupam e que afastam,  constroem o espaço. 
A luz se faz presente na alternância das tonalidades nas transparências  e provoca renovada dinâmica ao espaço pictórico. Isto é, as massas de maior ou menor intensidade tonal se articulam entre si formando conjuntos que se renovam. Assim, podemos reagrupar visualmente esses conjuntos de cor e de luz que, no nosso imaginário, podem sugerir paisagens.
Depois vieram as telas nas quais há duas áreas horizontais, decorrentes de alternância de intensidade cromática. Contudo o espaço não se fragmenta, pelo contrário,  se unifica  no diálogo   entre as diferentes tonalidades.
Nos últimos anos, Sergio Lucena deu um salto de grande síntese  na sua expressão plástica e produziu telas de pura vibração cromática. A cor dominante é fortemente tensionada pela luz na construção do espaço. Em algumas de suas pinturas atuais notamos a presença de uma luminosidade de forma circular que parece emergir do fundo para a superfície de modo expansivo, como uma onda  que reverbera no espaço.
As pinturas de Sergio Lucena exigem conhecimento do fazer artístico, maestria e trabalho intenso, pois a superfície vibrante de cor é resultado de inúmeras e sucessivas camadas de tinta à óleo sobrepostas, com suas variações tonais. Levíssimas camadas!
Através de técnica apurada o artista obtém uma poética do inefável, plena de energia, de vitalidade, pulsante como a vida, no seu embate amoroso com a cor, a luz e espaço. 

