quarta-feira, 15 de abril de 2015

Sean Scully. Com texto de Guilherme Ginane.






Sean Scully e a Cadeirante

Tive a sorte de estar na abertura da maior retrospectiva do Sean Scully no Brasil. Uso a palavra sorte, pois não só vi as pinturas, como, por um acaso, consegui ver ele falando sobre os trabalhos lá expostos. Scully - a quem tenho enorme admiração - falava em um espanhol pouco entendível. Ele, à vontade no meio das pinturas expostas, talvez soubesse que o entender de sua fala não se desse somente pela sua linguagem verbal. E realmente, uma espécie de simbiose aconteceu nas salas de exposições temporárias da Pinacoteca SP. Era como se os olhos ganhassem ouvidos e os ouvidos ganhassem olhos. As palavras sensíveis que vinham de seu rosto enigmático tinham o mesmo conteúdo dos mal acabados quadrados em óleos sobre linho, com sobreposições de cores - que me tocam direto no coração. No final de sua fala voltei a exposição ainda possuído pela intensidade daquela experiência, não tive condições de absorver tudo que ela ainda pode me oferecer. Então, retornei a sala aonde o pintor ainda cumprimentava algumas pessoas. Fui até ele, o cumprimentei e o disse mais ou menos que eu escrevi acima. Ele sorriu de forma carismática e me agradeceu carinhosamente. Me apresentei rapidamente, como um pintor que também luto com as mesmas questões que ele magistralmente domina. Scully falou sobre o cuidado a ser tomado com o discurso, que a sensibilidade precisa vir antes de qualquer coisa na arte. Eu humildemente, o parabenizei pela sua história. Ele serrou os punhos feito um lutador de boxe e se despediu de mim com um sorriso e um « good luck ».

Depois da Pinacoteca fui direto para rodoviária pegar um ônibus em direção ao Rio. Cheguei na rodoviária, comprei a passagem para um ônibus leito. Entre as paradas que esse percurso me exigiu fui lendo a bela entrevista de Scully no catálogo da exposição. Ainda tomado pela sensação das horas anteriores, a leitura acentuou a sensação que já tinha sobre a pintura de Scully. Sua integridade, seu rigor, sua humanidade - assunto que também foi tratado em sua fala. Lembrei que lá na Pinacoteca, ele disse ser um guerreiro, que toda sua família foi devastada pela história, e que ele se sentia lutando todo o tempo de sua vida. A essa altura eu já estava sentando na poltrona número 1 do ônibus que se preparava para partir em direção ao Rio. Ainda entretido com o catálogo, lia a parte onde o pintor Irlândes fala sobre Rothko. Escutei um barulho de pessoas na porta do ônibus. Aquilo me chamou a atenção, mas não ao ponto de eu parar para ver o que lá fora acontecia. Voltei ao livro, me adiantando e me encantando com o texto. Ouvi um outro estalar forte. Estava perto da porta e vi que estavam tentando entrar com uma cadeirante (palavra que não tem no corretor de texto) no ônibus. O segundo estalo foi a segunda roda, e a mulher, uma negra de aproximadamente 50 anos, gritou de dor nas costas. Ficou claro que o ônibus não tinha condições de levar uma pessoa com necessidades especiais. Dentre tantos solavancos e gemidos, funcionários da companhia conseguiram colocar a cadeira com a mulher entre as poltronas. Coloquei o livro na mochila e resolvi sair para tentar mostrar para a responsável da empresa de ônibus que aquele carro não era apropriado para portadores de necessidades especiais, que a senhora correria risco e estaria em desconforto caso viajasse naquelas condições. Ela em um tom de voz alterado, me disse que eu não tinha que me meter no assunto. Mais duas pessoas, que também embarcavam no ônibus, apareceram para me convencer que precisavam partir. Eu também levantei a minha voz, gritei pelo risco que corria um ser humano dentro daquele veículo. Quem a carregaria nos braços caso o ônibus pegasse fogo? Mais três pessoas apareceram cobrando a saída do ônibus. Era como se eu novamente estivesse dentro da exposição de Scully, era também como se as lições que as pinturas e a fala dele me passaram tivessem saindo pelos meus poros, pelos meus gritos em defesa da mulher ao qual vi sendo jogada dentro do ônibus sem as menores condições de humanidade. Mais pessoas. Escutei que iriam chamar a polícia. Tudo em ruídos. O mal acabamento, as impurezas, a expressividade da sensibilidade humana, a figura daquele homem com os olhos azuis e atentos, tudo isso me vinha tão forte quanto a negra paralítica que suava ao entrar no ônibus como uma pessoa em direção ao seu calvário. Me dei conta que a situação teria um fim trágico caso eu não parasse de lutar pela mulher, que parecia também já estar cansada de mim, por tantos argumentos que eu usava pela própria integridade dela. As recentes pinturas de 2014 - óleos sobre alumínio - me apareceram, mais abertas, mais claras, mais solares•. Me calei, pedi desculpas a todos que me cercavam, entrei no ônibus e sentei de volta na poltrona 1. Foi quando serrei as mãos feito um boxeador e dentro de mim veio aquele sorriso carinhoso e a voz grave dizendo as palavras derradeiras: good luck.


• imagem ilustrativa - Landline Grey Blue 2014



São Paulo, 11 de abril.  2015 











Sean Scully (1945-) Nasceu em Dublin. Aos quatro anos, mudou-se para Londres. Estudou na Croydon College of Art, Londres. Entre 1972-1973 recebeu bolsa para a Universidade de Cambridge. Foi professor da Goldsmith's School of Art em Londres. Em 1975, mudou-se para Nova York e tornou-se cidadão americano em 1983. Recebeu duas indicações para o Prêmio Turner. Obteve bolsa da Guggenheim Foundation. É membro honorário do Instituto de Artes, Londres e doutor honoris causa do College of Arts, University of Massachusetts e da Dublin University. Trabalha com pintura a óleo e gravura. Utiliza-se de espessas camadas de tintas geralmente em faixas. Participou das Bienais de São Paulo e das Ilhas Canárias. Em 2002, exposição individual no Centro Helio Oiticica, RJEm 2006, retrospectiva no Metropolitan Museum of Art. É representado pela Timothy Taylor Gallery, Londres. Retrospectiva na Pinacoteca do Estado de São Paulo. 11 de abril a 28 junho.



Change # 7, 1975. Coleção particular.


Fort # 2, 1980. Tate Gallery, Londres.


Union, 1984. Tate Gallery, Londres.



Desire, 1985. National Gallery, Washington.


 Série From Seven Mirrors, 1987. MoMA, Nova York.


 Série From Seven Mirrors, 1987. MoMA, Nova York.


Catherine, 1989.  Modern Art Museum of Fort Worth.



Durango, 2000. Kunstammlung Nordhein-Westfalen, Dusseldorf.



Sem título, 1989. National Gallery, Washington.


Sem título, 1996. Tate Gallery, Londres.


Because the Others, 1997. Philips Collection, Washington.


Wall of Light Desert Night, 1999. Modern Art Museum of Fort Worth.


Wall of Light, Red Red, 2001. Coleção particular.


Light, 2003.


Sem título, 2008. Thimothy Taylor Gallery.


Exposição, 2009. Gallery Lelong.


Chine Piled Up,2014. Thimothy Taylor Gallery.


Landline, 2014. Thimothy Taylor Gallery.









 Sean Scully Wall of Light _ Centro de Arte Helio Oiticica, 2002

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Maurizio Cattelan

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