terça-feira, 25 de agosto de 2015

Graphos: Brasil Osvaldo Carvalho




O paraíso e o desastre

Marisa Flórido Cesar


O paraíso, o desastre, o consumo. Nas três séries de pinturas produzidas ao longo de quinze anos por Osvaldo Carvalho, o plano pictórico é atravessado por ideologias, estratégias e poderes que disputam os espaços da existência, dos micro-poderes às grandes hecatombes.  Nelas, as linhas de fuga são substituídas pelas linhas de força em tensão e luta, o horizonte pictórico cede lugar às metáforas dos desejos - daqueles sequestrados na publicidade e no consumo, daqueles de quem horizontes, vozes e faces são extorquidos, para quem os paraísos são interditos – às imagens da catástrofe coletiva, do horizonte como fim e morte integral. A grelha ortogonal – que um dia sustentou a terceira dimensão da perspectiva, que foi rebatida ao plano pela arte abstrata – partilha a tela em territórios ambicionados pelo mercado; em frames dos acidentes produzidos pelo homem; em caligramas de plantas baixas de apartamentos feitos com as vozes dos anônimos que os construíram.

Em Dealer, pinturas simulam placas de imóveis em que estão à venda tanto o próprio espaço bidimensional pictórico como as práticas e concepções artísticas que questionaram o plano como categoria ontológica e específica da pintura como o expandiram no ambiente. O paradoxo está aí posto: aluga-se pintura conceitual em ótimo estado (a arte conceitual colocou em pauta a desmaterialização da arte) ou instauração por temporada (a instalação e práticas afins introduziram o tempo como duração da experiência do espectador). Entre uma e outra, o que as conecta é justamente o mercado para o qual a arte parece sempre condenada a ser integrada.  Vende-se pintura por metro quadrado como apartamentos de dois quartos.

Em Sonho Dourado, são as plantas baixas de apartamentos à venda que têm suas paredes desenhadas por frases dos operários que os construíram. São caligramas, poemas visuais feitos a partir de prospectos de imóveis em lançamento distribuídos nos sinais da cidade. Nos canteiros de obras do respectivo empreendimento, o artista recolheria “as impressões dos trabalhadores da construção civil acerca do que achavam de morar no prédio que eles estavam erguendo”. São suas vozes que se fazem ouvir nas paredes desenhadas das “plantas humanizadas” tal como chamadas pelo jargão do comércio imobiliário. A ilusão capitalista impõe a todos as figuras de felicidade e infelicidade como produtos a serem consumidos, mas a muito poucos a possibilidade de seu consumo. A humanidade é aquela de consumidores que têm acesso a seus produtos. Ao artista resta devolver a voz e a face daqueles excluídos da humanidade, devolver a capacidade de imaginar e sonhar sequestrada pelo paraíso do consumo.

Em Fragile, quatro telas de grandes formatos evocam os grandes acidentes como responsabilidade coletiva, o desastre planetário vivido por todos. O corpo comunitário, de ressonâncias míticas e metafísicas, é o corpo da Terra-mater. De Chernobyl à Tsunami no Japão, cada tela é subdividida como storyboard de um filme, como frames de uma catástrofe anunciada.  Cada frame por sua vez é alimentado por alusões diversas: de Stalker, de Tarkovsky, ao quarto de Van Gogh, das cores vermelhas da iconografia cristã, dos corpos destroçados às imagens veiculadas nos jornais televisivos.  O desastre global sempre foi imaginado de duas formas, um ato externo (de Deus, como no juízo final hebraico-cristão, ou do impacto de um corpo celeste ou das placas tectônicas da terra, etc.) ou pelo efeito das ações antrópicas sobre o planeta, acelerado pelo sistema tecno-econômico dominante, o capitalismo mundial integrado. Em ambas, a incompatibilidade entre homem e mundo. O antropoceno é uma época no sentido geológico, como fim da epocalidade no que se refere à espécie. Ele começou conosco e terminará sem nós. É nosso presente sem porvir. A finitude individual coincidindo com a do mundo, a perspectiva do espaço e do tempo se fecha sem horizontes. Como disse Levi-Strauss, o mundo começou sem o homem e terminará sem ele.


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Maurizio Cattelan

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