quarta-feira, 29 de abril de 2015

Horizote Generoso Uma Experiência no Pará na Luciana Caravello Arte Contemporânea Curador: Bernardo Mosqueira

(ao meu amor)

Assim que o avião pousou em Belém, procurei, como de costume, A RESERVA do HOTEL na pasta de papéis impressos da viagem. Já eram mais de onze horas da noite e, após contato com a produção da exposição que me trazia até a capital paraense, descobri que, por conta de uma convergência de enganos, não havia reserva para ser encontrada. Armando Queiroz me enviou uma mensagem de boas vindas, e lhe respondi descrevendo minha situação: sozinho, no aeroporto de uma cidade desconhecida, às 23h, sem ter para onde ir. Tentamos duas ou três pousadas sem sucesso antes de Armando me dizer “Achei uma com vagas! Quer ver se gosta? Chama-se Machado’s Palace!”. Eu nem precisei checar as fotos online. Machado é o instrumento de Xangô: seu palácio é minha casa. O hotel foi ótimo, mas, no dia seguinte, me mudei para a Pousada Itaoca, mais próxima do Centro. Da mesma forma: Ita-pedra, Oca-casa. E a pedreira é a casa de Xangô. Uma semana mais tarde, Orlando Maneschy me ensinaria que essa é uma situação na qual você diz: “Está uma loucura em Belém!”.

A semana que passei nessa cidade foi uma sequência de fortes encontros que só pode gerar análises positivas e superlativas. O descompasso entre o ritmo que eu trazia (que me fez marcar de 4 a 6 reuniões todos os dias) e o ritmo da cidade (atrasos certeiros e chuvas de consequências imprevisíveis) fez com que, no último dia, eu quase chegasse aos limites do meu corpo. Nessa situação, Alexandre Sequeira me ofereceu uma chave de abrigo, ventilador e meia hora de sono antes de seguir os trabalhos. Foi de uma conversa com o mesmo Alexandre que surgiu a expressão Horizonte Generoso: ele descrevia um tipo de perspectiva gerada pela topografia da cidade, mas logo entendi que poderia ser aplicada perfeitamente à paisagem humana de Belém.

Nas horas de conversa no apartamento de Elza Lima, fiquei maravilhado ao mergulhar no acervo dessa que acredito ser uma das maiores fotógrafas do Brasil. Há muito dela que ainda não foi visto. O modo como as cenas se formam à frente de sua câmera é quase mágico, e em seu trabalho podemos perceber as maneiras muito complexas com que as culturas das comunidades amazônicas se constroem, costurando a natureza com relações.

Outro trabalho fotográfico poderoso é o de Luiz Braga. Seus arquivos são absolutamente organizados e bem cuidados. Nossa conversa aconteceu no único momento possível para os dois. Muito além da capacidade impressionante de encontrar coloridos e rastros, Braga consegue encontrar, destacar e nos oferecer para análise sopros, espíritos, da cultura amazônica. A importância fundamental das narrativas que cercam cada uma de suas fotografias nos faz pensar se não vem também da oralidade negra e indígena a força de sua produção. A mesma pergunta vale para o trabalho de Alexandre Sequeira, que se realiza a partir de dispositivos que propõem formas de relação. As fotografias resultantes são iluminadas pelos resultados vivos do trabalho e ganham forma pelas narrativas que as cercam.

Algo que pude reconhecer como traço recorrente no comportamento do povo do Pará é o fato de estarem corriqueiramente ariscos. Na obra de Elza, Luiz e Alexandre é possível encontrar cenas em que vemos retratado esse estado de prontidão para o conflito, que pode se desfazer com facilidade por sua realização (violentamente, sexualmente...) ou pela percepção da inadequação.

A violência no Pará atravessa a investigação de muitos artistas desse estado. Alberto Bitar, por exemplo, fotografou cenas reais de assassinatos para assinalar a transitoriedade das coisas vivas. Com o obturador aberto, o corpo morto se mantem definido enquanto os vivos se tornam fantasmas. Contudo, é a tensão da presença demorada da câmera com o defunto que dá tônus a essas fotografias. A investigação sobre a perecibilidade das coisas se estende também para os cemitérios de documentos, ferros-velhos de carros e aviões.

Minha conversa com Alberto Bitar aconteceu na Kamara Kó Galeria, que surgiu da agência fotográfica de mesmo nome fundada em 1991 e responsável por reunir e difundir parte importante da produção dos fotógrafos da região. Naquela mesma tarde, visitei a exposição de Keyla Sobral na Casa das Onze Janelas, onde no dia anterior eu tinha conversado com Armando Queiroz, atual diretor do espaço. A força, a resistência e a beleza de Armando e de sua produção tem ressoado coerentemente na programação da instituição. A produção de Keyla e a de Orlando Manescky são muito interessantes por partir necessariamente de um contexto amazônico, com sua cosmovisão e seu imaginário, mas resultar em trabalhos que tratam de questões pertinentes, de uma forma mais direta, a todo humano. Compõem ainda a exposição algumas fotografias de Guy Veloso, que é o único dos artistas dessa mostra que não encontrei no Pará, mas cujas obras são importantes para construir no espaço expositivo parte da experiência que vivi em Belém.

