quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Conversando sobre Arte entrevista do artista Luiz Escañuela






Quem é Luiz Escañuela? 
Nasci no dia 7 de outubro de 1993, em São Caetano do Sul. Trabalho como designer desde os 17 anos e é onde tenho formação oficial em nível técnico e superior.
Fui criado em São Paulo pelos meus pais junto com a minha irmã mais nova. Não tenho muito o que falar sobre a minha infância, brinquei muito na rua, com meus primos e minha irmã e assistia muitos filmes. Quando a pré-adolescência chegou eu fiquei mais introspectivo e comecei a ler e conhecer outros tipos de filme e músicas através da internet, foi uma época bem reclusa. Ela acabou com meus 16 anos, quando comecei a sair e minha vida social ficou um pouco mais agitada. De certo modo mantenho isso até hoje. Gosto muito da noite paulistana e é nela que gosto de passar meu tempo livre.

Como a arte entrou em sua vida?
Quando pequeno eu assistia muitos filmes. Quando gostava muito do que assistia eu desenhava como uma forma de "homenagem". Mantenho essa prática até hoje, ela foi se aperfeiçoando com o tempo, e é por causa disso que eu busquei cursos que tivessem alguma relação com estética e apelo visual.
Arte como expressão entrou na minha vida há pouco tempo, com a minha série autoral. Senti necessidade de usar meu desenho para representar uma época complicada da minha vida e buscar algum tipo de identificação entre as pessoas e o que tentei transmitir.

Qual foi sua formação artística?
Me formei no curso técnico de Comunicação Visual em 2010 e no curso superior de Design Gráfico em 2014. Ambos os cursos introduzem técnicas de desenho e composição mas a maioria do que crio aprendi por conta própria no decorrer dos anos.

Que artistas influenciam em sua obra?
Os primeiros artistas que me "influenciaram" foram Salvador Dalí e Frida Kahlo. Obviamente essa "influência" não tem nenhuma relação direta com as minhas criações. O que me apaixonava em ambos era a história de vida e a trajetória que os levou a tornarem-se artistas consagrados e com nome. Eu gosto muito dessa posição que artistas modernistas ocupam na história, com seus manifestos e a transgressão dos trabalhos.
Hoje eu divido muito das minhas inspirações entre a técnica e o conceito. Busco referências no hiper-realismo do Ron Mueck, do Omar Ortiz e do Gottfried Helnwein, meu preferido. Gosto muito das aquarelas do Marcos Beccari, um artista brasileiro. Os trabalhos em lápis de cor do italiano Marco Mazzoni e as pinturas a dedo do Paolo Troilo são inspirações fortes, também.
As minhas referências conceituais acabam vindo muito do cinema. Mantenho minha tradição de desenhar filmes que gosto, tenho uma pequena série de aquarelas só com filmes latinos, dentre eles Central do Brasil, Cidade de Deus e do recente e incrível Que Horas Ela Volta? 
Indiretamente, gosto de ter como inspirações diretores que possuem forte autoria estética em seus filmes. Pedro Almodóvar é quase desnecessário citar nesse quesito. A força pessoal das obras do Lars Von Trier, a excentricidade do David Cronenberg e a polêmica do Pier Paolo Pasolini também entram como referências no meu trabalho.

