terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Conversando sobre Arte entrevista com a artista Ana Carolina von Hertwig







Ana Carolina von Hertwig, 32 anos, natural de Florianópolis-SC é artista de novas mídias, fotógrafa e cineasta. Desenvolve narrativas híbridas e instalações trans/cross-media com interatividade. Emprega suportes analógicos e digitais, utiliza fotografia, vídeo, áudio e texto para criar projetos transmidiáticos disruptivos, a-gêneros, não-lineares, envolvendo arte, tecnologia e storytelling. 
Recebeu o segundo lugar no Prêmio Aliança Francesa de Arte Contemporânea (outubro/2015) e foi convidada pela Universidade do Quebec, laboratório Insertio e galeria Le Lobe para uma residência artística de 4 meses em Quebec (Canadá), iniciada em dezembro de 2015.
Realizou instalações interativas em parceria com Tribeca Film Institute (New York), CERN Media Lab (Genebra), British Council (UK). 
Teve trabalhos exibidos na Lift Conference 2015 (Genebra), TFF Interactive Day 2014 (NYC), Cineblobe Festival 2014 (Genebra). Recentemente participou de conferências em interactive storytelling, performance e arte eletrônica em Singapura, Nova Iorque, Vancouver e ministrou workshop em Austin (EUA) em novembro de 2015.

Website: anacarolinavonhertwig.com

Quem é Ana Carolina von Hertwig ? 
 Nascida em Florianópolis-SC, no dia 10 de julho de 1983. Perto da hora do almoço, chovia muito. É Dia da Pizza e também aniversário de nascimento do inventor Nikola Tesla.

Minha família mudou-se para Londrina quando eu tinha dois anos e lá morei durante 20 anos. Cursei Jornalismo entre 2000 e 2004 e trabalhei em rádio, TV, jornal impresso até chegar em assessoria de imprensa em moda. Contudo, a minha maneira de escrever me levou a um distanciamento natural da área.

Houve um esvaziamento completo do meu interesse pelos correntes valores de notícia. Sempre me interessei pelos relatos acerca de coisas desimportantes e apreciava as ações corriqueiras e cotidianas do ambiente urbano, aquilo que se observa quando paramos na calçada para espiar o movimento. (Já eram as minhas influências vindas da poesia de Manoel de Barros, bem como das crônicas e do teatro de Nelson Rodrigues.) Havia o new journalism, uma vertente mais literária, e até mesmo a crônica, para o jornalismo diário. Mas, eu ainda desejava um “algo mais” para essas histórias.

Não pensei duas vezes em buscar o meio mais adequado de poder observar e relatar histórias, com mais tempo e apreciação. Sem a busca da “imparcialidade” ou de uma “verdade”, com mais vontades de desvendar personagens que vão além do “quem, o que, quando, como, onde e por que?”.

O cinema, então, acabou sendo uma saída para unir o meu interesse em contar histórias de maneira mais rica em camadas narrativas, com um tempo diferente do praticado no jornalismo. Possibilitou um momento de imersão em investigações imagéticas, sonoras e de montagem.

Comecei a graduação de Cinema na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2007, em Florianópolis (SC), e conclui somente em 2013. Entre 2009 e 2011 participei de um intercâmbio acadêmico na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ), enquanto trabalhava com edição em uma grande emissora de televisão no Rio de Janeiro (RJ). Entre 2006 e 2008, cursei uma especialização em Comunicação e Moda no Senai, em Blumenau (SC).

Entre outras coisas, também já trabalhei como técnica judiciária no Tribunal de Justiça e meu primeiro emprego com carteira assinada foi como operadora de telemarketing em uma empresa de telefonia celular.

De alguma maneira tudo isso em um caldeirão faz sentido na relação atual que estabeleço com o meu fazer artístico e as minhas vontades de investigação.

Sou mãe da Julia, de 10 anos, a pessoa mais amorosa e iluminada, a minha melhor companheira, amiga, minha fonte de inspiração maior para a vida e meu ponto de equilíbrio.




