sábado, 20 de dezembro de 2014

O que se esconde no relógio?


Uma colaboração de Guilherme Fonseca*

O que se esconde no relógio?

Uma análise comparativa do poema simbolista “Para A Morte” de Silveira Neto e da pintura simbolista “A Ilha dos Mortos” de Arnold Böcklin.


    Em seu soneto “Para A Morte” Silveira Neto inicia com um verso em que afirma que a vida é um cortejo fúnebre a caminho. É com esse tom fatalista e sombrio, digno de uma obra de Edgar Allan Poe que ele começa sua caminhada em direção às orlas infernais. Silveira Neto quer dizer com isso que desde o dia do nosso nascimento todos nós invariavelmente começamos a morrer. Esta é nossa única certeza. Isso está escrito em pedra, como um nome em uma lápide.
    No segundo verso Silveira Neto faz uso de uma metáfora ao afirmar: “a cal da insônia já me esfria o rosto”. A cal ou o branco se subentende pelo branco cadavérico, a coloração pálida que surge no sujeito pós-mortem, e o frio do rosto pode ser igualmente creditado a temperatura do cadáver. A cor branca também é, assim como a cor preta uma cor de extremos, podendo significar tanto a vida quanto a morte. Para muitos povos, especialmente povos antigos a cor branca é a cor da morte e da mortalha com a qual cobriam o falecido. O branco por ser a cor que une todas as cores do espectro é como a morte que une todos os seres, todos são iguais perante a morte, não há diferenças nela. A morte é a grande equalizadora. A insônia também é um símbolo significativo, pois, com o sono vêm os sonhos e com os sonhos as esperanças – aquele que não sonha não possui esperanças... assim como aquele que está morto.
    “Olheiras roxas” coloca Silveira Neto, olheiras roxas assim como as de um cadáver. Sua descrição de si mesmo cada vez mais se assemelha a de um morto, de um pálido defunto.
    Silveira Neto nos dá uma ideia de uma vivência atemporal no terceiro verso dizendo-nos: “prega-me as horas todas” significando que todas as horas o assaltam, o acometem simultaneamente, de forma inclemente, como o fariam a um espírito, para o qual o tempo já não mais significa nada. O próprio passar das horas é um tormento, um sofrimento, uma angústia. Não existe bálsamo para a alma atormentada do poeta que sofre essa dor, que vem de não se sabe onde.
    No último verso da primeira estrofe Silveira Neto fala do acabamento do seu caixão de pinho. O pinho ou pinheiro é símbolo de eterno retorno da vida, e exaltação da força vital. O pinheiro era dedicado a deusa romana Cibele, deusa da fecundidade. O culto a Cibele remetia ao culto da deusa Isis no qual um pinheiro era abatido ou sacrificado. Esse pinheiro era enrolado, como um cadáver, com tiras de lã e guirlandas de violetas, representando o marido morto da deusa. A simbologia do pinho é semelhante a do cipreste, uma árvore sempre-verde, da divisão biológica das coníferas (assim como o cipreste), representa a imortalidade e a ressurreição.
    “Desce uma tarde bíblica de agosto”, o simbolismo nesse verso que admito foi de difícil compreensão, veem do número do mês Agosto (oito) em conjunto com a referência bíblica: que simboliza para os cristãos o acabamento, a completude. É o número universal do equilíbrio cósmico, o número das direções cardeais, o número da rosa-dos-ventos, da torre dos ventos ateniense, dos anjos portadores do trono celeste, do octógono – valor intermediário entre o quadrado e o círculo, entre a terra e o céu, portanto em relação com o mundo intermediário. Depois do sétimo dia vem o oitavo, que assinala a vida dos justos e a condenação dos ímpios, quanto ao oitavo dia que sucede aos seis da criação e ao sabbat, ele é o símbolo da ressurreição, da transfiguração, anúncio da era futura eterna. O símbolo matemático do infinito é um oito deitado, e o símbolo que representa a justiça, a completude totalizante e que tudo equilibra no tarô de Marselha é a lâmina oito. Não podemos esquecer o simbolismo da tarde, o final do dia quando o sol morre no horizonte. A própria palavra ocidental possui sua etimologia no verbo latim “occidere” que significa matar, pois todo o dia o ocidente mata o sol, para que ele renasça de novo no oriente.
