quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Conversando sobre Arte entrevistado o artista Rodrigo Cruz



Eu nasci em Brasília, em 1989. Vivi a infância inteira em cidade ocidental, uma cidade pequena que fica no entorno de Brasília embora já esteja no território do Goiás. Minha família tem origem simples, não tive muito contato com artes plásticas em casa, mas meus pais sempre gostaram de boa música, o que sem dúvida fez alguma diferença na minha formação. Tínhamos em casa uns exemplares de poesia e imagino que aí, quando muito novo passava os olhos admirados entre um Drummond e um exemplar de "Punhos da Serpente", com dedicatória do Salgado Maranhão para os meus pais, tenha se formado a primeira partícula, o primeiro encantamento com a arte, que para mim é poesia. Então, no inicio, naturalmente, eu achava que seria poeta, e cheguei mesmo a ganhar um concurso de poemas da escola, isso com uns nove anos. (Rs)
          Com essa idade, talvez mais novo, eu já desenhava, algo que comecei a fazer muito cedo quando aprendi alguns truques com um amigo mais velho e quebrei minha perna; como não podia ir para a rua brincar, durante um mês ou mais, ficava em casa desenhando os dias inteiros.
          Com 18 anos fui morar em Brasília para estudar artes plásticas na UnB, nesse momento abri um ateliê com uns amigos, éramos cinco no começo, mas logo acabou ficando somente eu e o Renato Rios. Morávamos juntos e começamos juntos a experimentar pintura à óleo. Queríamos pintar como os mestres holandeses do século XVII, mas a verdade é que, nos primeiros anos, fazer arte era caminhar num terreno muito turvo (e continua sendo); não tínhamos ideia do que fazíamos e na maior parte do tempo o ateliê estava cheio de amigos fazendo festas, bebendo e usando drogas.
Nessa época, comecei minha formação em pintura e pouco a pouco as coisas foram ficando mais sérias; eu e o Renato conversávamos muito, principalmente sobre pintura, filosofia, literatura, coisas dessa natureza, e esse dialogo que começamos juntos ainda é sem dúvidas uma marcação, um ponto que orienta meu trabalho e meu pensamento. Tudo isso acontecia simultaneamente à graduação na UnB, em que tive a felicidade de ter contato com artistas/professores como Vicente Martinez (que me orientou no Mestrado), Elder Rocha, Miguel Simão, Luis Galina, Gê Orthof, etc, etc.; assim como excelentes discussões no terreno da teoria nas aulas das professoras Marilia Panitz, Renata Azambuja… e também o contato com os jovens artistas que estavam produzindo em Brasília como o Fábio Barolli, o Pedro Ivo Verçosa, o Virgilio Neto, dentre outros. Pouco antes de terminar a graduação tive a sorte de conhecer o Ralph Gehre, figura que marcou profundamente minha compreensão daquilo que estava fazendo ou tentando fazer.
          Mais cedo, prestes a entrar no curso de artes plásticas, me recordo de ter visitado a exposição do Anish Kapoor no CCBB, Ascension, e esse contato foi importante na decisão de virar artista. De forma que, se tivesse que listar minhas influencias a primeira seria o Kapoor. Mais tarde, conheci a obra do Nelson Félix, do Waltércio Caldas, do Osvaldo Goeldi, da Lygia Clark; os minimalistas e pós-minimalistas norte-americanos, e por ai vai… existem influências de todos os lados.
          Meu trabalho começa por uma abordagem do espaço e da matéria. Isso, num sentido prático, significa dizer que na verdade eu nunca sei o que estou fazendo em termos de finalidades. As coisas vão surgindo por meio de uma movimentação simples, mexer uma tinta por exemplo, ou fazer traços num pedaço de papel ou caminhar em uma galeria vazia. Aí, então, o pensamento entorno das coisas começa a movimentar-se também e deitar sobre as coisas, tornando-se mais palpável. Logo, nessa relação com a matéria e no pensamento que envolve esse estado tudo passa a caminhar junto, o que gera certa energia interna no trabalho. Há, sem dúvida, aí, certa nostalgia, uma vontade de comunhão com sentidos originários, com o mundo enquanto natureza primitiva, inacessível.
          Tomo um punhado de terra na mão para vê-la esvair-se; ou me sento, a observar o vento mover a árvores, essa silenciosa música. O Grande Buda, do Nélson Félix, p. ex., nos leva, por operação de contraste, a imaginar o crescimento de uma árvore no meio da Amazônia. Entretanto, creio que, independentemente da lanças de aço que configuram sua intervenção, o acontecimento comum, que implica no crescimento de uma árvore, já constitui, uma vez que haja ali um sujeito que contemple seu potencial poético, uma imagem dessa comunhão com as forças da natureza que a arte realiza.
          Tal espera, ou escuta, não esconde uma passividade exacerbada, embora ainda a contenha. Mas seria também licito falar de um engajamento poético, uma dedicação quase vã ou uma liberdade, no sentido Pasoliniano ou Beuysiano, em que estamos sempre trabalhando para cada vez menos expressar um "eu estético", que se apega a estilos ou coisas do tipo, e cada vez mais para deixar o mundo em toda sua potência poética surgir diante dos nossos corpos. Sendo que aí, o artista, parte desse mundo, é sua testemunha, num sentido existencial.
          Se toda imagem resume um signo, que como medium da realidade busca evocá-la, por outro lado, alguns trabalhos artísticos apresentam-se simplesmente como novas coisas no mundo, não representando algo, mas sendo algo, revelando seu sentido na "presentidade" e não na virtualidade. Suponho – ao menos agora, enquanto escrevo esse texto – estar nesse conflito, que remonta à origem da linguagem, ou das linguagens, o cerne do meu trabalho (ou talvez o porquê de fazer arte).
Entre deixar que uma presença material imante o espaço e evocar (provocar) uma relação de ordem física e poética com o mundo por meio de uma imagem (escrita, desenhada, ou ambas).
          Creio que os matérias que temos acesso no Brasil, sobretudo os matérias de pintura e desenho ainda possam ser mais acessíveis. A realidade é as marcas nacionais, salvo em alguns casos, deixam a desejar em face da vasta quantidade de materiais que existem no exterior. Mas acredito que cabe ao artista procurar fazer o melhor com o que tem ao seu alcance.
          É possível viver de arte no Brasil, sobretudo se compreendermos o terreno da arte de forma mais ampla, como eu prefiro. Então você pode trabalhar com galerias, editais, projetos; pode desenvolver pesquisas acadêmicas, dar aulas, trabalhar com publicações, enfim, todos os campos que pertencem ao meio da arte, creio, te permitem de diferentes formas "viver de arte".
          Brasília é uma cidade em que as artes visuais estão num desenvolvimento continuo e ascendente, tanto em termos de mercado, quanto em termos de produção. E, principalmente sobre este ultimo aspecto, posso dizer, sem dúvidas, que o que tem se produzido aqui está alinhado ao que tem de melhor na arte contemporânea. Imagino que em breve, como já tem acontecido, os artistas de Brasília estarão com mais presença no eixo da arte do Brasil.
          Sobre os salões de arte tenho pouco a dizer. São o que são, e creio que sempre haverá pessoas competentes trabalhando para aprimorá-los. Quanto mais salões houver, melhor!
          Sobre a questão do artista ser representado por uma galeria, imagino que inúmeros fatores influenciem para que isso aconteça. Assim como, creio que para um artista que procura alcançar isso, com muito trabalho e as escolhas certas ele logo vá conseguir. Algo que deve ser levado em consideração é que cada galeria tem interesse em um tipo especifico de produção, ou melhor, cada galeria procura trabalhar com uma parcela da produção contemporânea, e nisso está sempre envolvido um teor curatorial, e um alto grau de coerência.