Como a arte entrou em sua vida?

Ainda bem criança conheci bastante a música brasileira por influência da minha mãe. E sempre tive um desejo por instrumentos, mas não a disciplina - transitei do violino ao pandeiro, sem muita consistência. Meu pai me influenciou com o espírito de criar coisas com as mãos e ferramentas, e iniciou o meu interesse em tecnologia (eu tinha 10 anos quando ele trouxe um computador para casa dentro de caixas e me disse: pode montar).

Na adolescência, muita MTV, revista de música, shows, tinturas no cabelo e tênis rasgados. E muita, muita leitura, dos clássicos da literatura aos zines, passando pela literatura de cordel, biografias, filosofia.

Na escola eu não era muito boa nas disciplinas que necessitavam muita coordenação motora, tal arte e educação física, ou mesmo geografia e qualquer outra coisa que envolvesse algum tipo de desenho sobre algo preciso.

Já química, física e literatura me abriam universos amplos, que conectaram exatamente com o que eu tinha vontade de fazer – vontade que persiste até hoje, com mais consistência até – de unir ciência, tecnologia e arte para construir outros universos possíveis.

Hoje, eu tenho uma certa tendência a incorporar a curiosidade e a técnica com investigações acerca de contextos e questionamentos filosóficos que me interessam.

Com a minha falta de habilidade para as artes plásticas, acabei desenvolvendo outros sentidos, de olhar e capturar cenas que rendem histórias na minha cabeça. Quando eu estou olhando através da janela do apartamento, caminhando pela rua, ou em qualquer lugar, desenvolvi o hábito de olhar para as pessoas, para a paisagem e criar uma história (ou várias) a partir daquela cena, procuro visualizar interações que não existem ali (ou não são óbvias àquela situação), mas que poderiam existir em um universo paralelo, em outro espaço-tempo. Na minha cabeça tudo isso acontece e, para mim, tudo passa a ser real, os tempos se misturam. É aquilo que vivo combinado com o que imagino – um quase-delírio, porém, muito palpável.

Assim, em um certo natal, aos 10 anos, eu comprei (com um dinheiro economizado do lanche da escola ao longo do ano) um kit com uma câmera Kodak Star 275 e dois negativos coloridos.

Foi quando eu comecei a inventar essas coisas na minha cabeça – a criar “sínteses imagéticas” daquilo que eu vivia. Não era “arte”, todas essas cenas estavam lá, com esses personagens e coisas, com cores, com movimentos, com cheiros... tudo muito sinestésico. Quando você vive uma experiência, ela te afeta. Quando te afeta, você cria relações e você interpreta isso, toda essa imaginação era (e ainda é) a minha maneira de lidar com o ambiente ao redor, são experiências que eu vivo. Acho que a arte entrou assim, por meio da vida, do desejo de experienciar situações de maneira não-convencional.



Qual foi sua formação artística?

A minha formação artística vem da vida, das pessoas e dos contextos que mudaram a minha vida em momentos-chave. Sair do Jornalismo, transitar por Moda, ir para o Cinema e encontrar a Arte Digital é uma síntese da minha trajetória. A formação vem daí - de tudo que eu li das teorias do jornalismo, do cinema, da moda, da história da arte, das críticas cinematográficas, dos filmes a que assisti, das músicas, da vontade de fazer coisas estranhas com eletrônica e programação.

Se fosse eleger um instrumento pelo qual a minha “produção artística” se iniciou seria a fotografia. Nos últimos semestres do curso de Cinema, fui monitora da disciplina de Fotografia e bolsista do grupo de estudos e pesquisa dedicado à fotografia. As atividades da monitoria em laboratório fotográfico me permitiram exercícios intensos de experimentação em processos químicos e também me levaram a montar um laboratório em casa, iniciando assim a minha prática fotográfica autoral mais dedicada.