    No último verso da segunda estrofe as palavras “réquiem do sol posto” simboliza um ritual eclesiástico (católico) para o anoitecer (a morte) que se aproxima. Uma música a qual se canta para o morto que se vai. Existe um traço romântico e idealizado da morte, resquícios de romantismo presentes na obra do poeta.
    A terceira estrofe se inicia com a exclamação: “Noite imensa!”. A noite simboliza a volta ao indeterminado, é a imagem do inconsciente, o desaparecimento de todo o conhecimento exprimível e a privação de toda evidência.
    O silêncio que figura no primeiro verso da última estrofe simboliza o prelúdio de abertura à revelação, abre a passagem, segundo a tradição houve um silêncio antes da criação e haverá um silêncio no final dos tempos. O silêncio envolve os grandes acontecimentos, ele dá às coisas grandeza e majestade, marca o progresso. O silêncio, dizem as regras monásticas, é uma grande cerimônia e Deus chega à alma que faz reinar em si o silêncio.
    O último verso fala na revolta e solidão do mar, o mar é o símbolo da dinâmica da vida; tudo sai do mar e tudo retorna a ele. É o lugar das transformações e dos renascimentos. Águas em constante movimento simbolizam as possibilidades múltiplas das realidades, a ambivalência, a imagem da vida e a imagem da morte.
    Já em sua pintura “A Ilha dos Mortos” Arnold Böcklin no primeiro plano nos mostra uma pequena embarcação, com um caixão, uma figura humana coberta em uma túnica branca e um barqueiro. A figura humana usando túnica simboliza a alma do morto que se encontra no caixão, usando branco (cor que, assim como o preto pode simbolizar tanto a vida como a morte). O barqueiro por sua vez simboliza Caronte figura mítica que leva as almas através do rio Estige. Esperando a chegada do barco nas margens da ilha encontramos um cão. Em todas as mitologias o cão é associado à morte, aos infernos, ao mundo subterrâneo, aos impérios invisíveis regidos pelas divindades ctonianas ou selênicas. O cão é ligado de forma complexa à trilogia dos elementos terra – água – lua, dos quais a significação é oculta é simultaneamente: vegetativa, femeal, sexual, divinatória, e fundamental, tanto no conceito de consciente e de inconsciente. O cão que guiou o homem na luz do dia, agora o guiará ao submundo em direção ao mundo dos mortos. O cão representa a figura de um guia que sempre acompanha o homem, tanto em vida quanto em morte.
    No entanto, na quinta versão do quadro o cão encontra-se ausente, mas vemos duas estátuas viradas uma em direção a outra. São duas esfinges. Símbolo daquilo que é inelutável, se apresenta no início de um destino, e é ao mesmo tempo, um mistério e uma necessidade. Portanto, as esfinges se apresentam como outra ligação à morte: a morte se apresenta no início de nosso destino: para os gregos o destino eram as Moiras, e as três irmãs Cloto (fiar), Láquesis (sortear) e Átropos (afastar) determinavam o destino dos humanos e dos Deuses, cortando o fio de suas vidas. A morte é também um mistério, uma jornada da qual ninguém retorna (presume-se), e uma necessidade, pois sem a morte não existe a vida. As esfinges guardam os segredos e devoram aqueles que os desconhecem (nesse caso os mortais), pois só os mortos conhecem o segredo da morte. São as guardiãs das portas do submundo.
    Vemos no centro diversas árvores verdejantes: são ciprestes, as árvores que para os gregos e os romanos se comunicava com as divindades ínferas. Como árvore das regiões subterrâneas liga-se ao culto de Hades ou Plutão, deus do mundo dos mortos. Serve, além disso, como ornamento para os cemitérios e é a árvore funerária em todo o mediterrâneo, sem dúvida ao simbolismo das coníferas, as quais, por sua resina inalterável e sua folhagem persistente, evocam as ideias de imortalidade e de ressurreição. Os ciprestes se ligam, portanto com o pinho a árvore do caixão utilizada no poema de Silveira Neto.
    Vemos também algumas grutas nas rochas, a gruta assim como a caverna é o símbolo arquetípico do útero materno, do renascimento. É também um local de mistérios e de desconhecido, é preciso que o herói entre na gruta para que ele tenha uma epifania e então posso renascer. Exemplos abundam em mitos de todas as civilizações e culturas: Jonas e a baleia, Jesus e o seu túmulo, José e o poço, etc; Já a rocha e o rochedo simbolizam o imutável, a imobilidade – talvez a imutabilidade da própria morte. Algo o qual não pode ser movido, algo que existe há incontáveis eras e existirá por incontáveis mais.
