segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Sobre Papel





Sobre Papel
Numa bela passagem do Grande Sertão-Veredas, Guimarães Rosa fala de uma carta que levou oito anos para chegar ao destino, “...e veio trazida por tropeiros e viajores, recruzou tudo. Quase não podia mais se ler, de tão suja, dobrada, se rasgando. Mesmo tinham enrolado noutro papel, em canudo, com linha preta de carretel.” Encanto! A carta, que rodou os sertões das gerais foi depositária de códigos e, preservada, resume toda complexidade e plasticidade da matéria e do tempo a agir sobre um simples suporte: o papel.
Sobre o papel é possível depositar impressões, riscos, cortes, dobras, cor, escritos, tempo, espaço, códigos e o que faz o artista, editando vários elementos em superfícies concretas ou abstratas. Se a obra aponta para mapas oníricos, cartas embalsamadas pelo tempo, ou mesmo enigmas, não importa. Pois, podemos não saber ao certo o que o artista quer dizer quando cria uma obra, mas sabemos que seus diagramas falam de vida e nos auxiliam a nos conhecermos mais e melhor. A obra de arte é caminho: ela intui, sugere e re-desperta.
“Sobre Papel” tem a tarefa de conectar diversas gerações de artistas, aproximando-os pelo suporte e permitindo o encontro de diferentes sentidos e possibilidades do fazer artístico. Mais do que celebrar este material que nos é tão caro, a exposição fala do tempo, do homem e suas complexidades na visão de cada um.
John Nicholson, ao desenhar May, sua majestosa gata sem pedigree, nos fala da experiência do branco em torno das delicadas manchas de sua modelo de estimação. A imagem da gata, em si, cede importância para as cores que flutuam sobre o papel; Raimundo Rodriguez redesenha cartas impressas transformando-as em amuletos. Trabalha sobre restos de papéis borrados e códigos que talvez nunca tenham sido lidos, utilizando vários elementos de uma identidade sagrada; Paulo Vieira desenha a representação do desassossego e sua vontade de compreender o mundo se converte em perguntas: Quando? Onde? Como? Por que? São indagações da alma sobre as folhas brancas; Valério Ricci Montani desmonta livros antigos e remonta suas ilustrações como um arquiteto da pós-modernidade, subvertendo estruturas e refazendo a história a seu modo - impermanente - pairando entre passado e futuro; Luiz Paulo Rocha cria seus “teledesenhos” diante das imagens de TV em movimento - roteiros visuais que o artista reescreve. Ele também desdobra caixas e dobra corpos, resignificando objetos cotidianos e convertendo-os ora em seres, ora em coisas; Mirela Luz pontua pequenas intimidades de um lar em desenhos minimalistas que falam das relações humanas e do seu entorno. Suas crônicas remetem a um estado cotidiano de vivência, ou seja, o espaço impregnado com todos os ruídos e interferências externas da rotina doméstica; Maurício Noblat cria texturas suaves, unidas a arranhões rústicos, que se parecem com mapas que evocam a relação de exílio, o distanciamento, o lugar que não se sabe chegar, ainda obscuro, desconhecido; Leonardo Etero explora vestígios da figura humana, investigando as infinitas possibilidades do corpo, enquanto Ana Luiza Rego transborda o mito a partir da relação homem e mulher com seu traço épico-emaranhadoerótico; Marcelo Catalano traça códigos e paralelas coloridas nos apontando caminhos secundários quando olhamos o avesso de sua pintura, as sobras, as marcas , a memória do desenho; para Clarisse Tarran, política, palavra, anatomia, erotismo e religião fazem o corpo em sua obra - o corpo é guia; Rodrigo Munhoz constrói a metáfora sobre a função do papel na arte contemporânea com sua performance “O amor é Kraft”. Nele, já não existe papel como forma e superfície... eis o mistério decifrado. E, finalmente, Mario Carneiro, artista que cumpriu sua missão com grandeza: em papelões, deixou registros de seu aprendizado sobre a luz. Carneiro transitava em vários mundos, e sua obra nos ensina sobre nossa capacidade de sermos múltiplos preservando cultura e identidade. Seus planos em movimento e seu legado são uma lição de amor.
Na visão de cada artista, um universo particular se revela à medida que folheamos um livro-mundo de páginas sem fim. Sobre o papel: linhas, perspectivas, horizontes inexplorados e um encanto desconcertante, como nos ensina Rosa, na carta que rodou os sertões.

Marcia Zoé Ramos










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Maurizio Cattelan

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