Horizonte Generoso é a primeira mostra do projeto em que a Luciana Caravello Arte Contemporânea convidará anualmente um curador para fazer um recorte da produção de arte contemporânea de um estado brasileiro fora do eixo RJ/SP. Reconhecendo o tamanho e a complexidade da produção do Pará, decidi que essa exposição seria o resultado de uma primeira experiência de pesquisa no local. Horizonte Generoso me permitiu novas perspectivas também ao deixar evidente o quanto um curador com uma pesquisa sólida pode transformar todo o sistema das artes de uma cidade. Horizonte Generoso é um resultado e um outro começo de desenho.

Bernardo Mosqueira

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(to my love)

As soon as the airplane landed in Belém, I rummaged, as I usually do, for the HOTEL BOOKING slip in my folder of travel documents. It was already 11 pm and, when I contacted the producers of the exhibition that had brought me to the capital of Pará, I discovered that, for reason of a series of misunderstandings, no hotel had been booked. Armando Queiroz sent me a welcome message and I responded telling him about my situation: alone, in the airport of an unfamiliar city, at 11 pm, with nowhere to go. We had tried two or three boarding houses to no avail, when Armando said “I’ve found one that has vacancies! Let’s see if you like it? It’s called Machado’s Palace!” I didn’t even need to look at the photos online. The ax (machado) is an instrument of the god Xangô: his palace is my home. The hotel was great, but, the next day, I moved to Pousada Itaoca, closer to the city center. Even so, ita=stone, oca=house. And the quarry is the house of Xangô. One week later, Orlando Maneschy would teach me that this is a situation in which people would say “Belém is a crazy place!”.

The week I spent in the city involved a series of important meetings that I can only describe in positive, if not superlative, terms. The contrast between my hectic schedule (with four to six meetings a day) and the pace of the city (guaranteed delays and rainstorms with unpredictable consequences) brought me, by the last day of my stay, to the limits of endurance. Under these circumstances, Alexandre Sequeira offered me a room, an electric fan and a half-hour nap before continuing work. It was in the course of a conversation with Alexandre that the expression
Generous Horizon came up. He described a kind of perspective generated by the topography of the city, but I almost immediately realized that the expression applied perfectly to the human landscape of Belém as well.

During the hours we spent in Elza Lima’s apartment, I became enthralled by the archives of someone who must be one of the greatest photographers in Brazil. Much of her work has yet to be seen. The way the scenes take shape in her camera lens is almost magical and we can see in her work the complex ways in which the cultures of the communities of Amazônia are built up, knitting together nature and human relations.

Another photographer who produces powerful work is Luiz Braga. His archives are meticulously organized and well looked after. We talked at the last possible moment convenient for both of us. In addition to his impressive capacity to bring out colors and traces, Braga manages to find, highlight and offer up to us wraith-like wisps of Amazonian culture. The fundamental importance of the narratives that surround each one of his photos makes us wonder whether the strength of his work does not also come from the African-Brazilian and indigenous oral tradition. The same goes for the work of Alexandre Sequeira, which uses devices suggestive of forms of relation. The resulting photographs are illuminated by the living results of the work and shaped by the narratives that surround them.

A habitual feature of the people of Pará is being constantly on the alert. The work of Lima, Braga and Sequeira presents scenes that portray this state of readiness for conflict, which can easily be thrown off, when violent or sexual conflict occurs, or when it is felt to be an inappropriate response.

Violence in Pará pervades the work of many artists from this State. Alberto Bitar, for example, has photographed real-life murder scenes as a way of capturing the fleetingness of living things. With the shutter open, the dead body stays in sharp focus, while the living are turned into ghosts. Yet, it is the tension produced by the way the camera lingers on the deceased that lends these photographs their sinewy firmness. The study of the perishability of things extends also to the graveyards of documents and scrap iron from cars and planes.

My conversation with Alberto Bitar took place in the Kamara Kó Gallery, named after the eponymous photography agency, founded in 1991, which was responsible for bringing together and disseminating much of the photographical work of the region. The same afternoon, I visited Keyla Sobral’s exhibition at the Casa das Onze Janelas, where, the previous day, I had talked to Armando Queiroz, its current director. The strength, resilience and fine features of Armando and his work have served the institution well. The work of Keyla Sobral and that of Orlando Maneschy are particularly interesting in that they necessarily start out from an Amazonian setting, with its cosmic vision and imaginary world, but end up dealing more directly with issues that concern the whole of humanity. The exhibition also features a number of photographs by Guy Veloso, the only artist contributing to this show whom I did not meet in Pará, whose work is important in so far as it builds up within the exhibition space something of what I experienced in Belém.
 

Generous Horizon is the first show to be staged as part of a project in which Luciana Caravello Arte Contemporânea will each year invite a different curator to select contemporary art works from a Brazilian State that lies outside of the Rio-São Paulo axis. In view of the size and complexity of the work produced in Pará, I decided that this exhibition should reflect an initial experience of working in the location. Generous Horizon also provided me with new insights by showing the extent to which a curator who undertakes solid research can change the whole art system of a city.Generous Horizon is the result and also a beginning of a new drawing.

Bernardo Mosqueira

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Maurizio Cattelan

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