sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Conversando sobre Arte entrevista com o artista Roger Bassetto, S.P.




Quem é Roger Bassetto?  
Fui um moleque de rua na região onde hoje é a estação Chácara Klabin do metrô, em São Paulo. No asfalto jogando taco e andando de carrinho de rolimã. E no mato, porque haviam muitos terrenos vazios. Tinha até um campinho bem em frente da minha casa. Mas a TV também teve sua importância, sobretudo os desenhos da Hanna-Barbera, desde a Corrida Maluca até Johnny Quest. Subíamos em telhados e tomávamos banho de chuva. Essa infância passada nos anos 70 na Vila Mariana ficou internalizada. Tenho esse moleque dentro de mim.
Eu era fascinado por álbuns de figurinhas e pelas revistas com capa colorida impressas em papel brilhante: Batman, Superman, eu comecei a colecioná-las antes de aprender a ler, atraído pelo desenho e pela cor. Mais tarde, um dia meu pai me trouxe a revista Mad, recém lançada em português. Todos aqueles desenhistas que nunca vira, novos estilos, e um humor sem tabus que eu não conhecia, foram absolutamente impactantes. Comecei tentando copiar os artistas que mais gostava: Don Martin, Sergio Aragonés, Al Jaffee. Aí foi o início de um gosto pelo desenho, e que naturalmente me levou ao design gráfico. Quando tive que decidir sobre uma faculdade, optei pelo curso de comunicação; não me passava pela cabeça ser artista. Após estágios e primeiros empregos nos estúdios de agências de publicidade, fui me firmando como diretor de arte, atividade que exerci por mais de 20 anos.
Paralelamente ao meu trabalho, aos poucos fui me aproximando mais da arte, lendo muito, e ora frequentando o ateliê de Carlos Fajardo, ora em um curso de desenho com o Dudi Maia Rosa. Assim, gradualmente o interesse pelas coisas da arte foram crescendo e as coisas da publicidade perdendo o significado. Não tive escolha senão abraçar a arte.


Como a arte entrou em sua vida?
Entrou com o desenho. Meu desenho não era melhor do que o da média, mas eu queria muito aprender. E nunca imaginei a que dimensão essa linguagem pudesse me levar.
Outra coisa importante aconteceu quando, em 1992, estudei com Milton Glaser na School of Visual Arts em Nova York. Figura icônica do design gráfico, erudito, estudou com Morandi em Bologna, e tem nele e em Picasso seus modelos. Diz que entre o ascetismo paroquial de um e a fúria lunática do outro, podemos encontrar toda a variedade da experiência artística humana. Milton Glaser considera o desenho a base do entendimento da nossa experiência no mundo, acredita que o ato de desenhar - e a arte em si - proporciona uma maneira da verdade emergir. Glaser provocou em mim um enorme impacto artístico e intelectual.


Qual foi sua formação artística?
Atualmente faço pós-graduação em pintura contemporânea na faculdade Belas Artes. Meu interesse inicial era o design gráfico, mas não existia este curso superior específico no Brasil. Me graduei em comunicação social, o que considerei um equívoco. Fui estudar arte depois. Em uma extensão nas artes plásticas da FAAP, em Londres, Nova York.



Como foi sua experiência na  St Martins School of Art, Londes? 
Tinha 23 anos e frequentei aulas de desenho e design gráfico, mas a melhor coisa sobre morar em outro país é que ficamos em uma situação de um certo desconforto. Com a língua, com a cultura, o transporte, onde morar. Essa condição de estrangeiro é extremamente desejável, nos coloca em desconforto, e agora fazendo um paralelo com o desenho, nos faz prestar atenção nas coisas.



Que artistas influenciam em sua obra?
Inicialmente foram os pintores do modernismo. Degas, Matisse e os fauvistas, Picasso, os expressionistas alemães. Kurt Schwitters. Depois o Rauschenberg, Cy Twombly, Basquiat. Temos toda a história da arte que de alguma forma nos influencia.


Como você descreve seu trabalho? 
Meu trabalho se expandiu por vários caminhos. Utilizo as técnicas tradicionais como o desenho, a pintura, a colagem. Mas também tenho produzido mapas, e me aventurado em linguagens que visito menos, como instalações, fotografia e vídeo. Paralelamente eu mantenho cadernos, sketchbooks. Eles me mantêm trabalhando, desenhando, pensando. Não têm finalidade mas os considero extremamente importantes. Me vejo como um cronista que olha para o mundo e faz comentários. Observações usando a linguagem das artes visuais.



