terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Conversando sobre Arte entrevistada a artista Jeannette Priolli






Quem é Jeannette Priolli? 
São Paulo, capital. Data  23/01/1948, Aquário em Aquário.
Tive uma infância extremamente solitária, mas com acesso a muitos livros. Herdei do meu único irmão mais velho a coleção “ O Tesouro da Juventude “ ( guardada até hoje ) e mais  os maravilhosos HQs dele; graças a isso aprendi a ler muito nova. Também meu pai gostava de ler e desde menina tive acesso a todos os livros da casa, sem censura. A artista aos 12 anos.


Como a arte entrou em sua vida? 
Sendo uma criança quase transparente rabiscava nas paredes do meu quarto, no corredor, depois também nas salas – então durante a minha primeira infância fui desenhando pela casa inteira e nunca ninguém reparou ou falou nada. Nessa época eu estava no Jardim de Infância São Paulo, fiquei lá dos 4 aos 6 anos e as capas do jornalzinho da escola eram, quase sempre, ilustradas com desenhos meus. Por conta disso a minha mãe resolveu que eu deveria estudar Pintura. Então quando completei seis anos ela me levou ao atelier da pintora acadêmica Collete Pujol para ter aulas particulares três vezes por semana. Fiquei com ela por quase seis anos . Collete era uma professora exigente e detalhista. Durante dois anos somente usando carvão e copiando figuras romanas, pés e mãos de gesso, enfim tinha que desenhar exatamente o modelo, sombra, perspectiva, etc...Depois passei a usar pastel seco para desenhar e colorir flores. Mais dois anos e fui “promovida” a tinta a óleo. Nessa época eu fazia o primário no Colégio Dante Alighieri. Um dia a diretora chamou a minha mãe e indicou a Fundação Armando Alvares Penteado. Para a minha sorte minha mãe aceitou a recomendação e chegando lá  o primeiro professor que encontramos, foi o pintor Nelson Nóbrega que me aceitou aos 12 anos na turma dele, de adultos. O professor Nelson olhou demoradamente aqueles meus trabalhos “engessados“ que a minha mãe orgulhosamente mostrava e se compadecendo verdadeiramente de mim resolveu me adotar. Com ele estudei durante muitos anos. Nelson, com a gentileza que lhe era habitual, me libertou de todo aprendizado anterior e me devolveu o prazer e a liberdade de desenhar e pintar... Ensinava através de exercícios todas as técnicas: aprendi  a usar e a fazer Têmpera, o peso exato do pincel na aquarela, etc. Além de excepcional professor, ele também foi para mim a figura paterna mais importante que tive. Mantenho em relação a ele um enorme sentimento de amor e gratidão. Paralelamente ao FAAP frequentei dos 15 aos 18 anos o “Dearte”, uma casa de dois andares na rua Augusta onde alguns artistas mantinham atelier e também davam aulas. Tive como professor Aldo Bonadei, que no primeiro dia colocou na minha frente um grande galho seco de árvore e me fez trabalhar nele por mais de um ano. O exercício consistia em desenhar a carvão rapidamente, folha após folha, o mesmo galho, só mudando a posição. Dava para fazer quase uns 40 por aula mas ele analisava um por um. Dizia que só assim se aprendia uma boa composição Uma noite por semana ele dava aulas sobre arte moderna, especialmente sobre Cubismo, a paixão dele sempre foi Cézanne. Nos finais de semana Bonadei convidava alguns alunos para pintar paisagens ao ar livre em alguns lugares nos arredores de São Paulo e foi  assim que comecei a pintar telhados. Composições quase abstratas, já em acrílico s/ tela, tinta bem aguada.


