quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Conversando sobre Arte entrevistado Warley Desali

Com os agradecimentos a Leda Monte.



Quem é Warley Desali?
 Mineiro de contagem, morei no bairro Nacional, região periférica de Belo Horizonte. Atualmente moro no Sagrada Família, em Belo Horizonte, em um barraco de fundos. Vim de família de interiorana, das cidades de Monte Azul e Fazenda da Ponte, interior de minas. Atualmente, minha família vive de forma autônoma, explorando comercialmente os puxadinhos no fundo do lote e alugando lojas comercias aquecendo o mercado local.
 Fora da arte, já trabalhei no mocotó do Mickey, na rua Paraná, fui vendedor de banca de revista, auxiliar de pedreiro e operador noturno de telemarketing. Infelizmente, não consegui realizar meu intento profissional maior de trabalhar no ramo hortifrutigranjeiro, no CEASA e em supermercados do centro de belo Horizonte: o exame psicológico sempre foi o meu vilão... Neste momento atuo como artista plástico, arte educador para o projeto OMCV, curador independente, fotografo publicitário e still, ilustrador infantil para as editoras JBC e fino traço, quadrinista autoral com produção de zines xerocados , montador de exposições e balconista com experiência na carteira do gallery-buteco Piolho nababo, localizado no edifício maleta, fundo, favor perguntar ao segurança como chegar ao recinto. Gastei quatro anos da minha vida a contemplar as montanhas mineiras da vista do bairro Mangabeiras, sede da escola Guignard (UEMG), onde me formei. Comecei em licenciatura para depois migrar para o bacharelado em fotografia e pintura, onde me senti mais artista e menos professor. Falhei miseravelmente em meu intento de ser artista em tempo integral e hoje dou aulas em projetos em área de risco para sobreviver. Mas não tenho motivos pra queixas, afinal, perdi dinheiro, mas mantive a integridade, e não incorri no erro primordial do jovem artista, aquele já elencado pelo neo-filósofo Forewerton Belico (crítico e degustador nasal): "Não há jovem artista que não tenha de ceder o que ele mais esconde pra ter algum sucesso". Fui premiado (com muita justiça) algumas vezes nas mostras internas da instituição, participei de cursos livres, e possuo formação complementar (comprovada) em caligrafia, datilografia, word, Acess, Excel e Power Point, bem como estudei dança de salão e roteiro pra cinema. Até o momento, realizei duas exposições individuais, alguns projetos coletivos como o "leilão de arte R$ 1,99 - A destruição" e o coletivo de rua Entreaspas, extinto desde 2006. Era católico, hoje sou situacionista. Gosto de queijo Roquefort, cogumelo shitake e sou pichador nas horas vagas.

Como a arte entrou em sua vida?
 A arte surge na minha vida do mesmo modo que ela aparece a todos: quando não se tem nada o que fazer. Na infância, aproveitava minhas viagens autistas e criava desenhos pra camisetas e objetos artesanais. Muito cedo também, aprendi que arte é negócio e fazia pequenas tiras de quadrinho pra vender na rua, criando, assim, minhas primeira performances, pra garantir uns trocados e deixar de furtar supermercados por causa de bobagens adocicadas (vulto Tortuguitas Gold). Logo aprendi, porém, que arte é um negócio muito fudido, ainda mais na periferia, e por isso fui trabalhar, que era o melhor que fazia. Minha juventude foi ler livros sobre músicos, cineastas, artistas, e muito quadrinho underground. Pirei muito em quadrinhos e com eles driblei minha solidão adolescente. Meus amigos eram folhas em branco e canetas nanquim. Quando fui trabalhar no buteco do Mickley, meu olhar pra realidade amadureceu e fui descobrindo pessoas com as mesmas paranoias e medos entranhados, que bebiam depois de um dia de trabalho. O quadrinho do Zé Buceta surge daí. Pouco a pouco meu trabalho foi se abrindo e deixando o espaço restrito do quadrinho. Fiz e faço pintura e fotografia e atualmente estou explorando meus trabalhos em vídeo. Porém, o método é sempre o mesmo: trabalhar diariamente sem pressa, construindo e lapidando aos poucos.