É como o vento…
Julia Lima

Um punhado quente de vento, passante entre duas palmas de palmeira... Lembro, deslembro.
João Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas 
Explicar racionalmente o que apenas se apresenta como sensação nos leva a enfrentar a sempre subjacente – ainda que frequentemente esquecida – condição da razão humana, pobre e falha em sua tentativa de compreensão das coisas. Às vezes, a intuição, tantas vezes confundida com misticismo ou charlatanismo, nos permite contemplar o que escapa à lógica racional, a inteireza das coisas, como se conseguíssemos por um instante tirar a cabeça fora d’água e enxergar claramente o que antes ficava escuro e embaçado.
Não raro, Sergio Lucena conta sua experiência quando criança no sertão da Paraíba, da memória afetiva de subir na pedra mais alta da fazenda e olhar, descobrir a circunferência da terra, sentir o sol no rosto. Emudecemo-nos diante daquilo que é difícil de descrever, que escapa às precisas definições do dicionário, porque o mundo é maior do que conseguimos dizer. Inventamos palavras, buscamos outras línguas; no caso de Lucena, ele pinta para tentar resgatar aquela vivência, aquela intensidade estúpida e ao mesmo tempo delicada e sutil que afetou o menino e move o artista.
Tudo começou com a obra que ele viria a chamar de Éden – sua intuição lhe falava de uma nova pintura, quase imaterial, no limite da realidade, transcendendo a tela e a tinta, e resgatando um olhar, um jeito de ver as coisas. Ela não se manifestava como imagem, nem como ideia, mas com uma qualidade concreta de luz e cor e, ao mesmo tempo, como uma impalpável sensação física, sinestésica. Quase como quem sente o vento. O desafio, no entanto, era compartilhar esse estado de assombro e encantamento.
Seu corpo, ao encarar um plano de mais de dois metros, teve que descobrir um novo modo de trabalhar – não tinha acesso à altura; a envergadura do braço já não alcançava os limites da superfície; não podia mais contar com a pincelada inteira, do topo ao fim da tela, ou de um lado a outro, em sua totalidade. Foi uma surpresa, que desestabilizou o terreno onde já há alguns anos o artista prolificamente construía com solidez. Em grandes dimensões, o mais natural e intuitivo seria um gesto total, amplo, mas foi preciso lançar mão de gestos mais contidos, e iniciar o quadro com uma sugestão figurativa, um lugar possível como pretexto para desencadear a pintura.
Durante um ano, Lucena enfrentou a vastidão da maior obra que já havia concebido. A gênese como paisagem evocava aquela experiência seminal no sertão, composta de manchas que se valiam de todas as direções, nas cores mais inusitadas – laranja, marrom, vermelho e preto, com toques de amarelo, rosa e branco. No entanto, a imagem montanhosa, circular, logo já não era mais suficiente – ia e vinha, abandonava a empreitada e dedicava-se a telas menores que contaminavam-se pelo desafio. O artista via-se frustrado pelo que realizava e, assim, insistentemente voltava a investir contra a grande pintura. Percebeu, então, que pouco adiantava prender-se à própria intencionalidade, e embrenhou-se no que surgia inconvenientemente. Afinal, é o inesperado que dá graça às coisas.
O que era horizonte tornou-se árvore, negra embaixo, vermelha no meio, com uma copa dourada (daí a referência do título ao jardim bíblico, que precede a criação). E sobre essa árvore foram assentadas milhares de camadas de tinta, não as esfregadas totais, mas uma espécie de esfuminho que criou películas quase transparentes de cor. O resultado final foi impressionante. Não havia mais direção nas pinceladas e o que se alcançou foi um estado absoluto de vibração tonal e luminosa que não tem começo, meio, nem fim e que não tem vetor, padrão ou forma.
O ponto de inflexão ali condensado suscitou uma série de novos trabalhos, menores, mas impactados tanto pelo vigor e impulsão sobrevindos do término daquela pintura, quanto pelo conjunto concretizado anteriormente. O artista retomou o tema da paisagem figurativa, uma espécie de contraponto de equilíbrio à epítome de cor e luminosidade que havia alcançado. A figuração ressurgiu como uma maneira de aterramento, e também retorno a outro momento decisivo em seu percurso – o abandono da figura em favor da abstração em meados de 2005. Dali até 2015, cada forma existia quase que sozinha: as linhas do horizonte vinham da simplificação de paisagens claras e solares, que por sua vez foram foi sucedidas por marinhas soturnas. Em seguida, criou intensas e vibrantes pinturas circulares, na série Ænigma, e depois esferas negras e brancas no conjunto chamado Suíte Nibrio. A sucessão desses elementos – paisagens, linhas e círculos – pode ser encarada menos sob uma ótica narrativa e mais como diferentes tentativas de se aproximar do tema essencial de sua produção – a criação de atmosferas.
Assim, depois de Éden, apresenta-se a retomada da amplitude do gesto total, o tamanho do corpo e a mecânica do braço com diferentes pincéis, trinchas, e também diferentes cores. Todas essas novas obras, de alguma maneira, começam dentro da paisagem. No entanto, há algumas paisagens literais em telas panorâmicas, algo inédito, uma vez que Lucena antes fazia uso de formatos quadrados ou verticais. Depois do desenho inicial, acumulam-se grossas massas de tinta, com pinceladas verticais, que recobrem toda a tela, e horizontais, que espalham e misturam a matéria, intercaladas com a lixa que desbasta a superfície e cria formas e campos mais ou menos luminosos. O processo longo e repetitivo se estende até irromper uma textura aveludada. É curioso notar que muitos destes trabalhos versem sobre paletas mais soturnas, escuras, ainda que cores vibrantes quase imperceptíveis brotem do fundo da argamassa pictórica, que pode continuar figurativa, que às vezes é lapidada a ponto de se abstrair em uma linha, ou urdida até se delinear em uma circunferência, alternando a presença da figuração, simples sugestão ou completa abstração. O artista não se contenta mais em esgotar determinada forma ou composição, e vem ampliando sua linguagem cada vez mais, agora fazendo tudo junto ao mesmo tempo.
Dificilmente seu trabalho se traduz em definições objetivas. Mas, especialmente quando se trata de Éden, ele quase logrou enganar os sentidos e materializar o estado de percepção de sua infância. Sua produção não consegue ser vento, mas se comporta como vento – quem nunca entregou-se a uma sensação tão potente? Para Sergio Lucena, o que se manifesta na pintura é a memória do corpo, singular, até inatingível. Mas não é inatingível na medida da vivência afetiva de cada um que se depara com a tela. É singular e universal.


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Maurizio Cattelan

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