sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Conversando sobre Arte entrevista com o artista Jeff Chies



Quem é Jeff Chies?
Sou de 1964. Sou casado e tenho dois filhos. Meus laços familiares são muito bem amarrados, tenho um amor muito grande pela família.
Ser do interior é uma experiência definidora quando somos jovens, um universo menor, menos povoado, acho que libera a alma para vôos solitários mas, também cria uma vontade de sair, de conhecer o mundo. E quando vamos embora  nunca mais somos os mesmos, perdemos o sentido de pertencer a algum lugar, quer dizer, pensamos que não temos mais vínculos, porém,  estamos enganados, somos sempre parte do nosso passado

Como a arte entrou em sua vida? Qual foi sua formação artística? Além de artista você e exerce outras atividades profissionais, como elas se encaixam? 
Sempre fui sugado pelas imagens. Sempre pensei em termos de linguagem.
Fiz fotografia muito cedo, aos dezoito anos já tinha uma câmera profissional, que meu pai comprou usada de um estúdio fotográfico que o dono era amigo dele.
Depois me apaixonei pelo cinema, estudei comunicação social na PUC de Porto Alegre e passei a dirigir comerciais, curtas metragens e documentários.

Link do curta metragem 'A árvore':

Sempre tive uma relação muito próxima com a pintura, até que num determinado momento comecei a pintar.
Estudei pintura com o Paulo Pasta, no Instituto Tomie Ohtake durante 4 anos, e a clareza com que o Paulo fala da pintura como linguagem, as potências ilimitadas da pintura como metáfora, sua força poética, todo esse discurso do Paulo foi fundamental para o meu trabalho.
Também estudei arte contemporânea com a Juliana Monachesi, com o Mario Gioia, e a Fernanda Chieco.
Minha relação com as teorias e pontos de vista da Juliana Monachesi são bastante proveitosas. Estudei história da arte com o Rodrigo Naves.

Que artistas influenciam em sua obra? Como você descreve seu trabalho?


Dois textos que falam do meu trabalho e influências...

                               Antes da superfície das coisas

  A pesquisa que venho desenvolvendo no meu trabalho de pintura aponta para o paradigma abstrato, para as implicações e desdobramentos do não reconhecível.
  A construção pictórica abrange formas e gestos que referem-se ao repertório abstrato, faço uso da história da arte tornada arquivo. Este amálgama de formas e conteúdos abstratos é a gênese da minha poética. O acúmulo de linguagens, dos procedimentos pictóricos, uma soma de maneiras e idéias de como construir a pintura é a fonte da minha pesquisa.
  Quero que pareça que as forças internas ainda estão em jogo, que poderia continuar. Penso nas relações cromáticas, espero que as coisas, os volumes e as profundidades saiam delas, das suas relações entre si. Quero trabalhar o não reconhecível, um gesto ainda não decodificado, sem nomenclatura. Permanecer antes da superfície das coisas, antes da narrativa reconhecível surgir, no lugar anterior ao surgimento da figura, é aí que fica a minha pintura. Minha construção surge desta forma. Fico satisfeito quando a pincelada flui como o Jorge Guinle, o Georg Bazelitz, o  Phillip Guston, a Cecily Brown, a Joan Mitchel, o Franz Kline. Atualmente gosto da fluência do Bruno Dunley, da Janaína Tschape, do Felipe Góes. Raspo inúmeras vezes e sempre me lembro como o Iberê Camargo estabelece um campo de força entre a matéria e sua falta, outras vezes penso que raspar e empurrar uma grande espátula com o próprio corpo como faz o  Gerhard Richter é também um modo de negar o gesto puro. Percebo que `as vezes a confusão é parte construtiva da pintura como muitos Baselitz, Guinle, Jasper Johns, Richter, Schnabel. A precisão do Amilcar de Castro, da Célia Euvaldo, da Jacqueline Humphries, do Sean Scully que estrutura o espaço. O uso magistral dos escorridos do Per Kikerbi, o gesto preto e branco do Cristopher Wool. A escritura do Cy Twombly. O espaçamento das coisas do Paulo Monteiro. Posso dizer que muitos destes procedimentos, muitas destas soluções, vão aparecendo no meu trabalho ao mesmo tempo que são identificadas suas origens ou similaridades com outros artistas, é que ao lidar com minhas escolhas vou fazendo parte do corpo de uma determinada linguagem.
  Quando penso nos artistas que fazem parte deste contexto gestual abstrato, começando pelos expressionistas abstratos de Nova York, o tachismo francês, o abstracionismo lírico, o informal, passando pelos neo-expressionismos da década de 80 –principalmente o alemão apesar de sua figuração mais evidente– continuando com a Casa 7, o  Jorge Guinle, e retornando muitas vezes ao Iberê Camargo, penso que além das coisas mais formais como o gesto, a pincelada, ou a maneira de construir o paradigma abstrato, o que me faz pensar neles, o que eu vejo em comum neles e que também me diz respeito é a construção do campo pictórico através da ação. A questão entre o físico e o mental, como transitar nestes dois registros, é essencial na minha pintura.


