segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Amadeo Azar-Giula Andreani-Pedro Varela: Sobre asÁguas. Curadoria Daniela Nane. Na Luciana Caravello Arte Contemporânea


FILTROS E INFILTRAÇÕES

Tudo flui como um rio. O aforisma-síntese do pensamento de Heráclito parece inundar os trabalhos desta exposição, que navega pelas águas de três artistas litorâneos: a veneziana Giulia Andreani; o argentino Amadeo Azar, nascido em Mar Del Plata; e o niteroiense Pedro Varela, hoje abrigado pela serra fluminense.
A água foi nascente para muitos diálogos e pontos de contato entre os trabalhos reunidos aqui. Água como recurso de diluição e de amortecimento de faturas, tanto nas aquarelas quanto na pintura de pincelada quase transparente, sutil e propositalmente ambígua. Água como território mole, dobra simbólica, forma que revolve suas estranhas e revisita a si mesma para ser igual e diversa a um só tempo, ornamento barroco ou lembrança de origami.
Água que é matéria-prima incontinente, sujeita às flutuações de correntezas, assim como a memória. Água capaz de gerar infiltrações e esquecimentos, velaturas, vapores, neblinas. Água que filtro, separando aquilo que importa na correnteza de imagens do mundo e da história. Água que turva, sugerindo desaparecimentos e aparições, engolindo o mundo e o regurgitando, numa constante troca de oferendas.  Água como suspensão de fronteiras, passagem entre mundos. Água que é de todas as cores, mas em nossa imaginação corre muito azul, gama de tons que é um emblema para a arte – da Turquia a Klein, da China a Cézanne ou Matisse.  Água como inconsciente, imaginação e o colo poético de uma grande mãe.
Andreani tem alicerçado seu trabalho na pesquisa de imagens históricas. O conjunto de pinturas que apresenta na mostra se refere ao período que o escritor Stefan Zweig fugiu do nazismo na Europa para se refugiar no Brasil. A paleta azulada e cinza reforça a atmosfera simbólica e psicológica que vem marcando a trajetória da artista, que mistura retratos de personagens reais a um universo ficcional. A ideia de aparição – imagem exilada de seu mundo e instável aos olhos – é muito forte.
Azar apresenta uma série de aquarelas e trabalhos tridimensionais que criam uma espécie de jogo com o gesto construtivo e as formas geométricas.  A noção de intercâmbio e de flutuação da forma está sempre presente, assim como a de um desenho virtual e elíptico, que tira partido do peso e da natureza dos materiais e cria planos a partir de dobraduras – as reais e as simbólicas.  Ele revisita Lygia Clark na grande mesa montada na exposição, dialogando ainda com a memória da arquitetura moderna, tão importante e ambivalente na América Latina.
Varela é de certa forma o encontro destas tantas águas. Primeiro jorro e delta de nossas correntezas, o artista tem reforçado, em seus trabalhos mais recentes, a simbiose entre desenho e pintura, que assombra e movimenta sua obra. A monocromia em azul dá mais visibilidade às referências que transformam estas paisagens em um mosaico, criado com elementos que vêm de épocas e territórios muito distintos: seres marinhos que frequentaram cartas náuticas do século XVI podem habitar o mesmo universo de uma imagem contemporânea.
Os três navegam em seus próprios veios, mas se transformam em canal e ponte um para os outros na conversa visual que procuramos estabelecer. Obras que se tocam em uma deliciosa deriva, que não é naufrágio, e sim viagem e descoberta. Tudo flui como um Rio. É nessa Babel, ágora de tempos, culturas e geografias, que esta exposição se banha.

Daniela Name







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