Experimentava câmeras com diversos métodos de captura e propósitos de imagens, utilizava diferentes tipos de negativos e revelações - sou curiosa sobre ferramentas e possíveis cruzamentos improváveis. De alguma maneira já havia o desejo de incorporar o digital nesse processo, o interesse por diferentes métodos de scanneamento, menos puristas e mais investigativos.

No entanto, apesar dessa busca, tudo andava muito desordenado e as minhas questões iam além da fotografia e do cinema. Houve, então, um momento marcante - o momento que eu reconheço ter me focado especificamente na arte. Foi quando conheci o multi-artista Scott MacLeay, no começo de 2012, em Florianópolis. Ele, canadense morando no Brasil, ministrava vários workshops e cursos pelo Brasil e oferecia residências artísticas e cursos de formação. Foi o encontro fundamental, essencial para toda a mudança na minha trajetória.  

Eu havia recém-retornado do Rio de Janeiro para concluir a graduação no Cinema, estava no último semestre do curso, em vias de realizar meu trabalho de conclusão – até então, um filme curta-metragem, que tinha a intenção de ser experimental e já havia até algumas cenas filmadas, mas ainda seguia uma proposta linear.

Comecei um curso com o Scott e durante as aulas criaram-se diálogos entre diversas vertentes – das técnicas de fotografia e laboratório às possibilidades abertas pelas novas mídias. Ele me guiou por esse trajeto focado nos processos artísticos de realização, incitou discussões fundamentalmente relevantes acerca do universo da arte e o cruzamento disso com as minhas questões e experimentações.

Assim, o meu trabalho de conclusão tomou outro rumo, desconstruindo noções tradicionais do cinema, incorporando novas tecnologias e novos formatos narrativos, com uma investigação filosófica e artística. O resultado foi o Unfinished Business, que à época era ainda a webplataforma e o livro-objeto, e continuou em evolução. Hoje compreende uma instalação artística com projeções multi-telas, uma série fotográfica, o livro-objeto e a webplataforma.  

E, a partir daí, outros projetos envolvendo interatividade e narrativas não-lineares têm sido o meu foco, juntamente com instalações, performance e fotografia não-tradicional.


Que artistas influenciam em sua obra?

Vários artistas e obras influenciaram o meu modo de observar o mundo e de me relacionar com o entorno. Não considero que exista uma influência direta no meu trabalho, mas eu proponho alguns diálogos específicos com alguns deles em certos momentos. Aqui segue uma lista resumida.

Partindo da literatura, um dos autores com quem me identifico mais é Jorge Luis Borges. Vários outros nomes como Ítalo Calvino, Gabriel García Márquez, Clarice Lispector, Hilda Hilst e Virgínia Wolf.

Na filosofia, Simone de Beauvoir. Também Walter Benjamin, principalmente a obra Passagens, além de Gilles Deleuze e Henri Bergson, em conversas que me levam a uma leitura muito própria das ideias de tempos, duração, movimento.

No cinema, tenho grande admiração pelas cineastas Agnès Varda, Chantal Akerman, Claire Denis, Miranda July, Laura Poitras, Ellen Kuras e Reed Morano. A lista também inclui de Fritz Lang a Roy Andersson, passando por Andrei Tarkovsky, Apichatpong Weerasethakul, Tsai Ming-Liang, Glauber Rocha, Mário Peixoto, Alejandro Jodorowsky, Rainer W. Fassbinder, Wim Wenders, Michel Haneke, Alain Resnais, Chris Marker, Richard Linklater, John Cassavetes, Irmãos Coen, Hayao Miyazaki, para citar alguns.

As inspirações da fotografia também são várias, vão de Claude Cahun e Cindy Sherman a Helen Levitt e Vivian Maier. De Duane Michals a Stephen Shore. Enquanto na pintura, incluem os artistas Edward Hoper e Gerhard Richter, além de nomes do movimento Fluxus – Nam June Paik, John Cage, e outros nomes contemporâneos como Joan Logue, Guerrilla Girls, Ai Weiwei, Paul Wong.

