sexta-feira, 1 de maio de 2015

Alexandre Mury Fricções Históricas Curadoria e texto de Vanda Klabin




ALEXANDRE MURY - FRICÇÕES HISTÓRICAS 
por Vanda Klabin


A alquimia poética que envolve os trabalhos de Alexandre Mury tem a capacidade de nos trazer questionamentos, inquietações, provocações e até um insistente desconforto aliado às  ambiguidades  de um prazer  libidinoso. O desdobrar-se, o despersonalizar-se ao estabelecer o seu eu como centro,  através da descontinuidade, do movimento que o faz diferir de si  próprio ao se transformar constantemente em todas as sua obras, introduz o seu ser como agente histórico,  como algo lacunar e portador de um dimensão  de uma experiência  bastante singular ao processar  a imagem de si próprio e de seu corpo como uma presença constante, através da investigação de um processo histórico. 

Arthur Rimbaud, na sua correspondência  Du Voyant à Georges Izambard  (Charleville, 13 de maio de 1871)  faz uma  afirmação contundente para  identidade contemporânea,  ao dizer que  Je est un Autre/ Eu é um outro. Isso  significa que o ser só pode existir  através do movimento que gera ao diferir de si próprio.  Essa dispersão do eu  ou multiplicação de personagens, encontramos  no poeta português Fernando Pessoa e seus heterônimos,  nas suas palavras,  uma tendência orgânica para a
despersonalização  e para a simulação.   Nos personagens tão diferenciados, múltiplos e controvertidos como Ricardo Reis, Alberto Caeiro, Álvaro Campos  ou Bernardo Soares,  temos a  pluralidade  como  o cerne de suas obras,  um sentir tudo de todas as maneiras, ou podemos dizer, eu não sou eles.



Essa constelação de sentidos,  essa vertigem de significados,  indicam um caminho convergente para  um território instável da conjugação de uma reflexão sobre  as diversas modalidades da pintura, da leitura de uma obra e da interpretação da história artística, elementos  de uma espiral infinita de leituras que fazem  parte dos fios que se  entrelaçam no pensamento  pictórico de Mury.

 A sua multiplicidade  se orienta pela busca de um conteúdo plural, trabalha ícones, cria enigmas  e desloca o posicionamento de imagens da arte  na constituição de um sistema no qual  o seu corpo converte-se no motor próprio quadro. Nesse processo de dessacralização,  desloca o vetor histórico  para um processo  híbrido, de remeter-se a si mesmo,  numa  espécie de  fusão amorosa para construir algo inesperado em territórios fictícios para realizar a sua inscrição no mundo.

O seu corpo constrói sua linguagem própria,  atua  como um  elemento conectivo nas suas permanentes torções e contorções em busca de um outro, um exercício de plasticidade e de  desdobramentos de sua existência  personificados em outros personagens.  Tudo fala através  ou por intermédio  de um  conteúdo concreto  e outro ficcional, na qual nada corresponde à realidade original mas à  uma realidade diferente, truncada,  enigmática. Na concepção de Platão , encontramos a idéia de mimesis, da arte como imitação,  como  simulacro do real. Mury adota o procedimento constante da desconstrução e adulteração  da História da Arte  através de uma abordagem irônica e mesmo enigmática,  ao deslocar o posicionamento histórico de obras de arte para um outro diálogo como um vol de parole / roubo de fala, uma verdade sonegada. 

Mury utiliza o seu próprio corpo como o seu centro de ordenamento e para sinalizar as suas experiências estéticas,  o seu eu como agente artístico que se converte na própria obra,  como um ato escultórico, como um transporte de significados, sempre colocados em confronto com
outros personagens.  Essa  continuidade de si nos outros,  através de apropriações históricas e de um processo de desnudamento constante  ou travestimentos são dispositivos de linguagem que  retiram  a distância e a áurea de  inacessibilidade da obra de antigos mestres, uma espécie de embaçamento da nossa memória para as obras já familiares ao nosso olhar, algo paradoxal como ver e não enxergar.  Experimentar, romper a distância e a inacessibilidade,  um conflituoso fascínio entre poder-ser e poder-não ser, como uma  reconstrução arqueológica  repleta de  olhares múltiplos e diversificados.

Sua ações ficcionais estão conectadas com as práticas contemporâneas através do registro  fotográfico, quase como um ato pictóricos.  Produzem alternativas provocadoras, insólitas e muitas vezes irônicas.  São olhares múltiplos, diversificados,  ao dilatar questões subjetivas relativizadas evocando  o penasamento  na qual eu  é o outro que me pensa.  Uma espécie de  desordem de todos os sentidos, uma transformação constante, uma equivocidade. 

 Suas relações com os meios pictóricos tem diversas entradas pela pintura, escultura, instalação ou performance,  com leituras infinitamente abertas e não conclusivas que se infiltram no seu arsenal de imagens através  do trânsito livre pela arte,  seja  pelo viés histórico, clássico, moderno ou contemporâneo.  Os temas literários, mitológicos e religiosos  também se fazem presentes no seu ideário e abrem um novo espaço para as suas preocupações visuais.   Esse jogo de diferenças e similitudes, equivalências  ou dissociações remete ao pensamento de René Magritte ao escrever uma carta  para Michel Foucault ( 23 de maio de 1966, Isto Não é  um Cachimbo, Michel Foucault) aonde vai  tecer considerações  sobre o que é falso ou autêntico para  analisar o jogo entre as palavras  o visível e o invisível : as coisas não possuem entre si semelhanças, elas tem ou não similitudes. 

