quarta-feira, 4 de março de 2015

Conversando sobre Arte entrevistado Marco Giacomelli.




Quem é Marco Giacomelli? .
 Nasci em 1976, sou natural de Florianópolis, graduado em Administração de Empresas. Trabalho na Giacomelli Imóveis, uma empresa familiar fundada por meu pai. Sou casado com Michele e pai de Antonio de 2 anos. Antonio, meu pai, teve uma infância simples. Filho de ferreiro, com muito trabalho, cresceu e se tornou um empresário bem sucedido. Ele me proporcionou uma vida confortável, estudei em bons colégios e com 17 anos pude fazer intercâmbio numa cidade do interior dos EUA. Em contrapartida, tive uma educação católica, rígida e controladora, que transformou um menino hiperativo em um tímido adolescente. O primeiro contato com a fotografia foi em 98, eu estudava engenharia civil na Universidade Federal de Santa Catarina e estava sem aulas devido a uma greve. Como pratico surf, consegui reunir os fundos necessários para uma viagem à Indonésia. Peguei emprestada a câmera profissional de minha irmã para registrar toda viagem. O surf, além de me conectar com a natureza, contribuiu muito para meu desenvolvimento como pessoa. O surfista aventureiro sempre busca ondas perfeitas em lugares ainda pouco explorados. Nesse primeiro contato com o oriente, e com costumes peculiares de pequenos vilarejos, comecei a questionar muito do que me havia sido imposto de certo e errado. As viagens acabaram tornando-se uma obsessão. Voltei para Indonésia nos anos seguintes. De mochilão, explorei diversos países do sudeste asiático e Europa. Todo dinheiro que ganhava trabalhando usava para continuar viajando. Fui muitas vezes de carro ao Chile, eram viagens intensas mas econômicas, que contribuíram muito para minha formação. Paralelo ao surf, iniciei um trabalho de fotografia documental, queria registrar todo aquele mundo novo que surgia aos meus olhos. E aos poucos fui trocando as tele objetivas pela grande angular encarando minha timidez ao convencer um desconhecido a posar para minha câmera. E foi em uma viagem que fiz com dois amigos fotógrafos ao interior da Bolívia que percebi que a adrenalina que sentia com a fotografia documental estava mais vinculada à conquista, por ser aceito por uma pessoa que eu não conhecia. Essa compreensão me fez gradativamente perder a timidez e compreender a importância das trocas nas relações. Questionei o processo egoísta do fotógrafo documental que tira a foto sem deixar nada em troca. Minha experiência na Bolívia ensinou-me a importância de termos algo para trocar com o assunto, como: tempo, uma conversa amigável, experiências pessoais, ou até mesmo dinheiro. O aprendizado na Bolivia foi um ponto de virada para o inicio de meu trabalho com a natureza. Penso que a existência inicia com a percepção, e o significado é um espelho do que somos, ou na maioria das vezes do que achamos que somos. Mergulhei no estudo sobre filosofia ocidental, nos conceitos dos movimentos artísticos que me interessavam e na experimentação técnica de laboratório fotográfico. Logo iniciei o uso de câmeras de grande formato. A natureza tomou o lugar das pessoas.