A música exerce extrema influência no meu trabalho, serve para me colocar no mood dos meus projetos, tanto quando eu estou escrevendo quanto produzindo. No geral, inclui do indie rock ao post-rock.

Entre as novas narrativas para web, as de Katerina Cizek – Highrise: Out of my window, One millionth tower e Universe within – são uma grande inspiração para pensar novas possibilidades para o documentário no contexto da internet. Além desses, outros projetos focados em interatividade são “The Johnny Cash Project”, “Hollow”, “A journal of insomnia” e “Fort McMoney”.



Como você descreve seu trabalho? 

Experimentar com aparatos e suportes diversos, envolver técnica e questões filosóficas são algumas características.
Eu investigo relacionamentos. Sejam entre pessoas, memórias, materiais, tempos, espaços, movimentos e combinações entre eles. Quero saber até onde é possível ir na sobreposição de tempos ou no cruzamento de espaços.

Entre as técnicas, vou desde múltiplas exposições em material sensível como negativo ou papel fotográfico, sobreposições em camadas de vídeo, cruzamento entre formatos, do analógico ao digital até as materialidades da imagem. Essa aproximação é a base da série “Vague Recollection”, por exemplo.

Nos estudos sobre tempo e duração, também incluo a série de projeções Relative Matter, que trabalha com a apreciação da passagem de tempo por movimentos de matérias e luzes.

Meu interesse em tentar novas maneiras de contar histórias e como empregar tecnologias de maneira não usual para investigar o ambiente urbano, os personagens e as possibilidade de interação me levaram a desenvolver uma série de Gif-narrativas, como o Sol.ip.sism e o Stranger.ism.

Tais narrativas são investigações pautadas no contexto contemporâneo, coisas que eu vivo diariamente, e as histórias que habitam a minha cabeça quando estou imersa nesses espaços.

Como contraponto aos espaços urbanos externos e às relações entre a cidade e as pessoas, investigo situações de intimidade e introspecção. No Unfinished Business, os espaços da cidade e de um quarto funcionam como um espelho um do outro. Assim como o Revisited Memories, um vídeo-dança não-linear, em que os espaços externos são empregados como ativadores de memórias - tanto as da dançarina quanto as minhas - ao revisitar e re-interpretar esses lugares, cada uma à sua maneira artística.

Já na série Intimité Furtive, constituída de autorretratos em fotos e vídeos sobre encontros e desencontros consigo mesmo, existe uma solidão essencial. É  uma poesia minimalista, uma viagem interna em que dói para entrar e dói para sair. É o enfrentamento de si. Tecnicamente, a proposta apresenta imagens impressas em canvas, no formato de kakemonos, compondo um haikai imagético, dispostas em dípticos, enquanto os vídeos são animações que empregam uma prática que se aproxima da Glitch-art, em que as imagens basicamente se animam de maneira quase autônoma, por conta de uma lentidão de processamento do computador.

Atualmente, meus trabalhos envolvem instalações interativas que empregam arduino, sensores e projeções, além de narrativas não-lineares para web, híbridas entre ficção, não-ficção e performance.

É possível viver de arte com a crise atual?

Sobreviver na crise já é uma questão em si. Sendo artista, então... Não sei o que é viver da arte no sentindo de “fazer renda” ou mesmo de sobreviver e pagar as contas. Pelo contrário, eu invisto nos meus projetos pessoais tudo o que ganho trabalhando como diretora de fotografia e montadora/editora de filme freelancer. Até hoje, todos os projetos que apresentei fora do Brasil foram bancados financeiramente por mim, com a ajuda de familiares e amigos, assim como as viagens, as taxas de inscrição em congressos e festivais - e isso tudo é altamente dispendioso para os meus parâmetros de vida. Mas, apesar disso, eu não desisti ainda e vou continuar enquanto conseguir, porque acredito na relevância do que faço. Mas não é uma situação fácil e nenhum pouco confortável financeiramente.
 Pode ser que existam pessoas que conseguem sobreviver da arte, sendo contemplados em editais públicos de financiamento, ou então os que têm meios de financiar a sua arte sem depender dela para viver. Mas não posso falar sobre isso, pois não é a minha realidade. No contexto da crise, portanto, todas as dificuldades implicadas quando se tenta realizar projetos de maneira independente agravam-se ainda mais.



