quinta-feira, 26 de março de 2015

O Grande Pinheiro de Paul Cézanne por Guilherme Ginane


O Grande Pinheiro - Paul Cézanne por Guilherme Ginane





No livro Chatting with Henri Matisse: The Lost 1941 Interview (1).  Matisse cita na entrevista a Pierre Couthion, que certa vez Pissarro lhe disse: « Cézanne é um pintor clássico, que jamais fez um cinza puro. E vou além, ele pintou por toda sua vida o mesmo quadro. Ele não fez sol. Ele não fez paisagens obscuras. Ele sempre procurou a mesma coisa • » e continua « Eu descubro todo dia que qualquer tela de Cézanne tem uma novidade particular. Tem! E é suficiente para que eu saiba que um quadro de Cézanne está há cem quilômetros de mim ••»

E foi esta distância quilométrica, citada por Pissarro, que eu tive frente ao O Grande Pinheiro de Cézanne.

Por ser uma pintura do acervo do MASP, de certa maneira eu já tinha uma « intimidade » com ela. Mas é nesse caminho que ainda me identifico ainda mais com as palavras de Pissarro para Matisse. Nesta visita, O Grande Pinheiro me paralisou por, pelo menos, trinta minutos frente a ele. A novidade particular em uma pintura de Cézanne me foi arrebatadora. Era como se tivesse a minha frente uma centrifuga, que paradoxalmente, possui sua força na forma estática. Cézanne equilibra as áreas usando as tonalidades de verdes que é sugerido pelas plantas e alguns pontos de vermelho quase marrons - também sugerido pela assunto pintado - o pintor não parece usar as cores a sua revelia. O céu azul, ocupa as áreas inferiores do horizonte, fazendo com que eu perca a noção do que é contorno e o que é conteúdo. Há um centro de força que não se fixa no tronco central da grande árvore. Não é sol, como também fala Pissarro. Percebo que há um pequeno círculo no meio da tela, ao qual, ao meu ver, se equilibra todo esforço incansável de Cézanne. No texto explicativo do museu, é sugerido que no tronco está a força de sustentação do quadro. Sim, poderia até ser, como me era até então, mas hoje, vejo nele (no tronco) somente parte constitutiva de toda força que Cézanne pôs na tela. Com olhos atentos, podemos ver tanto uma paisagem de nuvens carregadas do holandês Ruysdael, ou os movimentos circulares de matriz abstrata de Cy Twombly (exemplos que dão conta da atemporalidade de Cézanne). Ambos exemplos não possuem uma estrutura vertical, onde seus sentidos seriam o mesmo do O Grande Pinheiro. Repito: afirmar que o ponto crucial se dá no tronco da árvore é também afirmar que o equilíbrio do quadro estaria na construção de uma árvore. Mas Cézanne parece buscar a solidez da pintura na própria pintura, além do tema. As linhas diagonais que cortam o primeiro plano, afirmam ainda mais a fraqueza com que estrutura da árvore passou a possuir ao meu novo olhar. Me pego até exagerando em falar tanto do assunto que foi pintado - a árvore-, porque, Cézanne, apesar de fascínio pelas lugares que tinha como tema, quando os pintava tinha um afastamento e o tema passava a ser somente o motivo do desenvolvimento da pintura.

Mas o Pinheiro - o tema - foi a chave para tudo acontecer em mim, ver a árvore posta para voar, me revelou muitos caminhos. Caminhos que claramente podemos ver na história da arte adiante do mestre. Amanhã, posso voltar ao MASP e possivelmente em um novo encontro com o O Grande Pinheiro posso ter uma nova percepção sobre o que escrevi acima e tudo voar como a árvore voou aos meus olhos. Mas o que fica aqui é o impacto que reverbera do O Grande Pinheiro, que como falei, possuía certa intimidade comigo, e agora não sei se me é ainda mais conhecido ou um grande desconhecido.



1 - Chatting with Henri Matisse: The Lost 1941 Interview - Tate Publishing in association with The Getty Research Institute.

• « Cézanne est um peintre classique, qui n’a jamais fait que de gris. Il a surtout peint toute sa vie la même tableau. Il n’a pás faie soleil. Il n’a faie que de temps gris. Il a tourjour recherché la même chose. »

•• « Je constatai tourjour que chaque tableau de Cézanne avais une nouveauté particuliere. Tenez! il suffirait que j’apprenne qu’un tableau de Cézanne est a cent kilomètres de moi »





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Maurizio Cattelan

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