quarta-feira, 8 de abril de 2015

Conversando Sobre Arte Entrevistado Luiz Mauro, Goiânia










Quem é Luiz Mauro? 
Por força do destino nasci em Goiânia. Eu venho de família simples e de origem rural. Meu pai, filho de um casal do interior de Minas Gerais e minha mãe filha de um alemão com uma brasileira, que também era do campo. Eles se conheceram em Damolândia, uma pequena cidade cortada por morros e pastos, onde há uma pequena igreja, Paróquia Santo Antonio, que abriga as festas religiosas, que são muito ricas de cultural popular. Acho que essa referência barroca marcou minha primeira formação. Como conta meu pai, era para eu ter nascido em Damolândia, mas depois que minha mãe estava há dois dias em trabalho de parto, a parteira disse a ele “procure um hospital na capital para tentar salvar a vida de sua esposa”, o que fez com que eu nascesse em um hospital de Goiânia. Ainda na infância, minha família se mudou para Inhumas, mais próxima de Goiânia, onde morei até o final de 2004. Lá me casei a primeira vez e tive uma filha, Maria Clara. Atualmente moro em Goiânia, estou casado com a jornalista Ana Maria Morais, com quem tenho uma filha, Sofia.

Como a arte entrou em sua vida?
Na minha família, a única manifestação de algo parecido com arte vem do meu avô materno Schmit Pessoa, que era artesão, fazia bancos, cadeiras e caixões com pouquíssimos equipamentos. Tive também uma tia materna, Maria Eugênia, que era professora e me incentivou muito no interesse pelo conhecimento e me apoiou quando percebeu em mim o gosto pela arte. Foi a principal pessoa a me incentivar. A arte surgiu naturalmente em minha vida, ainda muito garoto, por vontade de encontrar outro sentido nas coisas e dialogar com o mundo à minha volta. Desde criança, eu já desenhava pelas paredes e portas, ou em qualquer suporte que aparecesse no meu caminho. Somente por volta dos 13 anos comecei a entender que aquilo era arte de forma muito espontânea. E a partir desse momento não tive dúvida, a arte entrou na minha vida de uma forma definitiva, era o que mais me interessava e no que eu tinha mais facilidade em me concentrar, ela transformou o meu mundo. Tive meu primeiro ateliê, dividido com um grupo de amigos, todos jovens, na cidade de Inhumas, aos 15 anos. Trabalhávamos juntos e falávamos sobre arte praticamente o tempo todo. Esse espaço coletivo foi decisivo para o meu desenvolvimento. Era mantido pela Prefeitura e incentivou muito a produção local. Esse ateliê coletivo tornou real a possibilidade de fazer arte na vida dos aspirantes a artistas.

Qual foi sua formação artística?
Sou autodidata, como grande parte dos artistas da minha geração e também da geração seguinte. Minha formação se deu no convívio com outros artistas e pelo fazer diário no ateliê. Comecei a fazer arte nos anos 80, mas o que se produzia aqui em Goiás era bastante voltado para o modernismo e para a arte regional, com poucas exceções, como a de Siron Franco, Carlos Sena, Cléber Gouveia, Selma Parreira e outros poucos. Com isso, logo passei a me interessar mais pelo que se produzia fora, que via em salões e galerias, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. E quis também realizar um trabalho que não falasse somente daqui, o meu pensamento se desenvolvia de uma forma mais universal. Nesta época, o Brasil tinha as revistas Galeria e Guia das Artes, que eram muito bem distribuídas, mesmo no interior eu conseguia encontra-las em banca de revistas. Era uma ótima forma de me manter informado sobre o que se produzia no Brasil e no exterior.

Que artistas influenciaram sua obra?
Quando comecei a fazer arte, ainda muito garoto, meu trabalho teve influência do era produzido no Centro-Oeste e principalmente da arte mato-grossense. Mas a partir de 87 consegui desenvolver uma linguagem própria. Hoje, considero que influências fazem parte da formação do pensamento de cada indivíduo e para mim elas não vieram somente das artes visuais. Sinto a presença de Edgar Allan Poe e Tim Burton em minha produção, por exemplo. Percebo também tendo sido tão influenciado por Iberê Camargo e De Chirico quanto por Duchamp, cada um a seu modo. As fotografias que Richard Serra realiza de suas obras, sempre em preto e branco, me ajudaram a entender a luz que busco em meu trabalho.  