Que comentários você faria sobre a arte contemporânea em Florianópolis?

Não vejo um espaço muito aberto e claro para a arte contemporânea em Florianópolis. Apesar de trabalhos pertinentes e realmente contemporâneos – como os do Scott MacLeay, que é multi-artista e produz intensamente em diversas mídias, e do fotógrafo Marco Giacomelli –  isso é pontual. Digo isso porque vejo o foco da arte em Florianópolis restrito a fomentar artistas locais cujo desenvolvimento artístico não necessariamente implica na prática, ou mesmo numa aproximação, contemporânea da arte. Assim, muita coisa é produzida, e até alguns eventos voltados para arte são realizados, contudo, não se alcança a arte contemporânea em profundidade.  

De que maneira você pensa em se projetar no cenário nacional?

Não penso em projeção do meu trabalho com um objetivo, acredito que é uma consequência. Permaneço na minha trajetória. A minha intenção é fazer circular novas ideias, novas práticas artísticas e provocar discussões. Curiosamente, meu trabalho é mais conhecido no exterior e, no Brasil, por instituições internacionais que têm representação aqui. Por exemplo, fui convidada a participar do hackathon “Story Matter” em Genebra, junto ao laboratório CERN, em parceria com o Tribeca Film Institute de NY, em 2014 - um evento que reuniu ciência, tecnologia e storytelling. O projeto que desenvolvi, Climate Anxiety, é uma instalação interativa que já foi exibida no CineGlobe Festival (Genebra, 2014), Tribeca Interactive Day (NYC, 2014) e Lift Conference (Genebra, 2015). Também em 2014 fui convidada pelo British Council a participar do hackathon “Culture Shift”, no Rio de Janeiro, voltado para integração em arte e tecnologia, propondo soluções para problemas da cidade. Ainda naquele mesmo ano apresentei a instalação Unfinished Business em Singapura e NYC (EUA) e, em 2015, Vancouver (Canadá).

No Brasil, em outubro de 2015, recebi o segundo lugar no Prêmio Aliança Francesa de Arte Contemporânea. E fui convidada para uma residência artística em Quebéc City (Canadá) que iniciou em dezembro. Além disso, meu trabalho já foi tema de aulas sobre novas narrativas para web na Universidade de South Dakota, por exemplo.

Portanto, acredito que, em algum momento, o que eu faço será reconhecido por instituições brasileiras também; mas isso não é uma preocupação que eu tenho.

O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?

Apesar de não ser representada por nenhuma galeria – portanto, não sendo um parâmetro para avaliar os quesitos necessários para isso – posso refletir sobre a questão da representação em si.

Existem perfis de galerias e perfis de artistas que podem funcionar bem alguns momentos e/ou contextos, e em outros, não. Por exemplo, acredito que é válido e positivo ser representado por uma galeria quando esta apoia e oferece suporte ao desenvolvimento do artista, bem como da circulação das obras, quando organiza exibições dos trabalhos, coisas que o artista não poderia promover de maneira independente.

Contudo, no outro extremo, existem as que estão focadas apenas nas porcentagens de venda e na auto-promoção da “marca” da galeria e nada fazem pelo crescimento e progresso do artista. E, claro, há inúmeras combinações nesse entre-meio – é preciso ponderar as variáveis.

Para um artista em começo de carreira, às vezes pode ser mais difícil ser representado por uma boa galeria, o que acaba sendo prejudicial, comprometendo o desenvolvimento artístico e a integridade do trabalho. Mas, para aquele que já possui uma trajetória, é favorável ter uma galeria que seja adequada aos seus objetivos – que o apoie na evolução da carreira, que comporte adequadamente as obras, que não meça esforços para promove-lo no mercado das artes e também seja coerente e crítica quanto ao progresso do artista.

