sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Conversando sobre Arte entrevistado o artista Felipe Veríssimo






Quem é Felipe Verissimo?
R: Sou carioca, nasci em 11 de Julho de 1983 e sempre fui morador do bairro de Vila Isabel onde também está localizado o meu ateliê. O bairro conhecido mundialmente pela boemia e por abrigar  artistas consagrados principalmente no meio musical. Me formei em 2008 em Publicidade e Propaganda e em seguida em 2010 em Jornalismo. Atuei em alguns veículos de Comunicação porém sempre levava a arte como uma profissão paralela. No final 2013, eu larguei meu trabalho com Comunicação e resolvi me dedicar integralmente a arte. No início de 2014 fiz parte do coletivo de artistas que iniciou o projeto ateliê/galeria de arte "És Uma Maluca", participando inclusive da primeira exposição coletiva do espaço. Atualmente me dedico 100% ao meu fazer artístico realizando trabalhos em gravura, pintura em óleo/acrílica, aquarela, nanquim, metal entre outros.



Como a arte entrou em sua vida?
R: Acho que a arte faz parte da minha vida desde que eu nasci não tem como saber como e quando ela entrou na minha vida. Já nascemos assim com essa necessidade quase fisiológica de uma  produção artística. Cresci vendo meu irmão 11 anos mais velho que eu desenhando e ele desenha muito bem acho que isso de certa forme me inspirou. Eu lembro que a minha mãe comprava uns almanaques, aqueles da mônica, para eu pintar e eu adorava eram almanaques grandes feito para durar meses e eu terminava quase tudo em dias. Ela ficava furiosa Rssss. Eu Devia ter uns 5 anos por aí.



Qual foi sua formação artística?
R: Comecei a estudar pintura mesmo em 2010 (antes era tudo na forma autodidata) quando ingressei na aula de pintura do Espaço das Artes com a professora Grazia Camerano, lá foi meu primeiro contato com a tinta a óleo. Porém, em 2008 eu já havia me formado em Publicidade e Propaganda, que mesmo com seus defeitos, me deu uma certa base em termos de composição e estudos de cor. Depois cheguei a fazer também algumas oficinas com o professor Alexandre Voguer na UERJ, porém acredito que uma formação mais sólida mesmo veio quando ingressei na EAV - Escola de Artes Visuais no Parque Lage em 2011 onde estou até hoje. Lá tive a oportunidade tanto de desenvolver a minha parte prática na pintura como a parte conceitual e teórica com excelentes profissionais, entre eles João Magalhães, Luiz Ernesto, Fernanda Lopes e Cristina de Padua, que muito contribuíram para minha formação.  



Que artistas influenciam em sua obra?
R: Sou muito fã do construtivismo e suprematismo russo. Kazimir Malevich com certeza. Também aprecio muito os pintores do expressionismo abstrato americano como Franz Kline, Mark Rothko e Barnett Newman. Gosto desse conceito da pintura mais espiritual e mística que eles abordavam. Aqui no Brasil eu gosto bastante dos concretos e neoconcretos como Amilcar de Castro, as Lygias, Franz Weissman entre outros. E na contemporaniedade eu aprecio muito o Helmut Federle acho ele genial.



Como você descreve seu trabalho?
R: O meu trabalho é basicamente focado no conceito que eu chamo de geometria imprecisa. Sempre gostei muito de trabalhos geométricos mas tinha algo que me incomodava bastante nesses trabalhos que era uma certa precisão nas linhas e que eu denominei de "linha fake". Não por serem precisas e eu não tenho nada contra a presição, mas por serem precisas feitas por elementos externos a mão do artista, entendem??? Seja com uso de uma régua, fita adesiva, ou qualquer outro objeto utilizado pelo artista que dê essa falsa perfeição na linha me incomoda veamente. Na minha opinião o que faz uma pintura ter sua verdadeira essência é justamente essa imperfeição da mão natural do artista quando traça uma linha, essa diferença mínima de altos e baixos é como a vida das pessoas que é composta de altos e baixos também. É extremamente natural essa imperfeição e ao meu ver legitima a mão (o fazer artístico) do artista e da veracidade para o trabalho. Então eu resolvi explorar esse ponto de incomodação e "criticá-lo" como objeto determinante do conceito do meu trabalho. Logo, todas as linhas dos meus trabalhos geométricos (inclusive os círculos)sofrem deformações e imprecisões e fica explícito essa temática no contexto final. O meu trabalho é definitivamente um trabalho mais focado no desenvolvimento do pensamento do que propriamente na estética, que muitos definem esse estilo como pintura conceitual. Com relação as tintas eu trabalho com as 2 tanto a óleo quanto a acrílica. Geralmente eu uso como base a acrílica por secar mais rápido e depois eu venho trabalhando as camadas com a óleo que me dá mais mobilidade pelo fato de secagem ser mais lenta.      



