sábado, 18 de abril de 2015

O Fabuloso destino de Andrea Facchini texto de Gilberto de Abreu

O fabuloso destino de Andrea Facchini

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Amélie, a personagem título de O fabuloso destino de Amélie Poulain, vivida no cinema por Audrey Tautou, ficaria maravilhada com o universo revelado pela artista Andrea Facchini em Alguma coisa atravessa pelos poros, a individual que ela apresenta até domingo na Galeria da UFF, em Niterói.
A Exposição ocupa as duas salas principais da galeria com pinturas, desenhos, colagens e objetos. Os trabalhos integram duas séries distintas: Carochinha e Teresas. Elas convivem em perfeita harmonia no espaço expositivo, na feliz curadoria de Marisa Flórido.
O díptico Um pouco sempre vasa pelos poros (acrílica sobre linho) recebe o público no acesso principal à galeria. Instalada ao lado do texto curatorial, assinado por Flórido, trabalho e escrita oferecem algumas chaves para a compreensão do fantástico universo ali mostrado.
3Sonho ou escapismo? – Teresas são cordas feitas de lençóis torcidos, usadas por presos em tentativas de fuga. Lançadas para fora das celas através das janelas, elas precisam suportar o peso de quem escapa.
Nas obras de Facchini, teresas são representadas por volumosos rabos de cavalo, em tonalidades semelhantes às do próprio cabelo da artista. Encontramos teresas envolvendo corpos, prédios, o próprio plano pictórico. Algo como uma erva daninha.
Alice, de Lewis Carroll, procuraria o coelho nesse País das Maravilhas.
As pinturas e desenhos de Facchini nos levam a observar recantos, reentrâncias, volumes que teimam em romper a bidimensionalidade. O volume das coisas surpreende: mantas e lençóis retorcidos, drapeados, empilhados, caídos ao acaso, nos levam a explorar uma outra topografia, tão familiar quanto as próprias situações contidas.
São cenas domésticas, flagrantes de uma intimidade quem em Facchini finda por gerar desconforto. Há algo esquisito no modo como as personagens aparecem: em repouso, quase em transe, ou êxtase. É como se algo nelas – ou elas próprias – não estivessem ali por inteiro.
panos quentes
Esse “não estar ali” é recorrente em diferentes trabalhos, e pode se configurar por meio de apagamentos, duplicações, sobreposições, figuras em processamento (renderizadas?), carregando a identidade. Envoltas por teresas que se (con)fundem com a vegetação rasteira (selvagem?) do jardim, as mulheres de Facchini encontram-se suspensas no tempo-espaço.
A natureza pode ser descrita como um território de sonhos (de Amélie), maravilhas (de Alice) e mistérios (de Andrea). Um sítio externo/interno, como sugere a pintura Como um sonho esparramado pelo quarto. Um lugar que nos provoca a querer entender onde estamos.
À moldura reproduzida na superfície desse quadro não cabe delimitar o que é/está dentro ou fora da tela. Nos confunde ao configurar um terceiro lugar, de contornos fantásticos, em que beija-flores flanam sob o ventilador e borboletas repousam inanimadas sobre o lençol da cama.
sobre saltos e jardins
Em Sobre saltos e jardins, vemos duas crianças, dois meninos, refastelados um sobre o outro num colchonete de chita. Aos pés de ambos um livro, A descoberta dos monstros, deixado enquanto adormecem, ou dão asas à imaginação. Um lobo bordado sobre o lençol escapa em meio à trama do tecido, lançando-se ao espaço. Singelezas como essa aparecem por toda a parte na obra de Facchini.
Nesse jogo de detetive surgem perguntas: Quão forte são as amarras que nos prendem? O que passa na cabeça de quem fantasia?
Ou ainda, voltando à uma tela da artista: O que pretende aquela menina, acompanhada de uma outra, na pinturaModelo? Aparantemente ingênua, a cena é das mais emblemáticas. Duas crianças (agora meninas) brincam na varanda.
O piso do ambiente é revestido por um quadriculado preto e branco. A cortina vermelha, à esquerda da tela, contrasta com a folhagem multicolorida, presente no canto superior à direita. Seria o lugar um picadeiro de circo?
modelo
No que poderia ser a plateia, um manequim feminino, sem cabeça, com seios à mostra, resiste ao enlace por uma das meninas. Facchini aplica uma camada de losangos coloridos sobre o tecido azul da calça de uma delas, um layer (digital?) acima da pintura, como quem especula sobre a padronagem apropriada.
Todo esse esmero em nos contar uma história (ou seriam várias?) através de pinturas multicoloridas revela-se igualmente fascinante nos desenhos, colagens e objetos, cuja economia no uso da cor os torna ainda mais intimistas. É como se o mundo todo de Facchini coubesse ali.
teresas
Andrea Facchini, essa exímia contadora de causos, estará conversando com a curadora Marisa Flórido no próximo sábado, a partir das 16h30, encerrando a temporada na Galeria da UFF. Durante o encontro será lançado o catálogo da exposição. Que tal aparecer por lá?

ABOUT THE AUTHOR


Gilberto de Abreu é jornalista, pós-graduado em História da Arte Moderna e Contemporânea e faz Aprofundamento em Curadoria na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. É curador associado na plataforma franco-brasileira ArtMaZone.

www.supergiga.com

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