Qual foi sua formação artística?
1954/1961 – Desenho e pintura com Colette Pujol.
1960/1968 – Pintura com Nelson Nóbrega, na Fundação Armando Álvares Penteado.
1962/1967 – Gravura ( Litho, Xilo e Metal ) com Marcelo Grasmman e Darel Valença Lins, na Fundação Armando Álvares Penteado.
1963/1966 – Pintura com Aldo Bonadei, no O. D. A. - Oficina de Arte.
1972/1973 Recebe Bolsa do Governo Francês – Estuda Gravura e Pintura na École des Beaux-Arts, Paris – França



Que artistas influenciam seu pensamento?
Sou absolutamente influenciada por Literatura e Cinema . Mas falando em Artes Plásticas prefiro não citar nomes , tantos que são.  Vou resumir assim, pela ordem em que as moedas de ouro foram caindo dentro da minha cabeça:
Linguagem HQ, Cubismo, Surrealismo, Dadaísmo, Futurismo, Concretismo, Abstracionismo Geométrico e a Neo Geo, onde finalmente encontro a escrita visual que me interessa,sabe, Neo Geo tem aquela coisa que se vê e se confirma instantaneamente.


Como você descreve seu trabalho? 
 Desde 1991 venho trabalhando a Pintura com pintura, procurando retirar artifícios, tentando um silêncio e ao mesmo tempo uma exaltação.
Sobre materiais utilizados ,desde que descobri a tinta acrílica nunca mais usei óleo Gosto do desafio da secagem rápida, da urgência na pincelada;  já a tinta a óleo é pachorrenta, lenta na secagem, me irrita.
Também gosto de desenhar, ainda uso meus bicos de pena, são deliciosos... Aquarelas então, são a minha perdição... amo.


É possível viver de arte no Brasil?
Alguns poucos artistas conseguem.


O que você pensa sobre os salões de arte, alguma sugestão para aprimorá-los? 
Hoje não gosto da ideia de grandes exposições, de muitos e diferentes artistas em um único lugar. Mesmo quando visito Museus, visito aos poucos... Volto algumas vezes se a exposição me interessar. Acho que o melhor lugar para se ver Arte, depois do atelier é em  espaços  pequenos e com  poucas obras.  Meu olhar e muito lento...


A mulher e o homem já estão em igualdades de condições no mercado da arte brasileira? 
Achava que não, hoje acho que sim.


Como você estuda e se atualiza? 
A internet me deixa ligada em arte por horas diárias, sou usuária compulsiva de livros e  sempre que possível leio o que artistas escrevem.
A meu favor quando um assunto me interessa sou obsessiva. Passei um longo tempo afastada dos meus amigos mas sempre e completamente voltada para a minha maneira particular de estudar/entender a Arte. Nos últimos anos escolhi viver um isolamento que achei necessário para que eu pudesse dispor, sem concessões ,do meu tempo. Entre 2007 e 14 só fiz ler e desenhar, quase que compulsivamente,tendo como resultado uma serie sequencial de mais de cinco mil pequenos desenhos/pinturas s/ papel, usando a linguagem HQ. Desenhava, fotografava e descartava o original, guardando as fotos em arquivo.
De todo essa serie selecionei umas quase 300 imagens e a partir dai copiei palavras e frases dos meus autores preferidos para  escrever o meu texto.
Este trabalho é o livro cujo titulo  “REZA NA CAMA“ se explica porque além ter sido literalmente feito/pensado na minha cama, eu entendo que se se encontrar um verdadeiro prazer no que se faz, você entra em estado de “Suprema Eucaristia“, fazendo aqui uma referência explícita ao livro “ the PSYCHEDELIC GUIDE to PREPARATION of the EUCHARIST “.
Em dezembro do ano passado montei novo atelier e voltei à minha pintura de sempre. Estou com poucas novas telas prontas e ainda não fotografadas; então, Márcio, aproveito a oportunidade que você está me oferecendo para colocar aqui, 10 imagens ( centrais ) do “REZA NA CAMA”, meu último trabalho.


O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
No início, bons contatos.


O material nacional para pintura já tem padrão de qualidade suficiente?
Sempre usei o importado, por isso não sei.


Quais são seus planos para o futuro?
Nunca fiz planos. Meu futuro sempre foi “Aqui e Agora“.



Essa parte central do livro é para ser vista com os óculos de papel (azul e vermelho) É importante, faz parte de roteiro/imagens a mudança de realidade e o efeito psicodélico funciona aqui também.




























