segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Iberê Camargo, um artista frágil - Guilherme Ginane.

 

Iberê Camargo, um artista frágil.

por Guilherme Ginane


Por uma passagem rápida nas pinturas de Iberê Camargo não é fácil de penetrar onde habita o espírito inquieto deste artista tão expressivo. Imergir na sua obra, primeiro é ter certeza de estar frente ao um dos maiores artistas do Brasil, e em segundo, poder ver a complexidade sensível que a carnalidade da pintura possui. Em terceiro, e onde coloco este ensaio, é a possibilidade de observar como a alma humana e suas fragilidades podem estar no mundo escondidas por visualidades, a priori, tão agressivas. De pronto, o que se pode ver nas pinturas de Iberê, é a brutalidade florescer. A matéria, a densidade do motivo, as cores fechadas — principalmente as que datam do ínico da maturidade do pintor. Estes aspectos parecem ser paradoxais a afirmação que venho trazer aqui. Porém o jeito que ele se intitulava, Homem-Pintor, foi a chave para eu para perceber que há um lado escondido do sujeito, humano e frágil. Encaro esta expressão — homem-pintor- lhe servindo como um escudo frente ao mundo, sem que o mundo lhe engolisse como um simples humano e repito, frágil. É interessante observar como a categoria de homem-pintor pode ser vista com proximidade ao conceito contemporâneo de arte e vida. Mas, Iberê não usou a expressão para estar adequado à qualquer tendência artista, ele precisou usá-la para resguardar-se do mundo. Iberê não conseguiria ser só pintor, como também não conseguiria ser só homem (humano). Os escritos feitos por ele reforçam esta afirmação — “essas lembranças assomam de repente, enchendo-me de medo e vergonha, como seu eu fosse, agora, outra vez aquela criança perseguida, dos tempos de infância”. Com a leitura de seus livros de memórias aliado à uma observação atenta de suas pinturas, foi onde consegui ter a dimensão do abismo que ele vivia. É nesse sentido, que indico que aquelas camadas espessas de tinta, parecem encobrir o terror de sua alma fragilizada frente ao mundo. Ao meu ver, o seu trabalho, caminha mais para essa direção temerosa, do que para um caminho de agressão. No fatídico evento, o assassinato de um homem em uma rua próxima ao seu atelier, em Botafogo, no Rio de Janeiro, pode se observar, de forma ainda mais contundente, que Iberê, era um homem, paradoxalmente, de alma frágil. Ali, o humano, sem o pintor, surgiu por alguns milésimos de segundos, e como ele mesmo relata, «Ergo-me. Acossado, recuo. Hesito, vacilo, sem nada compreender. Ando com passos titubeantes. Ressoam dois tiros no ar morno daquela tarde que se imobiliza para sempre na minha memória».
O que me fez ter estas impressões, foram duas visitas à mostras distintas e a leitura de dois dos seus livros: um de contos (No Andar do Tempo) e o outro, de pequenos relatos de sua vida (Gaveta dos Guardados). As mostras foram (ambas já realizadas): Um trágico nos trópicos, no Centro Cultural Banco do Brasil SP (atualmente no MAM-RJ — muito menor que a de SP, vale ressaltar), e a outra na Estação Pinacoteca SP, com pinturas, desenhos e gravuras, estas últimas fizerem parte dos trabalhos que Iberê exibiu em sua participação na Bienal de São Paulo em 1861.
Me motivei a escrever este texto para suprir a vontade de ter o resto dos meus dias convivendo, com sua matéria, seus temas e seu espírito frágil.



Guilherme Ginane

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