Como você descreve seu trabalho?          
Gosto muito de explorar a comunicação entre suportes diferentes. Às vezes trabalho com objeto e fotografia, mas sempre tive um interesse especial pela pintura e pelo desenho. O trabalho que estou realizando atualmente é feito a partir de fotografia, mas o que me importa é trazer a abordagem para o campo da pintura. Meu processo trafega pela história da arte e também pela imersão que vivo no dia a dia no ateliê. A escolha dos temas e assuntos que abordo em meu trabalho é sempre feita a partir de questões que me perseguem de alguma forma. Com isso, faço uma conexão da subjetividade com a história da arte. Acredito que minhas obras revelam o longo tempo de solidão no ateliê. A única presença humana desta série de desenhos é a do fotógrafo que registra o ambiente.
Outra característica que marca toda a minha produção é a associação de materiais. Nos desenhos atuais, estou trabalhando com nanquim, que me permite explorar a fluidez da luz. Trabalhei muito tempo somente com o nanquim, mas só fui conseguir obter o resultado que buscava, quando o associei à tinta a óleo, que trouxe mais força e densidade à pintura. Considero a obra que venho produzindo ultimamente como a mais elaborada que já realizei, envolvendo várias etapas. Antes de o desenho chegar à mesa do ateliê, já foram alguns dias em pesquisa e adequação dessas imagens para interpretação. Em alguns desses desenhos cheguei a trabalhar por mais de três meses.

Qual o significado de sua indicação para o Prêmio Pipa 2015?
Considero o Prêmio Pipa um dos dois mais importantes da arte brasileira. Para mim, a indicação ao Prêmio Pipa representa não somente a visibilidade da minha obra, mas demonstra também a luta pelo desenvolvimento da arte goiana. Percebemos o desenvolvimento da crítica, com a pesquisa e elaboração de textos e curadorias de Carlos Sena e Divino Sobral sobre o trabalho da maioria dos artistas daqui. Há alguns anos, não tínhamos essa forma de estudo sobre a nossa produção. Isso incentiva os artistas e também promove o acesso de estudiosos de outros estados. Eu só estou no Pipa graças à indicação de uma pessoa que estuda e escreve há muito tempo sobre a produção do Centro-Oeste, que é a Aline Figueiredo. Tenho esta indicação como mais uma oportunidade de estabelecer diálogo entre minha produção com a de artistas de todo o País.

Você poderia falar da sua exposição em Paris?
Veja bem, quando surgiu a possibilidade dessa exposição acontecer no Rio de Janeiro, por meio da parceria com Leonel Kaz, eu achei excelente. Mas a exposição na MEP, antes mesmo de ser inaugurada, já superou todas as minhas expectativas. A MEP faz parte da rota dos grandes museus parisienses, está próxima tanto do Louvre quanto do Georges Pompidou, locais por onde passam muitos curadores, críticos de arte, artistas e todo o público interessado. Um dos motivos mais fortes para ter surgido essa oportunidade é o grande interesse que o curador geral Jean-Luc Monterosso tem pela arte contemporânea brasileira, já tendo levado obras de vários artistas, como Rodrigo Braga, Miguel Rio Branco, Claudia Andujar, Vicente Melo, entre outros. A mostra Gênesis, de Sebastião Salgado, teve sua estreia também na MEP.
Esta vai ser a primeira vez que vou montar o conjunto desses trabalhos que venho realizando desde 2012, o que vai dar outro sentido a esta série de obras. Individualmente, os trabalhos falam de um tempo e espaço, instalados no mesmo espaço expositivo vai acontecer uma comunicação entre tempos e espaços diferentes.
Além disso, acredito que o diálogo que minha obra vai estabelecer nesse momento com a fotografia trará também novos significados à minha produção. Serão seis individuais simultâneas e eu sou o único a lidar com desenho e pintura.