Qual foi sua formação artística?
 Como disse anteriormente, me formei na escola Guignard e dela guardo boas lembranças, como o Xerox do Ismael. Botecos, rolês obscuros e companhias anfetaminadas preenchem meu processo de criação

Que artistas influenciam em sua obra?
 Sou muito fã atualmente do artista mineiro Alex Rosa , montei recentemente uma curadoria a partir do acervo de Joseph Vagin na galeria Chimera Cultural. Ele possui uma produção sensível e delicada sobre seu cotidiano e repertório de vida, que me emociona muito. Outro artista que me atrai  bastante é o Bernardo Gouveia. Tenho uma paleta que é toda influenciada por ele. Trago comigo os vermelhos intensos, que ele mesmo disse herdar de Ticiano e, acima de tudo, os brancos de Serrat, cujo pigmento Bernardo guarda em latas de Nescau. Essas figuras são gênios indomáveis que precisam ainda serem descobertos pela mídia e pelo publico em geral.

Como você descreve seu trabalho? 
 Meu trabalho é sempre uma pergunta, nunca uma resposta. Não me sinto preso a uma ideia, a uma questão específica, a uma determinada forma e nem mesmo a um suporte. Questiono meu trabalho do começo ao fim: do conceito até sua inserção social e apresentação midiática. Questiono o artista como autor e sua função em feiras e galerias de arte seu símbolo diante de uma sociedade condicionada.

O material brasileiro para pintura já tem a qualidade desejada?
Pra mim interessa mais a qualidade do pintor que do material pra pintura.

É possível viver de arte no Brasil?
 Sim, principalmente se você nascer rico e não precisar do dinheiro do seu trabalho pra sobreviver, o que é o perfil da grande maioria dos artistas plásticos brasileiros. Se você não vier duma família muito rica ou tiver um pai cruel o suficiente pra te forçar a trabalhar, sempre poderá cumprir o papel social do burguês ilustrado e se aproveitar de sua condição social pra fazer contatos e conseguir agenciamento em galerias, compradores e Marchands. Caso você seja pobre ou idealista, a solução é o caminho da independência, seja no trabalho individual ou em grupo, com o velho  princípio punk do "venda (se) você mesmo" sempre em mente.

Como você estuda e se atualiza? 
Continuo fazendo o que já fazia na minha juventude: ler livros sobre músicos, cineastas, artistas, quadrinho underground, participando de mostras e exposições e muito trabalho em ateliê experimentando derivas infindáveis ate a exaustão.

Como você avalia o desenvolvimento da arte contemporânea em Belo Horizonte?
 Caminhando a passos firmes rumo ao seu destino de criar os mais feios objetos de decoração de casas elitistas de todo o Brasil. Os apartamentos rebrilhantes do mais puro porcelanato do Belvedere, da Centro-sul e de Nova Lima sempre poderão decorar seus interiores com as obras minimalistas, brancas e limpinhas dos artistas mineiros contemporâneos. As galerias mineiras são os melhores intermediários pra garantir a eternidade dessa produção de bibelôs pseudo-contemporâneos e sem nenhum sangue. O que há de mais rico são os espaços e grupos independentes, que estão em constante reação a essa merda toda que nos indigna e nos deixa mais fortes a cada dia.

Qual sua opinião sobre os salões de arte, alguma sugestões para aprimorá-los?
 Tenho uma sugestão: adotar o sorteio como etapa de seleção. Quem sabe com critérios de seleção realmente criteriosos não possamos ver artistas realmente relevantes premiados nesses salões e bolsas? Do contrário, teremos sempre os sempre privilegiados engordando seus currículo enquanto os demais se fodem.

O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
 Escovar bem os dentes, não usar sapatos sujos, ter as unhas bem cortadas, ser um bom menino, jurar toda noite antes de dormir que irá fazer a arte que querem comprar, ter sempre um preservativo na carteira, beber moderadamente em vernissages pra não dificultar as transações da madrugada e sempre saber o endereço de um motel barato, pois, em BH, vai precisar.

 Quais são seus planos para o futuro?
 Sumir de BH sem precisar sair dela.


Entreaspas.


Escola.


Fotografia. 


Lambe Lambe.


Leilão.


Pixação.


Parem de Trabalhar.


Retrato do Artista.


Sem título. Técnica Mista.



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Maurizio Cattelan

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