2007/2014




Nos últimos anos, em trânsito, meu espaço particular ficou restrito a sucessivos quartos. Nas camas desses quartos produzi uma série de pequenos desenhos/pinturas sequenciais e também voltei a ler os livros que me são especialmente caros. Quando li "O Poço da Solidão" eu era uma isolada menina de nove anos e naquela época foi muito confortante conhecer a infância de Stephen... Já na adolescência, fiquei grata a Ray Bradbury pelo inesquecível  "País de Outubro". Nos meus vinte anos, "Solaris" nunca foi ficção e só pude decifrar "Lolita" muitos anos após a primeira leitura, quando finalmente compreendi o que significa Ironia... Então, relendo o que esses autores escreveram, me apropriei do que me interessava – frases, impressões e idéias para construir o texto que percorre estas páginas. De dois livros/bússolas usei os títulos: "O Alimento dos Deuses" e "No Ar Rarefeito". Pintores, Malkine e Munch me emprestaram três imagens e brinquei com elas... Com esse material montei "Reza na Cama", uma Exposição em Quadrinhos.

Jeannette Priolli







        A CORAGEM DO ABISMO

            Arte pode salvar vidas? Sim, a começar pelas dos próprios artistas. Narrar-se é compartilhar, uma ponte estendida na direção do outro que traz consigo regeneração.
            Pintora e desenhista de currículo sólido, Jeannette Priolli transforma em livro seus signos pessoais e expõe o trajeto dos últimos anos, restrito, como diz, “a sucessivos quartos.” Num isolamento voluntário em que a dor sempre esteve presente, ela nos mostra aqui a embricação de dois fluxos que construíram sua vida - a experiência como artista plástica e a formação proveniente da leitura.      
            Aos nove anos de idade uma menina lê inesperadamente “O poço da solidão”, de Radcliffe Hall. Solitária e singular, a personagem Stephen ecoa na criança com intensidade avassaladora. Mais tarde outros livros, de status modelador, juntam-se ao primeiro: “Solaris” (Stanislaw Lem), “O país de Outubro” (Ray Bradbury), e “Lolita” (Vladimir Nabokov) são alguns desses ícones, todos marcados pela solidão, desterro e a recusa de uma realidade previsível em prol de buscas lancinantes.
            “Reza na Cama” - título que une o sagrado à proteção duvidosa do leito – é uma fusão da arte de JP com os trechos literários constitutivos de seu universo e uma homenagem aos autores que os forneceram. Dos pintores Malkine e Munch a autora retira alguns elementos e brinca com eles, utilizando-os como um trampolim para atingir suas próprias verdades. Mais do que produção última, contudo, o atual trabalho abrange uma vida inteira, exibindo através dos desenhos e textos assinalados a tessitura da imaginação da artista. 
            A menina que a pintora nos traz não tem rosto. Ou o esconde. Ou está de costas para o espectador, num vazio de identidade pleno de sofrimento e inadequação. A progressão dos desenhos mostra um abismo ontológico que parece engolir a pequena imagem nua e desamparada: “Não havia luz nenhuma capaz de aclarar tal escuridão.” Mas dessa insistência fantasmagórica sai justamente sua força. A verdadeira arte, seja qual for, alimenta-se principalmente de autenticidade e mergulho: os dois palpitam inequívocos nas páginas de “Reza na Cama”.

                                                                                  Myriam Campello
                                                                               Rio de Janeiro, outubro de 2014. 




Currículo Resumido

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

 