                    Eixo cromático
 Ao abdicar da figura, do que é reconhecível, a matéria prima da minha pintura passa a ser a cor.
As relações que surgem do convívio entre as cores, seus matizes e tons é o eixo que estrutura meu trabalho. O espaço pictórico é construído pelas diferenças e aproximações cromáticas. Esse jogo que me permite expressar ora um sentido contemplativo, ora um sentido envolvente e ativo, é feito das relações das cores entre si. Tudo é trabalhado para que surjam profundidades, contrastes, diferenças mínimas entre os matizes e aproximações inesperadas, tudo para que isso faça o olhar percorrer a pintura com curiosidade, desejo e surpresa. As camadas passam a ser importantes na medida que não é possível construir esta trama de imediato, é necessário pintar, esperar, decantar no olhar, e só depois continuar, para que a vivência das cores seja a gênese da própria pintura.
Pinto tanto à óleo como acrílica.

É possível viver de arte com a crise atual?
É possível mas, bem complicado

O que você pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?
Acho que todas as tentativas de construir um público para a arte, e toda intenção de inventariar o processo criativo são válidas.
Talvez se todos pudessem ter curadorias independentes focadas em descobrir manifestações autênticas e originais sem pensar no discurso vigente, e por que não dizer, acadêmico do universo das artes, seria muito interessante..

O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
Ter seu trabalho reconhecido. O que nem sempre tem uma lógica clara e simples.

O Material para pintura nacional já é de qualidade aceitável?
Sim, uso normalmente. Uso materiais importados e nacionais ao mesmo tempo.

Quais são seus planos para o futuro?
Tenho duas exposições agendas para este ano e planos para fazer mais uma.
Aproveito para colocar meu currículo de exposições:


2016- Maio; Ocupações dos espaços expositivos •Usina do Gasômetro, Porto Alegre
          curadoria: Juliana Monachesi
2016- Junho; Casa de Cultura de Caxias do Sul •Galeria Gerd Bornheim
           curadoria: Silvana Boone
2015- ‘Preview/Fugaz e Imenso’ •Galeria Transitória/ Caxias do Sul
          curadoria: Marco Aurélio Spading Verdi
2015- ‘A abstração como imagem’ •Galeria Tato/ SP
          curadoria: Juliana Monachesi
2014-‘Terça ou Quarta + Acervo Municipal’ •Casa da Cultura L A Martinez    
           Corrêa/ Araraquara
           curadoria: Thais Rivitti
2013- 'Quatro Margens' •Centro Cultural Patrícia Galvão/ Santos
            curadoria: Felipe Góes
2012- 'O Princípio da volatilidade' / grupo transitório •Galeria Smith/ SP
            curadoria: Juliana Monachesi
2012- 'Lugares' / coletivo terça ou quarta •Galeria Smith/ SP
            curadoria: Regina Teixeira de Barros e Marcia Cymbalista
2012- '#1-Pigmento' •Casa Contemporânea/ SP
            curadoria: Marcelo Sales
2012- 'Lugares' / coletivo terça ou quarta •Museu de Arte Contemporânea  
            de Campinas.
            curadoria: Regina Teixeira de Barros e Marcia Cymbalista
2011- 'Pigmento' •Espaço cultural R. Steiner/ SP
          curadoria: Marcelo Sales
2011- ‘coletivo terça ou quarta’ •Pinacoteca da Universidade Feevale/
            Novo Hamburgo
            curadoria: Felipe Góes, Fernanda Izar e Jeff Chies
2011- Edital de ocupação •MAB - Fundação Cultural de Blumenau
            curadoria: Felipe Góes, Fernanda Izar e Jeff Chies
2010- 'A Grande Alegria'  •Casa Contemporânea/ SP
          curadoria: Marcelo Sales
2010- 'Desejo de debate:pintura?' •A Pipa/ SP
          curadoria: Fernanda Izar e Luciana Felipe
2010- 'I am who I am' •I-C contemporary/ Berlim
          curadoria: Charlotte Stein Infantellina

Algo para o Rio de Janeiro?
Espero que sim, estou desenvolvendo um projeto que inclui o Rio.


Dois Mundos. Óleo sobre tela. 170x190 cm.



Aqui. Óleo sobre tela. 190x170 cm.


Nem com Todas as Palavras Seria Possível. Óleo sobre tela. 190x170 cm.


Algo Precisava Ser Dito, O Lago Acima do Mar. 190x170 cm.


Sem título. Óleo sobre tela. 190x170 cm.


Nada Será como Antes. Óleo sobre tela. 150x140 cm.

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Maurizio Cattelan

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