segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Acontecimentos que antecederam a fundação do MASC e do MAM Rio - José Maria Dias da Cruz

Uma colaboração do artista e professor José Maria Dias da Cruz.



Acontecimentos que antecederam a fundação do MASC e do MAM Rio
Logo após o fim da segunda guerra mundial, naturalmente, um novo desenho geopolítico se inicia.
Na América do Sul alguns artistas se articularam: Emilio Pettoruti, Torres Garcia e Marques Rebelo. O objetivo era o de fortalecer os laços culturais dos países do Cone Sul: Brasil, Uruguai, Argentina e Chile.
Marques Rebelo, tomou a iniciativa e depois de uma troca de correspondência com Pettoruti, e com o apoio do Itamaraty, organiza uma exposição de vinte artistas modernos e jovens brasileiros, que foi inaugurada em 17 de agosto de 1945 em La Plata. Essa exposição, a primeira de artistas brasileiros a sair do Brasil, percorreu dezessete museus do Uruguay e da Argentina. Alguns nomes desses artistas: Portinari, Milton Dacosta, Pancetti, Santa Rosa, Iberê Camargo, Guignard, Di Cavalcante, Burle Marx, Percy Lau e outros. Nomes como Cícero Dias, Segall, Scliar foram convidados. Mas cada um, por motivos particulares, não puderam comparecer. Além da exposição foram convidados para palestras na Argentina vários escritores, que tiveram, entre outros, suas obras traduzidas para o espanhol. Foi um momento de muita efervescência.
Transcrevo agora um texto de Pettoruti citado no livro Potências da Imagem do pesquisador da UFSC, Raúl Antelo: “Não é concebível entender a escultura, por exemplo, e desconhecer em absoluto a arquitetura, a pintura, a música ou as letras. Esta unilateridade leva, fatalmente, tanto ao artista quanto ao amigo das belas artes , a isolar-se. Por esse caminho jamais chegará compreender nem realizar cabalmente, o primeiro, o que pratique; o segundo, a amar a arte em potência. Se bem que as especialidades, em matéria de arte, há de deixá-la para professores e para uma minoria excepcional, não devemos desconhecer essa obrigação moral de contribuir à formação de um povo espiritualmente forte. Só isto têm razão de ser, nos países americanos, os museus de arte, que devem ser rotativos, dinâmicos, verdadeiros centros de cultura. O contrário – adquirir, expor, conservar as obras de arte – é letra morta.”
Enfatizo aqui a expressão “os museus de arte devem ser rotativos”. Esta era a intenção de Marques Rebelo, fundar vários museus, e o primeiro a de fato funcionar foi o de Santa Catarina. Sobre o MAM do Rio transcrevo um depoimento do próprio Marques Rebelo: “E mais outra lição: trabalhei durante dez anos na difusão das artes plásticas. Modéstia à parte, com inteligência, entusiasmo, devoção, desprendimento – há provas. Um dia viram que era tempo de haver m grande museu. Convocaram 50 pessoas para a sessão fundatória. Compareceram 41, e três delas, que eu conhecia, não tinham em casa um único quadro. Estabeleceram 40 lugares de diretoria, comissões, etc., e se fez imediata eleição. “Somente um dos presentes não foi eleito – eu.” Daí, entende-se o porquê do embaixador Jozias Leão não ter doado para o museu recém criado sua vasta e importante coleção de mais dois mil artistas modernos europeus (Braque, Picasso, Matisse, Mondrian, Kandinsky, Juam Gris, enfim, o que se fez de mais importante em pintura na primeira metade do século XX. Jozias foi solidário a Marques Rebelo. E o triste é que, não tendo conseguido criar, um novo museu por falta de apoio, Jozias, desgostoso, vendeu toda essa coleção para o exterior. Foi isso que o Rio perdeu!

Termino citando um trecho de Raúl Antelo do livro Potências da imagem (esse livro foi publicado em 2004): “Há alguns anos, a Rede Brasil Sul, empresa de comunicação do grupo Sirostsky, organizou em Florianópolis um evento reunindo os presidentes do Mercosul. Tratava-se de criar um símbolo de controle de qualidade para os produtos da região. [...] Tudo isso acontecia no Centro Integrado de Cultura. Embaixo, a pouco metros, no recinto do Museu de Arte de Santa Catarina, os restos da coleção de Marques Rebelo não ouviam, decerto, as batidas percussivas que impeliam a escalada e lhe prestavam pré-histórias de futuro a dança de valores. Sob a proteção da rede Globo, os três presidentes, Cardoso, Menem e Wasmosy (Sanguinetti ausente), articulavam a linguagem da resignação perante a videopolítica. Não se trata mais, pensavam, em extirpar a dependência externa, porém apenas administrá-la, ainda que a região afunile em um processo de periferização endógena, que ataca, em primeiro lugar, a memória. Os Rebelo e Pettoruti devem ter-se estremecido ante a falsa moeda do Príncipe (1), e talvez tenham compreendido, na própria carne, o alcance de uma política da amizade e da amnésia.”
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(1) Inspiro-me, aqui, no brilhante libelo de Gilberto Vasconcelos, O Príncipe da moeda (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1977, que interpreta o governo FHC como mostra do capitalismo videofinanceiro que sepulta, decididamente, o grande fantasma, Getúlio Vargas.

José Maria Dias da Cruz

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