1973 Galeria A.A.A. – Paris – França

1975 Museu de Arte de São Paulo (MASP) – São Paulo – SP

1986 Galeria Paulo Klabin – Rio de Janeiro – RJ

1989 Espaço Capital – Brasília – DF

         Galeria Paulo Klabin – Rio de Janeiro – RJ

1990 Galeria Espaço Corpo – Belo Horizonte – MG

1993 Galeria Anna Maria Niemeyer - Rio de Janeiro – RJ

1994 Paço Imperial – Rio de Janeiro – RJ

Museu de Arte e Cultura – Universidade Federal de Mato Grosso – Cuiabá – MT



PRINCIPAIS EXPOSIÇÕES COLETIVAS


1973 Coletiva no Palais des Arts – Paris - França
1975 “Imagem do Brasil” – Manhattan Center – Bruxelas – Bélgica
”24 Artistas Plásticos Contemporâneos” - Museu de Arte de São Paulo (MASP) – São Paulo – SP
1987 “V Salão de Arte Contemporânea” São Paulo – SP
“44° Salão Paranaense” (Prêmio Pintura) – Curitiba – PR
1989 “O Mestre à Mostra” – Parque Laje – Rio de Janeiro – RJ
1990 ”3 Artistas” – Casa de Cultura Lauro Alvim - Rio de Janeiro – RJ
”3 Artistas” – Galeria Performance - Brasília – DF
”Arte Brasileira Contemporânea” - Museu de Arte Moderna (MAM) – Rio de Janeiro – RJ
1991 “O Processo” – Parque Laje – Rio de Janeiro – RJ
”MAM AMA” – Petrópolis – RJ
1992 ”Avenida Central” – Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) – Rio de Janeiro – RJ
”Brasilian Contemporary Art” – Parque Laje e Galeria Sergio Milliet – Rio de Janeiro – RJ
1993 ”Brasilian Contemporary Art” – Museu de Arte Contemporânea (MAC) - São Paulo – SP
”O Papel do Rio” – Paço Imperial – Rio de Janeiro RJ
”Centenário Mário de Andrade” Centro Cultural - São Paulo – SP
”Coletiva” – Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) – Rio de Janeiro – RJ
1994 “Bandeiras” – Faculdade Estácio de Sá - Rio de Janeiro – RJ
”Plural/Singular” – Curadoria Adriano de Aquino – Galeria de Arte UFF – Universidade Federal Fluminense (UFF) Niterói – RJ 
“Coleção Carioca” Paço Imperial – Rio de Janeiro – RJ
1995 “Mistérios e Fronteiras” - Museu de Arte Moderna (MAM) – Rio de Janeiro – RJ
“Papel do Brasil: Arte Contemporânea” – Palácio dos Trabalhadores – Pequim – China
1996 “Geometria – Rio” - Paço Imperial – Rio de Janeiro – RJ
1998 “Coletiva Acervo” – Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) - Rio de Janeiro – RJ
2012 “Homenagem a Anna Maria Niemeyer” - Paço Imperial – Rio de Janeiro – RJ 


OBRAS EM MUSEUS


Museu de Arte de São Paulo (MASP) – São Paulo – SP
Museu de Arte Contemporânea do Paraná – Curitiba – PR
Museu de Arte Moderna (MAM) – Rio de Janeiro – RJ
Museu Nacional de Belas Artes – Rio de Janeiro – RJ
Pinacoteca do Estado de São Paulo - São Paulo – SP
Museu de Arte e Cultura – Universidade Federal do Mato Grosso – Cuiabá – MT
Museu de Arte Moderna (MAM) – Salvador – BA
Paço Imperial – Rio de Janeiro – RJ

***

1989 Realiza Workshop “Cadavre Exquis” na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV) – Rio d Janeiro – RJ.
1989/1990/1991 Professora de pintura da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV) – Rio de Janeiro – RJ
1975 Revista Planeta n° 36, matéria sobre seus trabalhos, págs. 50 à 61 “Arte Fantástica de Todos os Tempos”
1973 É convidada por Yves Chamberland, no estúdio de Hérolville, para fazer a capa do disco “Drácula I Love  You” de Tuca e Mario de Castro. As letras das músicas “O Sorvete”, “Girl”, “Para Você com Amor” e “Drácula I Love You” são de sua autoria. P.S. – A capa foi censurada.
1973 A Organisation de la Radio et Télevision Française apresenta no jornal de l’Île de France uma ampla reportagem sôbre sua exposição na Galeria A.A.A. – Paris – França.
1996 Arte Paris 96, projeto, coordenação e aulas.
2007/2014 Trabalho “REZA NA CAMA”  


ESCREVERAM SOBRE MEU TRABALHO

Francis Boucrot
Jacques Herold
Marguerite Galletti
Pietro Maria Bardi
Walmir Ayala
Marcos Lontra
Quirino Campofiorito
Geraldo Edson de Andrade
Antonio Zago
John P. Dwyer
Casimiro Xavier de Mendonça
Roberto Pontual
Fernando Cocchiarale
Frederico Moraes
Myriam Campello


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