No seu processo permanente de se apropriar e realinhar os ícones históricos  da arte  e inseri-los em uma outra estratégia discursiva,  pode ser uma forma de negá-los, já que vai reinscrevê-las   em oposições, problematizando e  trazendo uma ressiginificação, acionando novos significados  para o trabalho  de arte, deslocando o seu posicionamento histórico, quebrando as fronteiras de recepção que temos desses ícones e recolocando  a emergência dessa imagem, novamente  em circulação,  reenervando a superfície representacional.


No dizer de Marcel Duchamp, é o observador que faz o quadro. Mury é ao mesmo tempo,  produtor e observador de sua própria obra. Aqui tem a  presença de uma perda da identidade ao se despir si próprio  e representar a figura do outro, imaginativo e considerado sob o ângulo de um constructo real no qual nada corresponde à realidade inicial. Olhar para si próprio, criar uma intimidade  através de  espelhos de dupla face  ou  de desnudamentos constantes, como se interpretasse diversos papéis ao mesmo tempo, tem um caráter e uma estrutura ficcional, da invenção de uma pluralidade de mundos possíveis, do entrecruzamentos do seu trabalho, ora com intensidades irônicas, ora dramáticas.   

A apropriação de formas existentes ou  a criação de  cenas imaginárias, são a estrutura do seu trabalho e de sua organização acional, na qual esse universo torna-se efetivado pela registro da câmera fotográfica.   Na utilização  da banalidade dos objetos encontrados na profusão cotidiana, Mury vai  acionar novos significados para reconfigurar uma outra ordem no seu  trabalho de arte. Desenvolve um vigor cênico e alegórico para acentuar o alcance estético de suas obras e na organização desse discurso,  reúne vários procedimentos como a escolha do cenário,  do material e do kit de fragmentos que vão compor a cena e fundar uma outra obra resultante da sua imaginação.  O aparente caos é uma reconfiguração  para a emergência de uma nova intervenção artística. De aparência a  princípio anárquica, dissonante,  torna-se  densa e complexa quando se materializa  na superfície fotográfica. 

A espinha dorsal  é o retratar o seu próprio eu e a partir desse ponto nodal, faz operações de redução ou acréscimos, que  apesar de suas origens em algumas obras  históricas, adquirem matizes diferentes por um sistema de simulação e dissimulação  do seu  corpo físico que faz parte da cena constituída.  No processo de  destituição da imagem original, está presente uma ruptura entre a concepção  e a execução física da obra,  um fazer-se a si mesmo que se manifesta numa exacerbação simbólica e sensorial de aparecer no mundo. Por vezes estabelece uma fusão de linguagens artísticas, onde se entrelaçam os elementos de performance e de fotografia.


No processo que  permeia o seu trabalho, estão presentes o  cenários que muitas vezes se desintegram no ato de fazer,  tais como fragmentos, objetos diversos, componentes alimentares criam verdadeiras alegorias,
um mosaico de elementos que adquirem diferentes vozes e sentidos. O seu corpo,  principal protagonista e parte integrante da obra, tal como  Cindy Sherman,  ora se duplica ou se triplica por intermédio de um jogo de espelhos. Nesses exercícios de despojamento ou de acúmulo em situações ambíguas, Mury pensa  a arte  em torno da transformação do nosso olhar,  a partir de uma reinterpretação, de releituras e ao mesmo tempo,  um desafio que parece encenar a sua própria vida,  ao discutir  continuamente seus enigmas. Pensar a arte a partir de uma interpretação,  agregar novas entidades e significações, decifráveis ou não,  me faz lembrar a frase de Clarice Lispector : decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender.

 Mury coloca nos coloca na  rota segura de ícones artísticos  de grandes mestres, faz seus próprios desafios e exercícios estéticos,  reativa cenas  ou representações, destituindo-as  de seu territórios originais, alinhando  suas ideias em contundentes sinfonias cênicas- no dizer de Schoenberg, pinta-se um quadro e não o que ele representa -  produz metáforas e estranhas ligações repletas de significados, nos devolvendo uma outra identidade,  transitiva e limítrofe,  das questões históricas. 

Na rota segura de ícones artísticos  de grandes mestres, Mury  faz seus próprios desafios e exercícios estéticos,  reativa cenas  ou representações, destituindo-as  de seu territórios originais, alinhando  suas ideias em contundentes sinfonias cênicas,  produz metáforas e estranhas ligações repletas de significados, nos devolvendo uma outra identidade,  transitiva e limítrofe,  das questões históricas. 
Como artista gerador e agenciador de múltiplos sentidos, em sua lógica perversa, irônica e provocadora,  Mury delineia uma nova grade de leitura  para os objetos artísticos. Torna-se o palco para uma inesgotabilidade de experimentações estéticas  e configura uma nova e fértil discussão para os parâmetros da arte contemporânea.  Segundo Ortega Y Gassett, Deus colocou a beleza no mundo para que fosse roubada. E isso Mury soube potencializar e compreender.


Vanda Klabin é historiadora de arte, curadora de diversas exposições de arte contemporânea e autora de  artigos e ensaios sobre arte contemporânea. É formada em Ciências Políticas e Sociais pela PUC/Rio e em História da Arte e Arquitetura pela UERJ. Fez pós-graduação em Filosofia e História da Arte (PUC/Rio).Nasceu,vive e trabalha no Rio de Janeiro.  






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