Você poderia falar sobre o desenvolvimento da arte contemporânea em Goiânia?
Goiás passa por um dos melhores momentos na arte, com nomes como Divino Sobral, Enauro de Castro, Marcelo Solá, Pitágoras Lopes, Rodrigo Godá, Edney Antunes, que estão produzindo há mais de duas décadas, sempre renovando suas linguagens, sem perder a força e a sintonia com o seu tempo. Temos também o mais destacado grupo de performance do País, o grupo Empreza, e novíssimos artistas, com uma produção potente e provocadora, trabalhando com diferentes suportes e mídias e já incluídos em diversas curadorias fora daqui, como Dalton Paula, Yara de Pina, Evandro Soares, Helô Sanvoy, Glayson Arcanjo, Santiago Selon e Bicicleta sem freio.

É possível viver de arte no Brasil?
A respeito dessa questão, prefiro falar do ponto de vista regional, mesmo não dependendo somente do mercado goiano. Nos anos 80 e início dos 90 Goiás teve um mercado de arte bastante ativo que consumia não somente o que era produzido aqui. Era possível ver na então maior galeria da cidade, Potrich Galeria, obras de Leonilson, Daniel Senise, Leda Catunda, Luiz Hermano, Marcos Coelho Benjamim, Cristina Canale e até Hélio Oiticica. A situação hoje é um pouco diferente. O mercado local não consegue acompanhar a arte contemporânea produzida aqui, a não ser por alguns poucos colecionadores. Atualmente, em Goiás, clientes que compram arte pela arte são cada vez mais raros. Eu vejo que o artista que depende do mercado local corre grandes riscos. No entanto, está comprovado que é possível, sim, viver de arte. É só observar com atenção a produção contemporânea brasileira. Para mim, a arte ultrapassa a questão do mercado, ela faz parte da minha vida, de um jeito ou de outro, vou produzir sempre. É o maior luxo que cultivo.

Quais são seus planos para o futuro?
Meus planos, depois da exposição em Paris, é continuar a realizar os desenhos de ateliês. Com a lentidão do processo, ainda não consegui fazer alguns ambientes que quero muito que estejam na mostra da Galeria Athena Contemporânea. Mesmo não sabendo até que etapa chegarei no Prêmio Pipa, já abracei o projeto e pretendo realizar um conjunto de obras especialmente para a mostra. Outro compromisso que tenho é com a mostra itinerante Triangulações, que tem como curadora geral Marília Panitz e será realizada em Goiânia, Brasília e Salvador, contando com um curador em cada uma dessas cidades.  Enfim, meus planos é fazer o que mais gosto: continuar o meu dia a dia no ateliê.



Ateliê Richard Serra nº 1. 2013. Nanquim e óleo sobre papel. 35 x 44 cm
Ateliê Paula Rêgo nº 1. 2013. Nanquim e óleo sobre papel. 56 x 76 cm


Ateliê Lygia Clark nº 1. 2014. nanquim e óleo sobre papel. 56 x 76 cm

Ateliê Irving Penn nº 1. 2015. Nanquim e óleo sobre papel. 56 x 76 cm.
 Ateliê Georg Baselitz nº1. 2015. Nanquim e óleo sobre papel.112 x 152 cm.


Ateliê Benjamin Johnston nº 1.2015. Nanquim e óleo sobre papel. 112 x 152 cm.

Ateliê Anish Kapoor nº 1. 2015. Nanquim e óleo sobre papel. 56 x 76 cm.

 Ateliê Georgia O'Keef nº 1. 2014. Nanquim e óleo sobre papel. 56 x 76 cm.


Ateliê Renoir nº 2. 2014. Nanquim e óleo sobre papel. 56 x 76 cm.

Descanso Perdido. 2012. Cama em metal, espelho e caixa de acrílico. Alt. 17 x 34 x 19 cm.



Em Nome do Pai. 2011/2012. Cama e berço em metal e caixa de acrílico. 15x23x16,5cm.