Como você descreve seu trabalho?
Até agora eu tenho sido eclético com o que crio. A única coisa que se mantém sempre é a figura humana, que não abro mão de representar. Tenho retratos em grafite e em lápis de cor de artistas e personagens que gosto. Procuro dar visibilidade ao Brasil e ao cinema latino através das aquarelas com os traços mais abertos.
Minha primeira série autoral, "SÍMIO" entra como uma série composta por 10 obras, feitas em grafite, que procuram representar o que a falta de empatia traz para as pessoas. A ideia maniqueísta de colocar uma “vítima” e um “monstro” tem como principal intenção mostrar que todos nós podemos ocupar ambos os lugares quando nos relacionamos e que quando não nos educamos a nos colocar na posição dos outros é provável que ocupemos o papel do monstro que hostiliza de forma parasita as pessoas que estão perto.  
Há um ano atrás passei por uma fase extremamente negativa da minha vida e muitas das vivências ruins que vieram dela foram ocasionadas por outras pessoas e pela falta de tato que elas sustentam ao lidar com quem passa por momentos difíceis, optando por fuga e indiferença. O SÍMIO vem como a representação de aflições e dores humanas. A figura dos símios é uma alegoria para essas sensações e quem as convoca dentro de relações interpessoais. Por serem os seres mais semelhantes do homem e, ainda assim, reconhecidos como bestas, os animais transfiguram o quanto essas dores fazem o homem se perder em sua própria natureza e flerta com o obsceno e com o grotesco quando lida com situações que o colocam em posições de extremo sofrimento.
O individualismo como defesa tem sido uma armadura extremamente hostil dentro das relações. Cada vez mais somos educados pelas nossas experiências e induzidos pela cultura popular a crer que vivemos num mundo violento, e que a tática ideal para a sobrevivência é o “olho por olho”. As atitudes de vilões e anti-heróis seduzem e parecem espelhar o problema tanto quanto disseminá-lo ainda mais: frieza, ambição exagerada, individualismo, egocentrismo e exibicionismo. Todos culminando no que pode ser resumido simplesmente como falta de empatia.

Empatia, em seu sentido mais básico, é a capacidade adquirida com o convívio e através da autoavaliação de conseguir ocupar o espaço do outro para entender suas dores, suas vivências e, consequentemente, seu erros. É um ato de doação essencial para se relacionar e para deixar boas marcas nas pessoas que nos cercam. Essa experiência e seus resultados tem sido cada vez mais subestimados e ignorados. Subestimados porque a ideia de ser “bonzinho” é  associada a fraqueza e inocência. Ignorado porque mesmo quando a intenção maior é a prática do bem, a incapacidade de ser empático guia nossas atitudes através de comportamentos de fuga e justificativas rasas para não se agir privando pelo bem do outro tanto quando pelo individual, para não ajudar e para não sair do seu campo de conforto e se sacrificar pelo o que você diz querer bem.

Acho que não seria justo passar por esse tipo de violência emocional e não retratar de alguma forma tentando usar essa representação como uma denuncia ao que tenho visto ser cada vez mais comum na liquidez e facilidade de se desconectar que as pessoas tem tido umas com as outras. Precisei colocar essas coisas no papel não para aliviá-las em mim mas para tentar, de alguma forma, mostrar o quanto é fácil se desumanizar, o quanto tem sido fácil deixar de assumir responsabilidades por quem tocamos e o quanto isso apodrece as conexões que estabelecemos com os outros e para os outros.

É possível viver de arte com a crise atual?
Eu realmente só posso especular para responder essa questão. Arte ainda não me sustenta. É algo que faço por conta própria porque realmente gosto e tenho necessidade.

Acho que tudo depende muito do que cada pessoa visualiza com o verbo "viver". Creio que seja um meio de muitos nichos, não acho válido considerar arte unicamente o trabalho elitista vendido por preços absurdos para colecionadores. Talvez o consumo da "arte de elite" de fato diminua em épocas de crise, mas isso não mata o trabalho do artista que quer tocar as pessoas e representar partes do mundo com seu trabalho.

Que comentário você faria sobre a sua primeira exposição?
O "SÍMIO" é extremamente pessoal e representa uma parte terrível da minha vida. Então a experiência de ver tudo aquilo aberto ao público foi momentaneamente desconfortável por que me senti exposto. Mas a partir do momento que as pessoas começam a se identificar com o trabalhos e os comentários indicam que elas podem ter passado por coisas parecidas e que se vêem representadas nas imagens, o desconforto passa. Além de todo o agradecimento pelo número de amigos que estão indo prestigiar a exposição, fica o alívio e a alegria de saber que posso estar tocando pessoas desconhecidas. Que um trabalho que por muito tempo me pareceu extremamente egoísta e íntimo da minha parte também possui um prisma mais universal.

