terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Conversando sobre Arte entrevistado Bernardes Paixão

Com os agradecimentos a Leda Monte.



Quem é Bernardes Paixão? 
Filho de pais mineiros nasci em Salvador-BA, em 9/10/72, onde vivi por 2 anos. Depois rodamos pelo país: Rio, São Paulo, Minas, Brasília e finalmente  Goiás, onde minha família fixou residência. Eu ainda rodei um pouco mais, com o meu pai, de descendência cigana. É, eu gosto da estrada. E isso foi algo que marcou minha juventude. Vivia fugindo de casa. Estava sempre pronto pra ir embora. Essas fugas me fizeram crescer muito, me garantiram experiências riquíssimas sem as quais eu me acharia miseravelmente pobre. Depois vieram as prisões. Mas calma, não era por crimes. O fato é que eu era diferente daquela gente toda: não usava chapéu de cowboy nem botas. Usava coturnos  e  cabelos compridos. Então eu era diferente e tinha de pagar por isso. Meu desprezo pelos costume e convenções da sociedade local me puseram em constante conflito com a polícia e me e me garantiram a  inimizade e antipatia gratuita de todos, ou quase todos. Então, toda semana eu tinha de passar ao menos uma noite na cadeia. Tempos difíceis... Tive várias bandas, compunha canções impregnadas de mensagens político-ideológicas. Depois mudei meu discurso, com o passar dos anos.
Nunca me adaptei a trabalhos fixos, jamais me adaptei àquela coisa de cumprir horários. Embora tenha trabalhado algumas vezes em empresas onde eu deveria cumprir os tais horários, sempre consegui driblar ou burlar essa regra estúpida. Trabalhei por muitos anos com refrigeração, que foi meu primeiro trabalho, ofício que  aprendi com meu pai. Depois me chateei e fui trabalhar com letreiros, coisa que eu gostava e trabalhei por muitos anos. Mas também me cansei. Nesse meio tempo desenhava retratos a lápis  e  era difícil descolar algum, mas rolava. Depois trabalhei com letras adesivas, assim que começaram a surgir e logo após, impressão  digital. Daí comecei a fazer serigrafia mas também não deu certo. Me interessei por aerografia, mas como dava muito mais trabalho que retorno, me cansei novamente. Aí me meti com informática e era responsável pela manutenção de um software estadual em todos os laboratórios da região do entorno de Brasília. Mas o Estado atrasou meu pagamento por 8 meses e aí já sabem, né? Estudei programação e fui desenvolver softwares para a Secretaria Municipal de Educação. Depois de 8 anos fui exonerado e  mandei tudo p p... e resolvi que  ia me dedicar apenas às minhas obras. E aqui estou eu, sem dormir preocupado com o almoço de amanhã. rsrs
Falar da minha infância é algo meio... chato, talvez. Tive uma infância marcada, talvez, pelos mesmos dilemas da juventude. Puxa vida, como eu era diferente! Mas eu não sabia disso. E tive que apanhar muito pra aprender. Uma coisa boa que me lembro da infância é de perambular pela cidade invadindo propriedade pra roubar frutas para comer, garrafas e pneus -para vender. Isso era divertido. De resto não tem muita graça. Detestava, e ainda detesto, futebol! Então não tinha muitos amigos nem era popular. Só na escola, porque desenhava pornografias nos cadernos dos colegas e vendia, o que me garantia o lanche, alguma admiração e respeito, mas com isso vem também a inveja. E também era bom pra passar cola. Menos em matemática. Abandonei a escola aos doze e fui morar num puteiro em Taguatinga-DF (bons tempos, aquilo sim é que era vida...kkkkkk).  Não tinha paciência para esperar o resto da turma. Fui conversar com o Diretor e ele me disse que infelizmente não tinha um modo de adiantar as coisas pra mim. Meus pais estavam separados e fui morar com o velho, ali na Sandu sul, bem em frente ao Mercado Sul. Meu pai era uma figura interessante: falava 4 idiomas, tinha muito conhecimento em física, química, matemática e história, sabia sempre explicar tudo, mas o que ele mais sabia, apesar de trabalhar muito, era malandragem. Minha mãe era e ainda é a mulher mais forte que já conheci, apesar de romântica. Foi dela que herdei minha veia artística. A primeira vez que fiz um desenho do qual me orgulhei, e  ainda me orgulho, tinha quatro anos. E lá estava ela, guiando minha mão pra desenhar uma negrinha de lábios bem grossos e corpo esbelto. Essa lembrança tem um sabor especial em minha memória. Suave e doce. Aquele momento  vai sempre estar comigo.
Como a arte entrou em sua vida?
Pelo cordão umbilical eu acredito! Aliás, como acontece com todo artista. Não há um momento em que a arte entra em nossa vida. Ninguém escolhe ser artista,  não é assim que funciona. Ou você é ou nunca vai ser. Acho desonesto que as faculdades formem artistas. Não se forma um artista numa faculdade. O artista já nasce formado. A vida o molda conforme suas experiências. O diploma de artista é uma fraude. E só existe pra explorar o mercado das vaidades.
Mas há um momento em que a arte começa a se revelar para o artista. Há um momento em que ela  começa a sussurrar seus segredos aos nossos ouvidos. Esse momento é indescritivelmente mágico! Nesse momento, o mundo como você o conhecia começa a se revelar de forma  completamente inesperada diante de seus olhos, sua percepção se torna cada vez mais aguçada e você descobre que não há regras para enxergar, que não há nada predefinido, que tudo é uma questão muito individual de pontos de vista. E este momento surgiu em minha vida justo quando fui morar no puteiro da Sandu sul, em Taguatinga-DF. Esta experiência marcaria para sempre o meu olhar sobre o mundo. Interessavam-me as prostitutas, os bêbados que ali, naqueles ambientes, iam gastar seu dinheiro suado em busca de calor humano e alguma diversão. Os jogadores inveterados e as aves de rapina, de olhar agudo, atento, furtivo e treinado, sempre à sua espreita, vivendo de sua ingenuidade ou compulsão. As histórias de vida das mulheres que protagonizavam ou figuravam esse universo impregnado de emoções, às vezes lúgubre, melancólico, às vezes tenso e assustador, às vezes acolhedor, amigável, quente, quase como um lar –e pra mim o era! –, como num espetáculo de Vaudeville. E foi assim que me apaixonei irremediavelmente pelos olhares. Sobretudo os olhares das mulheres. Por todos eles! Sejam alegres ou tristes, doces ou raivosos, são o relato incontestável de uma vida inteira e estão sempre à procura de um leitor que saiba decifrar seus signos. Foi aí, bem aí, nesse ponto, que decidi que­­­­­ iria retratar rostos. Desde então eu retratei homens e mulheres: ricos e pobres, velhos e moços, virgens e prostitutas  –prefiro as prostitutas–, moradores de rua, viciados e ladrões e tantas outras gentes, ficando minha própria essência, impregnada com um pouco da essência de cada um desses olhares, oceanos misteriosos que me convidam sempre a um profundo mergulho explorador.
Pois é... eu acho que a pergunta deveria ser: "Como a arte se impôs na sua vida?". Sim, porque a arte não entra na vida do artista.

