sábado, 7 de março de 2015

Andréa Facchini Alguma Coisa Atravessa pelos Poros. Curadoria e texto de Marisa Flórido.




“O mais profundo é a pele”. A célebre frase de Paul Valéry não descreveria melhor as telas de Andréa Facchini: não há como se inscrever na epiderme do mundo sem esse roçar de peles, sem enfrentar seu atrito, suas falhas e dobras, suas contenções e extravasamentos. A pele-tela é o limite que separaria mundos, o raso e o profundo, a ilusão e a semelhança, o transparente e o opaco, o visível e o invisível, a confissão e o segredo, a janela-espelho e o plano.

Se a pele é porosa, o plano é opaco? A superfície material do quadro é seu limite e fronteira, a pintura enquanto coisa. Mas a opacidade é também interrupção e síncope na representação: algo se apresenta e reflexiona sobre si mesmo, algo questiona seu funcionamento. Como nas reflexões de Louis Marin: na transparência da janela-espelho pictórica, transita-se o outro, representando-o, “aqui está o outro presente em sua ausência”; na opacidade reflexiva, “aqui estou eu apresentando-me no ato de representar algo ou alguém”.  Da opacidade se extraem as estratégias, o funcionamento e o poder das obras? É a relação das obras com as condições limítrofes de sua possibilidade?

Mas tudo se confunde aqui. A pele é também opaca; o plano é, todavia, poroso. À artista, talvez interesse o movimento misterioso desse aparecer e desaparecer de algo para o olhar. É essa desmedida do visível, esse ponto cego, que dobra e se desdobra em cenas cotidianas e pequenos delírios, entre a minúcia da descrição e o frenesi das fabulações, entre um mundo que se apresenta por enquanto e os outros infinitos, imaginários e potenciais, que o atravessam.  Por isso não raro vemos algo brotando pelos poros de suas telas, no transcurso ainda incompleto desse emergir: um edifício inacabado, um rosto que aparece, uma trança suspensa. Não raro vemos, por outro lado, o transbordamento dessa pele-plano em panos, pelos, florestas. Entre a asfixia e a desopressão, nas superfícies drapeadas, o que vemos são as ondulações da pele, as dobras de um corpo pictórico que transborda, debatendo-se nas amarras e coerções de molduras físicas e abstratas. Porque o mundo visível é apenas um traço que desfila, ante olhos ávidos e assombrados, seu movimento incessante; e o homem, frágil posto que nele se distende e se retrai, excêntrico e errante.

É dessa tensão que emerge a pintura tátil de Andréa Facchini, como um fluxo incontido que precisa explodir, à vertigem, cores, peles e poros. Que necessita atravessar a superfície para continuar em um próximo quadro, em um próximo plano, na contiguidade e atrito com a pele ao lado. Uma extensão que se expande em curvas e turbilhões; uma sensualidade carnal que envolve e expulsa. Mas, sobretudo, é dessa desmedida do visível – que é também o ponto cego a partir do qual o olhar se constitui – que, paradoxalmente, se encontra a potência da arte: abrir fissuras na pele opaca do mundo para que alguma coisa o atravesse, para que algo enfim se mostre. Ainda que seja o abismo em que fugas, formas e imagens se evanescem e se dissipam.  


Marisa Flórido Cesar

Dezembro de 2014

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