O que você pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?
Não participo de salões. Tenho preguiça.


O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
Essa pergunta tem muitas respostas. Principalmente porque depende muito da galeria que se quer expor e qual o tamanho do "nome" do artista. Arte é panelinha, também. Muita coisa depende de estar no lugar certo, com a pessoa certa na hora certa. Isso é muito injusto com os bons artistas que nunca sairão da própria garagem, mas é um fato. Não dá pra mentir e vir com a conversa fiada de que é só "se esforçar", "acreditar nos seus sonhos", "aprimorar técnica e estudo". Estamos numa época que tem muita repetição, muita coisa reciclada. A pós-modernidade sempre inova pela mistura mas as vezes ela parece um cachorro idiota correndo atrás do próprio rabo, buscando significados em coisas imbecis, fundindo obviedades e entregando resultados mais óbvios ainda.
Está faltando choque. Os artistas que assustam com o seu trabalho são os que crescem.E quando eu falo de choque eu não me refiro necessariamente a obscenidades e polêmica. Isso já está chato, também. Acho que o primeiro passo é chegar num conceito onde você retrata algo muito ameno que, de certa forma, é perturbado por um pouco de caos. Choque é essencial para que, no meio de tanta coisa parecida, uma obra possa merecer um olhar mais demorado.

Você falou: "Eu ganhei uma bolsa para me graduar e pós-graduar em artes visuais a partir de 2016 e pelo jeito minha vida vai mudar completamente". Você poderia comentar esse fato? 
Começarei a estudar Artes Visuais no Centro Universitários Belas Artes de São Paulo em 2016. Eu nunca estive num ambiente acadêmico para estudar arte. Por mais que eu tenha tido um embasamento forte nos cursos que fiz, nunca estive formalmente ligado a nenhuma instituição para me aperfeiçoar. Acho que vou desconstruir muita coisa em mim e isso vai impactar direto nas coisas que crio. Quero e vou desaprender muito do que pra mim já é um terreno seguro. É assustador e empolgante ao mesmo tempo.


Você tem 22 anos. O que o levou a um amadurecimento artístico tão precoce?
Não sei até que ponto concordo com meu "amadurecimento". Houve uma época da minha vida que o desenho e a minha série eram as únicas coisas que me faziam levantar da cama, então eu tive um contato excessivo, quase obsessivo, com as criações. Talvez tenha sido dessa necessidade extremamente infeliz que eu tenha conseguido trazer coerência e identidade para os trabalhos. Mas é só uma hipótese. Auto-análise é muito chato. 

 Quais são seus planos para o futuro? Algo para o Rio de Janeiro?
No momento eu gostaria que o SÍMIO ganhasse mais visibilidade e fosse visto por mais pessoas. Agora que passou todo o medo de colocá-lo na mão dos outros quero que ele consiga outros espaços e vou trabalhar para isso. Junto disso uma nova série está começando a surgir na minha cabeça. Ela está no embrião ainda e falta muito estudo e muito tempo para amadurecê-la. Caso vingue, será meu novo projeto e a possível nova exposição. 

Ainda não recebi nenhum convite para mostrar meu trabalho no Rio, mas seria uma grande honra e espero ter essa oportunidade!






Submersão _ Lápis de cor e aquarela.



Ian Mckellen _ Lápis de cor.





O Curioso Caso de Benjamin Button _ Aquarela, lápis de cor e giz pastel seco.


Central do Brasil _ Aquarela.


Jared Leto como o travesti Rayon _ Lápis de cor.


Gabriel Garcia Marques. Grafite.



Claire Underwood. Grafite



Símio - Repulsa.




Símio - Sentença. 



Símio - Apatia.



Símio - Complacência.




Boyhood. Lápis de cor, aquarela e giz pastel seco.







Em https://vimeo.com/140947901 detalhes da série Símeos.


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Maurizio Cattelan

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