 Como a arte entrou em sua vida? Qual foi sua formação artística? Que artistas influenciam em sua obra?
Não tive formação acadêmica em artes. Participei de muitas palestras, oficinas, cursos e workshops, mas sempre estive mais preocupado em entender a relação e os significados que eu dava a tudo isso. Em determinado momento percebi que tentar entender só me afastava as possibilidades, e explicar me limitava. Para seguir adiante precisava parar de buscar e conectar meus sentimentos e intuições. Quando alguém me pergunta se eu sou fotógrafo fico perdido e não sei responder. Acho que já fui fotógrafo e poderia me definir melhor como alguém curioso, insanamente intenso e honesto com meu trabalho. Não converso muito sobre fotografia, nem quando estou com meus amigos. Em minha fase de experimentação me identificava com questionamentos de artistas do movimento minimalista e pós-minimalista, em especial do americano Richard Serra. Nesta época eu gostava de câmeras, arrematava muito equipamento usado no ebay, testava e vendia, isso durou até encontrar o que melhor se encaixava com meu processo de captação das imagens. Nessa época a saída de campo era muito importante em meu trabalho e o equipamento tinha influencia no resultado final. O uso da báscula traseira, da câmera de grande formato, me possibilitava construir a imagem intervindo na forma dos elementos da cena. Procurava ir sozinho e ficava horas atrás de um pano preto até o inicio de uma forte excitação pela percepção imaginária de vazio e intensa movimentação dos elementos em sua relação com o espaço. Representado nas formas simples da própria natureza. Só saía em dias sem nuvens e com luz de baixo contraste, criava o contraste na revelação, tinha todo o processo técnico profundamente definido para não atrapalhar minha observação e intuição. Guiado nesses sentimentos, iniciava em meu trabalho um distanciamento do conteúdo com a remoção do contexto para o descobrimento da síntese. Consequentemente, o projeto FPOLIS abria avenidas para me aventurar em um novo caminho mais abstrato. Em 2012, conheci o artista canadense Scott Macleay e participei de seu curso para desenvolvimento de projetos nas artes contemporâneas e tecnológicas. Através de Scott tive contato com o trabalho de diferentes artistas e movimentos artísticos contemporâneos. Performáticos, multimídia, como John Cage, Bill Violla, Marina Abramovich, Pina Bausch, Gerhard Richter, dentre outros, o conteúdo do curso somado a essas novas referencias me ajudaram a desconstruir minha relação com a fotografia. Scott instigou-me a confrontar meus anjos e demônios introduzindo novos aspectos psicológicos ao meu trabalho. Em nossos encontros, aprimorei a parte técnica para domínio e conhecimento da importância nas decisões para escolhas vinculadas a cada etapa de todo processo. Tenho grande admiração por sua integridade como artista e pela forte experimentação envolvidos no processo do seu trabalho. Scott MacLeay colabora na direção artística de meus projetos atuais. Dou muita importância para intensidade de tudo que vivenciei antes de entrar de cabeça nesse mundo, principalmente nas inúmeras situações difíceis, inseridas num contexto cultural oposto ao meu. Acredito que essa bagagem multicultural proporcionou-me desprendimento para mergulhar em diferentes idéias com maior abertura para contextualizar com meu próprio conteúdo. Consigo separar o Marco e o artista e com isso tenho mais leveza para experimentar e depois voltar a seguir meu caminho.

Que diferença você faz entre um fotógrafo e um fotógrafo/artista?
Eu acho os fotógrafos, em sua maioria, muito ligados ao passado, costumam apoiar-se a critérios técnicos para validar seu trabalho. As pessoas confundem muito na fotografia o que é interpretar e o que é compor. Na música isso é muito claro. A maioria dos trabalhos de fotógrafos famosos é de interpretação e essa confusão de conceitos só engessa o desenvolvimento artístico dos iniciantes. Por isso prefiro a idéia de que existem fotógrafos, e existem artistas que usam a fotografia em seu processo de criação. Talvez a diferença mais significante entre ambos é que um utiliza a máquina fotográfica para dizer algo e o outro para propor questionamentos. Fotógrafos dão muito crédito a estética e a trabalhos feitos com equipamento analógico, artistas estão mais ligados ao processo sendo que o equipamento não é um fim e sim um meio. Não estou diminuindo o trabalho de ninguém, e nem apontando que um é melhor que outro, apenas acho importante que essas diferenças sejam claras.