É possível viver de arte com a crise atual?
Acho que com ou sem crise, no Brasil ou fora, viver exclusivamente de arte é para muito poucos. O público conhece as histórias de sucesso, mas as dificuldades do dia-a-dia de um artista médio não são divulgadas. Talvez até seja interessante para os artistas atuarem em outro emprego


Que comentário você faria sobre a arte contemporânea em São Paulo?
Participo do Ateliê Fidalga. Um grupo de estudos organizado pela Sandra Cinto e pelo Albano Afonso. O Fidalga também promove residências com artistas estrangeiros. Os relatos dos residentes sempre são de espanto com relação à quantidade de eventos relacionados à arte contemporânea em São Paulo. Tem tanta coisa acontecendo que é difícil produzir, dizem.


O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
O artista tem que fazer o seu trabalho passar por um processo de legitimação. É o circuito das artes quem atribui esses valores. E por que isso é difícil? Porque esse mundo, formado pela crítica, instituições e pelo mercado (as galerias entram aqui), é bastante dinâmico e inteligente o suficiente para fazer as suas escolhas.


Além de artista você e exerce outras atividades profissionais, como elas se encaixam? 
Em 2006, eu e a Mônica, minha mulher, criamos a Livraria Pop, um espaço que reunia uma livraria especializada artes visuais e cultura pop, loja de objetos de arte, café-bar. Organizávamos exposições, fazíamos muitos eventos. Fechada em 2010, a livraria acabou migrando para uma editora, e juntamente com meu sócio, o Cézar de Almeida, também diretor de arte e artista, publicamos os livros “Sketchbooks-As páginas desconhecidas do processo criativo” e “Lourenço Mutarelli Sketchbooks”. Tudo feito na raça e sem patrocínio.
O ensino, a educação também me interessam. Fui professor em faculdade, e hoje dou cursos e workshops sobre o desenho, a colagem e o processo criativo.


O material para pintura e desenho  nacional já são de qualidade aceitável?
Algumas coisas, como pinceis, eu uso sem problema. Mas lápis, tinta acrílica e aquarela ainda uso as importadas.


Quais são seus planos para o futuro? Algo para o Rio de Janeiro?
Em 2013 fiquei cinco semanas no Rio, participando de um workshop no ateliê do professor Charles Watson, em Botafogo. A intensidade da produção e da reflexão foi equivalente a um ano de trabalho. Voltaria para estudar com o Charles.

E quero voltar para correr novamente a maratona (corri em 2014). É uma atividade pela qual venho, há anos, desenvolvendo enorme interesse, mas não exatamente pelos mesmos motivos que os outros corredores. Olho mais para o lado psicológico, filosófico do que para o esportivo. Me emociona muito mais a “persistência e resistência” que Sean Scully diz personificar, do que saber qual ritmo correr a prova. Na verdade, passei a considerar as maratonas como uma atividade artística, e há algum tempo estou pensando em um trabalho que traduza isso. Quando fiz a série “Um Diálogo com Sísifo” (2013-2014), uma colagem por dia durante um ano, foi um pouco sobre a repetição insistente, “inútil”, sobre correr maratonas que eu estava metaforizando. A arte, afinal, é um esporte para maratonistas.

2. e 3. Da série "Um Diálogo com Sísifo" - colagem sobre papel
4. 5. e 6. Da série "Um Dia em Vênus" - colagem e cera de abelha sobre capas de livros
8. Estudo para o projeto "Pheidipides" (arte-maratona)
9. e 10. Páginas de sketchbook



 Roger Bassetto durante o "Procedência e Propriedade", no ateliê de Charles Watson - 2013



 "Um Diálogo com Sísifo" - colagem sobre papel.



 "Um Diálogo com Sísifo" - colagem sobre papel.



 Da série "Um Dia em Vênus" - colagem e cera de abelha sobre capas de livros

 Da série "Um Dia em Vênus" - colagem e cera de abelha sobre capas de livros


 Da série "Um Dia em Vênus" - colagem e cera de abelha sobre capas de livros








Estudo para o projeto "Pheidipides" (arte-maratona)

  Páginas de sketchbook


 Páginas de sketchbook



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Maurizio Cattelan

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