LUIZ MAURO – ENTRE A ESCURIDÃO E A LUZ

O ateliê é assunto da série de trabalhos que o artista goiano Luiz Mauro tem realizado nos últimos três anos. São obras que representam os locais de produção de obras de arte, ambientes geralmente isolados tidos como mundos particulares onde os artistas gestam, concebem e executam  suas criações. Não é o seu próprio ateliê que ele representa, mas sim ateliês de importantes artistas da História da Arte Moderna e Contemporânea, cobrindo um arco de mais de um século sobre a documentação fotográfica dos ateliês de artistas, iniciada no século XIX durante o impressionismo.
O procedimento de trabalho de Luiz Mauro implica em  pesquisa, arquivamento e seleção de fotografias de ateliês, publicadas em diferentes veículos de grande  difusão como livros, revistas e internet. São imagens cujas autorias geralmente não são mencionadas e que participam do circuito de arte como instrumentos de divulgação e de fetichização dos artistas, alimentando a curiosidade pública sobre a privacidade dos ateliês. Luiz Mauro seleciona fotografias documentais dos espaços arrumados e vivenciados pelos artistas em seus respectivos cotidianos: imagens reveladoras das particularidades da arquitetura como mezanino, janelas, assoalhos;  que fixam as disposições dos mobiliários e imortalizam as posições de objetos pessoais, de alguns instrumentos de trabalho e de modelos dispostos aqui e ali;  que registram  obras em processo ou acumuladas contra a parede ou displicentemente exibidas nos ateliês –  fotografados sem as presenças dos artistas ou de quaisquer outras pessoas. Existem apenas as evidências de pertencimento à August Renoir, Claude Monet, Mark Rothko, Georgia Okeefe, Andy Warhol, Roy Lichtenstein, Richard Serra, Van Dongen, Cy Twombly, Lucian Freud, Paula Rego, Georg Bazelitz e Lygia Clark. Restam somente seus vestígios filtrados pelos olhares dos diferentes fotógrafos.
Na escolha das fotografias Luiz Mauro tem ainda como critério o alto contraste e as manifestações plásticas da luz entre o preto e o branco.  A fotografia é imagem fixada pela luz. E é justamente a representação da luz que interessa a Luiz Mauro ao realizar a transposição das imagens fotográficas  para outro suporte, com outros meios e com uma linguagem sem lugar  que transita entre desenho e pintura.  A maioria das imagens é reproduzida sem auxílio de projeção (somente agora, com o Ateliê de Bazelitz (2014), é que o artista passa a usar tal recurso), o que provoca marcas singulares na interpretação formal dada à imagem apropriada: teatralidade marcada pela perspectiva dos enquadramentos, pelo ritmo das linhas que definem os espaços, pelas bordas escurecidas dos planos, pela oposição marcada entre a escuridão e a luz que confere certa propriedade barroca às obras – propriedade esta que não se encontra nas matrizes fotográficas.
Sobre o suporte o artista aplica disciplinadamente inúmeras e sucessivas camadas de tintas de naturezas bastante diversas: primeiro a liquidez do nanquim que estrutura o desenho e define as zonas de luz e sombra, depois a densidade do óleo que satura o preto e marca o gesto do pintor na fatura da obra. Associadas criam gamas de texturas delicadas, vastas nuances de cinza e de preto que se aprofundam na escuridão mais completa. Parece que é sempre noite tamanha a gravidade  e a importância que o preto tem nos trabalhos, enfatizando ainda mais o contraponto da luz que surge em meio à escuridão – definindo o espaço – proveniente de fontes diferentes: filtrada por vidraças e janelas, vazada por uma porta aberta ou irradiada de fontes artificiais que não podem ser vistas. Como nas técnicas de nanquim e aquarela a claridade é obtida pela alvura do suporte gradualmente preservada em áreas distintas da representação.
Apesar de Luiz Mauro utilizar uma imagem de segunda geração fundada na fotografia, o resultado de seu processo se revela, ao fim, em nada fotográfico. São visíveis todos os embates com os meios bem como os procedimentos empregados para a constituição das obras. Seu objetivo não é reproduzir literalmente a fotografia e sim utilizá-la como matriz para a construção de uma obra que parte do registro documental para atingir o estado poético repleto de melancolia, e que exibe em si mesma seu modo de fatura cambiante entre desenho e pintura e sua existência autônoma da fotografia. Penetrando nas trevas em busca da luz, Luiz Mauro interioriza e subjetiva as imagens dos ateliês à procura da energia criadora que se manifesta nesses espaços onde, solitariamente, os artistas inventam e/ou refazem as representações de mundo.
Divino Sobral
Setembro de 2014

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