Qual a importância do photoshop nos dias de hoje?
 O photoshop é o software mais conhecido e usado para o tratamento de imagens digitais. Injustamente a ferramenta acabou virando verbo para descrever que uma imagem foi manipulada. Em minha opinião a manipulação da imagem acontece antes mesmo de ela ser concebida. Dentre vários motivos para essa afirmação, a simples decisão de ocultar um elemento no momento que estamos olhando no visor da câmera já é motivo para afirmar que houve uma manipulação da realidade. Na fotografia, a materialização da idéia é representada através de uma cadeia de procedimentos na qual cada etapa do processo é o próprio limite para sua representação. Uma obra com má qualidade técnica pode não gerar a provocação desejada, principalmente quando sugestões de aspectos psicológicos estão envolvidas. O artista precisa ter uma compreensão técnica profunda para decidir a ferramenta correta, e nem sempre a ferramenta mais eficaz para certos tratamentos no computador é o photoshop. Em meu projeto sobre Águas Incertas usei uma câmera digital compacta de bolso, que tinha pouca resolução. Eu precisava ampliar muito algumas imagens e para isso precisei de softwares específicos que interferem menos no algoritmo do arquivo da imagem para fazer uma grande interpolação. Outras decisões conscientes foram tomadas, como a escolha de um papel com mais textura para tornar a imagem mais tátil. Precisamos entender que a parte técnica no trabalho deve ser consciente para potencializar a idéia, mas ela nunca deve ser a razão do trabalho.

Como você descreve seu trabalho?
Meu trabalho é abstrato, intangível. Ele não possui um conteúdo narrativo. Em meu processo atual tenho fotografado cada vez menos, a captação e composição das imagens são trabalhadas separadamente. Acabo colecionando imagens e elas vão sendo descobertas quando crio a composição como uma aventura, guiando-me a um mundo desconhecido, representacional. Separo e junto imagens usando decisões estéticas que me provocam aspectos psicológicos. E o envolvimento emocional que tenho no momento da captação nem sempre é o mesmo de quando as estou compondo. Meu interesse pela natureza e pela arte é inseparável e insaciável. Nos dois últimos anos tenho dedicado meus esforços no desenvolvimento de processos que falam de meus pensamentos e sentimentos sobre o ambiente natural que me rodeia cotidianamente, abandonando a abordagem que consiste em representar este ambiente visualmente em duas dimensões. Isto levou-me a explorar várias técnicas, incluindo a estratificação das várias camadas e a justaposição de várias imagens de uma forma que traduz a intimidade e a força da minha relação com a natureza e o poder da dualidade força / vulnerabilidade. À medida que o trabalho progredia, comecei a entender que dar prioridade ao processo inevitavelmente revela tanto sobre nós, quanto sobre nossa relação com o assunto. Comecei a sentir o verdadeiro poder do diálogo em oposição ao monólogo e este por sua vez, levou-me a uma compreensão da importância de avançar através da formulação de questões conceituais cada vez mais profundas em vez de tentar fornecer respostas descritivas. Nos últimos dois anos dediquei meu trabalho na relação pessoal com o oceano. As implicações práticas no quadro conceitual que adotei me levaram a captar o movimento sobre o mar por distintas formas e paletas de cores. Fotografei diferentes horários e tipos de luz por dias seguidos. Para compor, imprimi todas as imagens em tamanho reduzido e as separei por grupos de cores. O passo seguinte foi de relacioná-las conceitualmente agrupando por dípticos, trípticos e polípticos. Colava os resultados sobre uma folha branca. Surgiram desse processo 112 conjuntos de imagens, resumidos por 60 conjuntos e 3 livros de autor. E assim formou-se a idéia central do projeto Sobre Águas Incertas. E esta foi a maneira que escolhi para expressar minha relação com o mar ao publico. A exposição é representada pela transposição de meus pensamentos e sentimentos em linguagem visual concebida e apresentada de maneira a provocar pensamentos e sentimentos dos espectadores, criando assim um círculo de diálogo entre o autor, o trabalho e o público. Fala de minha relação com o mar simultaneamente de maneira ambígua e abstrata, mas verdadeira e genuína. 