    Por último o mar, já citado previamente é o símbolo da dinâmica da vida; tudo sai do mar e tudo retorna a ele. É o lugar das transformações e dos renascimentos. Águas em constante movimento simbolizam as possibilidades múltiplas das realidades, a ambivalência, a imagem da vida e a imagem da morte. Em certas culturas o sepultamento marinho é a regra, por exemplo, para os vikings.
    Ambas as obras calcadas no simbolismo como forma de dialogo, discursam sobre a morte e sobre a sua inevitabilidade, sobre o seu progresso incessante, e sobre a impotência humana perante seu poder. Contudo, existem símbolos que remetem a imortalidade, a ressurreição e a vida após a morte; abrindo uma perspectiva de esperança e de fé. Como dito antes as obras são sombrias, mas não são totalmente escuras. Não se pode esquecer que sem a luz não existem as sombras. Essa luz se encontra escondida em ambas as obras, difícil de enxergar, só capaz de ser visto de forma indireta.
    O mar que aparece em ambas as obras é constantemente em literatura e mitologia ligado a morte e em alguns casos ao erotismo. A locução substantiva de língua germânica “watery grave” designa a existência um túmulo marinho, dando ao mar uma conotação tanto de agente causador da morte como de objeto e receptáculo dos restos mortais.
    Não é possível esquecer que na figura do cemitério temos o simbolismo do “memento mori”, pensamento latino cuja tradução significa algo como se lembre de que você é mortal, ou se lembre de que você vai morrer literalmente se lembre da morte. O cemitério ou a necrópole é um grande símbolo da morte e dos mortos, representando sua morada, seu refúgio.
    Os dois trabalhos possuem um tom sombrio, cheio de incertezas perante a morte e seus mistérios. Ambos os artistas nos oferecem apenas uma “espiada” através da fresta dos portões para o submundo, e essa visão não parece esclarecer nada. Muito pelo contrário, só surgem mais perguntas e mais dúvidas. A ilha de Ilha dos Mortos nos remete a ilhas míticas tais quais: a Atlântida de Platão, ou a Thule dos escandinavos, ou então Avalon de lendas Arturianas (em algumas lendas o seu lugar de repouso final).
    Na obra de Silveira Neto se nota um estilo com tendências do romantismo, indicando que o poeta provavelmente fez parte de uma geração de transição. No caso da obra de Arnold Böcklin os traços coexistentes são voltados ao parnasianismo, com fortes tendências ao clássico. Não apenas essa pintura, mas quase todas as suas pinturas que pesquisei possuíam temática clássica, apesar de utilizar o simbolismo como meio.
    Acima de tudo me parece que dialogam sobre os mistérios tanto da vida quanto da morte, sobre as possibilidades do que pode ser e do que será, e talvez a preocupação maior dos artistas nesse caso não seja o de conferir respostas prontas, mas sim de deixar a porta aberta para que cada um que entre em contato com o seu trabalho possa refletir suas próprias experiências no mesmo, e tirar suas próprias conclusões. Obviamente isso é o que se espera de qualquer obra artística, mas em alguns casos isso se torna mais evidente. Acredito que tanto o poeta Silveira Neto quanto o pintor Arnold Böcklin foram muito bem sucedidos.

Fim





                                             “A morte está escondida nos relógios”.
                                           Giuseppe Belli, em “Sonetti, La Golaccia”




Bibliografia

    Neto, Silveira; Para a Morte, In: Poesia Simbolista Antologia, Da Silva Ramos, Péricles Eugênio. Edições Melhoramentos, São Paulo, SP, 1965.
    Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain; Dicionário de Símbolos. José Olympio Editora, Rio de Janeiro, RJ, 1995.

Pinturas



    Böckllin, Arnold; A Ilha dos Mortos. Segunda versão; 1880; Óleo sobre tela; 74x122 cm; The Metropolitan Museum of Art; Reisinger Fund, Nova Iorque, Nova Iorque, Estados Unidos da América.

    Böcklin, Arnold; A Ilha dos Mortos. Quarta versão; 1886; Óleo sobre tela; 80x150 cm; Museum der Bildenden Künste Leipzig, Lípsia, Saxónia, Alemanha.

* Guilherme Fonseca é aluno da Faculdade de Letras, UFRJ.

Cinco versões da Ilha da Morte.

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