Qual foi sua formação artística?
Sou autodidata. Aprendi a pintar sozinho. Passava dias inteiros na biblioteca municipal observando as fotografias de uma coleção de luxo, eram livros enormes com as obras dos grandes mestres da pintura. Aprendi a partir daí.  
Que artistas influenciam em sua obra?
Minha primeira influência foi Bacon. Estava na cozinha, na hora do almoço e ouvi o repórter da edição do almoço falando sobre uma exposição de Bacon, em Brasília. Achei os comentários interessantes e fui assistir. Putz, aquilo foi libertador! Era o que eu esperava! Pra mim, td o que eu via da arte era chato até aquele momento. Mas Bacon era libertador. Até então eu tinha 10 anos. Mais tarde, uns 10 anos depois, tive a mesma sensação ao conhecer através dos quadrinhos o trabalho de Kent Williams e Jasson Shawn Alexander. Atualmente recebo influências de muitos artistas mas seria cansativo citar.
Como você descreve seu trabalho?
Auto descrição é algo realmente complicado. Em meu trabalho procuro utilizar meios nada convencionais como papelão, restos de madeira usados em construções, jornais velhos... Vejo nisso uma forma de contestar a velha ideia da arte delicada, feita sempre sobre suportes finos e convencionais. Isso poque recebi muita influência da arte urbana de rua em geral. Mas isso é também uma forma de poesia. Acrescentar beleza à rudeza de um pedaço de entulho que ninguém levaria pra dentro de casa é algo inspirador. E óleo. Sempre óleo. Embora utilize acrílico e outros materiais na composição de uma obra, como lápis e gizes pastéis, grafites, carvão e outros, a figura é sempre trabalhada à óleo. 
O material nacional para pintura já tem a qualidade desejada?
Nunca usei outro material que não o nacional.Até mesmo o nacional já é bastante caro, quem sou eu pra me meter com produtos gringos. Mas acredito que poderia ser bem melhor.
É possível viver de arte no Brasil?
Putz! Essa a gente sempre ouve. Bom, eu atualmente não tenho outro meio de vida além da pintura. Há quase 3 anos a arte é minha única fonte de renda. Mas é praticamente como fazer milagre. É muito difícil!!! Embora para o artista a arte seja como ar, não é a mesma coisa pra que pensa em comprá-la. E também tem o lance de que as pessoas não entendem muito do assunto e confundem arte com quadros decorativos. Geralmente querem comprar pinturas de flores, cavalos, ranchinhos à beira rio e coisas do gênero. Acham mesmo que isso é arte. E considerando que vivo em Goiás, essa afirmação é ainda mais verdadeira. O pior é que tenho náuseas só de e imaginar pintando flores. Estamos sempre acordando no meio da noite com a preocupação de o que vai ser o almoço, ou como vai ser pra pagar o aluguel, luz, água e a conta do barzinho. Então, temos muitas vezes de nos submeter a trabalhos que eu não descreveria como arte... Não, não dá pra viver de arte.

Como você estuda e se atualiza?
Web. 

O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
Taí, se souber a resposta, por favor me diga, mesmo que seja em segredo! 
O que você pensa sobre os salões de arte, alguma sugestão para aprimoramento?
Acho que toda competição de arte tem jure influenciado.Mas, não por isso nunca participei de um salão. É que não quero competir. Não vejo propósito em competir com outros artistas. O meu trabalho não se presta a isso. Além do mais, já tenho uma opinião formada a respeito dele e não preciso que um jure me diga o que é ou deixa de ser. Não, absolutamente, não vejo qualquer atrativo em salões. Além do mais, os prêmios da maioria são uma esmola. 
 Quais são seus planos para o futuro?
 Viver bem, do meu trabalho. Agradecer pessoalmente à Leda Monte pela indicação.




























Nenhum comentário:

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
Now