Nesse contexto, entre ser mau representada por uma galeria ou não ter uma galeria, no presente momento em que o corpo de trabalho está em curso, constituindo-se estruturalmente e ganhando intensidade, acabo por optar em seguir de maneira independente.





De que maneira você financia a produção dos seus filmes? Há mercado para eles?

Com recursos próprios, já que nunca fui contemplada com editais de financiamento do governo, talvez por apresentar projetos com uma abordagem experimental disruptiva, diferente do que é majoritariamente selecionado por editais. Meus filmes não são focados no mercado, são projetos autorais – produções que eu realizo sozinha ou com uma equipe extremamente reduzida.

Os filmes em que trabalho como diretora de fotografia e/ou montadora acabam sendo projetos mais experimentais também, apesar de estarem inseridos no contexto corrente do cinema nacional. A questão do mercado cinematográfico no Brasil é muito delicada, com nuances que incluem gargalos de distribuição/circulação e a própria política do cinema de edital, que por si só é precária e limitada para a demanda que existe no País.

Além disso, os projetos que recebem verba governamental ou que estão inscritos em leis de incentivo, as quais permitem captar verba para financiamento junto a instituições privadas, por exemplo, acabam restritos a formatos narrativos tradicionais, ignorando quase completamente as possibilidades de cruzamento do cinema com a arte e a tecnologia.

Os editais, por sua vez, estão apenas começando a vislumbrar a produção audiovisual que vai além do cinema da grande tela – e passaram a incluir séries para televisão ou web-séries. Mas isso ainda não é grande inovação, pois, projetos híbridos, que incluem internet, interatividade e narrativas experimentais em outros níveis não são contemplados.

Há uma crítica sobre a durabilidade das obras em papel e fotografia, o que você pensa sobre o assunto?

Acredito que a preservação de obras é uma questão que sempre esteve em pauta, independentemente do suporte, seja pintura, película de filmes, fotografia... É certo que o artista deve ter conhecimento dos materiais e processos utilizados em cada etapa de produção do trabalho e saber emprega-los habilmente a fim de alcançar resultados de qualidade. Isso demonstra integridade e responsabilidade para com a obra.

Contudo, penso que os cuidados com conservação, preservação e durabilidade cabem principalmente aos museus e colecionadores e àqueles que avaliam o que vale ou não ser preservado. O artista tem outras ocupações/preocupações. A principal delas é manter-se fiel à concepção, ao propósito conceitual, à realização e aos objetivos do seu trabalho, quer eles envolvam metodologias e/ou materiais fáceis ou não de preservar.

 Quais são seus planos para o futuro? Algo para o Rio de Janeiro?

Até o final de janeiro, estou desenvolvendo em Quebéc City, junto ao centro de pesquisa e criação Insertio, o projeto artístico “Looking for a place to call home”, uma plataforma para internet com a estrutura de um web-documentário, mas com uma abordagem artística da investigação sobre a busca de um “lar”.

Em seguida, vou para Chicoutimi, também em Quebec, para uma residência artística de 3 meses em parceria com a Universidade do Quebec. Nesta, vou desenvolver uma instalação interativa que utiliza múltiplas-projeções e sensores eletrônicos, com o objetivo de mapear de maneira não-convencional espaços e edificações de Saguenay. O projeto será exibido na galeria Le Lobe.

Para quando eu retornar ao Brasil, no final de abril, vou ministrar dois workshops em Curitiba e um em São Paulo. Para o Rio não tenho nada planejado ainda, mas estou aberta às possibilidades.






Eg Anda_filme (1)


Illusory Duplication I Série: Unfinished Business

Illusory Duplication II Série: Unfinished Business.



Série  Intimité Furtive 











 Looking for mistakes _serieVagueRecollections



Motions of Time.


 Strangerism_Gif Narrative (1)
Strains_SerieVague Recollections
The visitor_serieVague Recollections
Urban Dissolution_serie Unfinished Business


 When I was young_serieUnfinished Business


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