          Bom, para o futuro, enfim… são tantas coisas! Posso dizer que atualmente estou trabalhando na curadoria da exposição de um amigo, o Derik Sorato. Será sua primeira individual, bem como minha primeira curadoria. A exposição acontecerá na Alfinete Galeria de Arte, aqui em Brasília.


Rodrigo Cruz, Brasília, 2015.




1. Curva e Estrutura (Desenho de campo n. 1), Nanquim e Carvão sobre parede, 4 x 3 metros. 2011.

2.  Luz e Ascenção (Desenho de Campo n. 2), Tinta e carvão sobre parede, 3,10 x 2,80 metros. 2011.
3.  Con-tí-nuo (Desenho de Campo n. 3). Nanquim e carvão sobre papel dentro de caixa de madeira e vidro, 1,9 x 1,5 metros. 2012.

4.  Sem Título (Desenho de Campo n. 4). Tinta e carvão sobre parede, 1,6 x 5 metros. 2012.

5.  Escultura com pó II, Guache, nanquim e aquarela sobre papel milimetrado, 21 x 29,7 cm. 2014. “Esculturas com pó/ Proposição para ambiente fechado/ Movímento através, convergente, curvilíneo, divergente, irregular, maquinal, mecânico, oscilatório, para além da meta, para baixo, para cima, para dentro, para fora, para frente para trás, rápido, terminal, vibratório, sísmico. De forma a construir sucessivamente esculturas com pó que se esvaem num instante mínimo.”

6.  Projeto com Terra, Guache, nanquim e aquarela sobre papel milimetrado, 21 x 29,7 cm. 2014. “Projeto com terra/ Componho assim, o projeto com terra, em que com um gesto simples, primitivo, fazer uma concha com as mãos, pego a terra de um recipiente, e despejo num espaço vazio. Assim, no deslocamento da terra com as mãos e no acumulo, ao deitá-la sobre um espaço continuamente, formando um monte, imagino envolver o espectador no trabalho, convidá-lo a, com suas mãos, pegar a terra em concha e despejá-la a desfazer-se como terra na terra.”

7.  Construção n. 1 (Grande “U”), Pinturas de Saturação; Pigmento preto e tinta branca sobre linho, 7 telas de 1 x 1 m cada (5 x 2 m, dimensão total), 2014.

8.   Circulo de Canto. Guache e ponta de prata sonre papel, 18 x 24,5 cm, 2014.

9.  Sem titulo. Óleo sobre papel, 15,5 x 20,5 cm, 2014.

10.  Sem titulo. Óleo sobre papel, 15,5 x 20,5 cm, 2014.

  

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Maurizio Cattelan

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