Quais são seus planos para o futuro?
 Pretendo fazer uma grande exposição individual, e levar a outras cidades do Brasil, unindo meus 3 projetos: Sobre Águas Incertas, Sobre Águas Instáveis e Sobre Águas Revoltas. A exposição é composta por fotografias apresentadas tanto nas paredes, como no piso (sobre bases de 30 cm de altura). Elas serão espacialmente organizadas para provocar uma reflexão sobre sua própria natureza e a inter-relação entre as mesmas. Na mesma exposição, pretendo apresentar 3 livros de autor, que sugerem a leitura das imagens de forma não linear, e a difusão de duas trilhas sonoras, através de soundstubes (campo de som unidirecional que permite a difusão do som de forma localizada em um ponto no espaço), que lado a lado oferecerão ao público a oportunidade de explorar a perspectiva, expandindo as possibilidades por trazer duas linguagens - uma visual, outra áudio - sobre o mesmo assunto a partir de dois pontos de vistas diferentes - um complementar, o outro ambíguo e incerto em intenção. A diferença nas experiências sublinham a importância de encontros inesperados e experiências casuais para determinar a nossa interpretação de situações cotidianas. Estou também trabalhando em mais dois projetos e pretendo finalizá-los ainda este ano. 

É possível viver de arte no Brasil? Como você vê o desenvolvimento da arte contemporânea em Florianópolis? 
Se tendo um segundo trabalho já é difícil, viver apenas com o trabalho de arte, no meu ponto de vista, é quase impossível. No Brasil, as pessoas não tem o hábito de adquirir arte como investimento, principalmente de jovens artistas que estão apenas começando, e em Florianópolis isso é ainda mais evidente. É enorme a quantidade de trabalho educacional que precisa ser feito com o público, e com jovens artistas. Há um enorme potencial aqui no Brasil, mas é amplamente ignorado pelos órgãos governamentais, que seriam os responsáveis pelo desenvolvimento e a formação cultural em seu sistema educacional de ensino, mas que não prioriza a arte como uma valiosa contribuição para qualidade de vida. No Brasil, os materiais para impressão e montagem de uma imagem são muito caros. As imagens acabam não saindo do computador e isso só dificulta a experimentação desse processo. Não existe espaço para erros, mesmo sendo os erros uma das variáveis mais importantes para podermos avançar ao descobrir novos caminhos. Eu vejo pessoas com muito talento desistindo por falta de oportunidades. 

O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria? 
Acho importante ter uma galeria séria cuidando de mercados específicos, mas também penso ser importante ter uma representação nacional e internacional, eventualmente ambas off-line e online. É igualmente importante ter alguém que cuide de seus interesses com a imprensa entendendo seu trabalho intimamente. Podendo, essa pessoa, colaborar no desenvolvimento dos projetos para curto e longo prazo. Atualmente, há uma infinidade de direções de desenvolvimento e uma multidão de pessoas buscando colaborar em cada um deles. Por esta razão, eu acho que é importante ter um agente que pode defender seus interesses e promover seu trabalho em todas essas áreas. Hoje penso que ter um time confiável no lugar é essencial. Eu trabalho com Scott MacLeay no aspecto do desenvolvimento artístico de meus projetos e com a ECM2ART agência inclinada ao lado comercial. Estaremos estudando opções de galerias tanto no Brasil e no exterior no ano que vem. 


01 - sobre águas incertas, a chave, 1, 2013, 156x100cm 

02 - sobre águas incertas, rastros, 4, 2013, 72,5x100cm 03.


03 - sobre águas incertas, entre mares, 3, 2013, 123x80cm .


4, sobre as águas incertas, vias turbulentas, 4, 2013 100x110cm.

05 - sobre águas instáveis, evolução V, variação 4, 2014, 100x157cm



06 - sobre águas revoltas, gêmeas II, painel 1 & 2, 2014, 178x223cm .



07 - sobre águas revoltas, gêmeas VII, painel 1 & 2, 2014, 129x110cm.


08 - bamboo, outras perspectivas, 2014, projeto em andamento.



09 - áreas ambíguas, 2014, projeto em andamento.


10 - áreas ambíguas, 2015, projeto em andamento

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Maurizio Cattelan

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