O material brasileiro para pintura já tem a qualidade desejada?
R: Infelizmente não. Eu utilizo muito nos meus trabalhos tintas da marca Winsor e Newton principalmente os cádmios, tenho a sorte de alguns familiares viajarem com frequência para fora do Brasil então eu sempre peço para trazerem algumas tintas para mim, com isso eu tenho a possibilidade de trabalhar com tintas de qualidade e com maior pigmentação a preços mais justos. Mas o mercado de tintas no Brasil vem lentamente mudando. O número de cores de nossas marcas vem aumentado a todo ano. Algumas já oferecem bons substitutos para cores fugitivas ou impermanentes. Acho que a melhor marca nacional seja a Corfix (marca que eu utilizo) ela oferece informações sobre seus pigmentos nos rótulos, e não estou falando somente sobre transparência ou durabilidade, mas o índice de cor dos pigmentos, informações que deveriam ser obrigatórias em todas as marcas e que vergonhosamente apenas a Corfix apresenta. Isso não é um mérito, mas obrigação das empresas sérias de tintas informarem. O Brasil infelizmente ainda não tem uma linha de tinta voltada a pintores extremamente exigentes, uma linha de tinta "premium", de calibre profissional. E sinceramente não consigo visualizar isso acontecendo num futuro próximo. 



É possível viver de arte no Brasil?
R: É Possível sim, mas não é fácil. Existe muito preconceito ainda com a arte. Você diz que é artista e as pessoas já pensam logo que você é vagabundo e que não faz nada da vida. É difícil até para um jovem, que quer ser artista, ter o apoio da família para cursar belas artes por exemplo, os pais sempre querem direito, medicina, engenharia e isso acaba influenciando no processo de escolha. Até hoje em dia a minha família ainda é um pouco dividida quanto a minha profissão uns apoiam e outros olham com um olhar mais cético, acho que tudo isso faz parte o importante é correr atrás dos nossos sonhos e daquilo que acreditamos. Se você tem certeza que é isso que você quer para sua vida então se dedique 100% e não divida seu tempo com outras ocupações. Quando se está focado e trabalhando com seriedade as coisas acontecem de forma natural. Recentemente fui convidado e ingressei no quadro de artistas exclusivos da galeria Monique Paton no Rio de Janeiro e acredito 2015 será um ano promissor.    



Como você estuda e se atualiza?
faço alguns cursos desde 2011 na EAV - Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Acredito que lá atualmente seja o melhor lugar para pensar e estudar artes no Brasil, com professores muito bem preparados. Além de sempre procurar visitar o maior número de exposições e galerias possíveis. Passo também bastante tempo do meu dia pesquisando sobre arte na internet e lendo livros relacionados na mesma temática. Aproveito a oportunidade e indico para os leitores do blog o livro: Isso é Arte? do Will Gompertz. Estou na fase final da leitura e gostei bastante de como ele aborda alguns assuntos. Vale a pena.  



Você pode falar sobre sua próxima exposição?
R: É minha primeira exposição individual em uma Instituição Municipal e conta com a curadoria de Jorge Nathureza que é um excelente artista e curador. As expectativas são as melhores possíveis pois me preparei bastante para a realização desse projeto. Fiquei muito feliz que duas obras dessa série (máscara da noite e balada do mangue) foram adquiridas pelo mestre Carlos Vergara antes mesmo de irem para exposição. Serão apresentadas 20 obras da série Prolegômenos, alguns dípticos, trípticos e polípticos de tamanhos variados, muitas das telas acabaram de sair do ateliê e serão vistas em primeira mão. Estou ansioso para ver como o público vai reagir e receber esse meu novo trabalho.


Qual sua opinião sobre os salões de arte, alguma sugestões para aprimorá-los?
R:Creio que a grande maioria dos salões de arte estejam em processo terminal, salvos alguns poucos que realmente valem a pena participar. Primeiro que essa coisa de pagar pra expor já é meio duvidosa quanto a real qualidade do salão e dos trabalhos apresentados, segundo que os salões infelizmente ainda possuem uma estrutura muito conservadora e acadêmica que foi importante numa determinada época, mas que não se encaixa mais em nosso padrão de mercado atual. Acredito que a melhor tendência de mercado e espaço expositório hoje em dia sejam as feiras de arte. Tivemos recentemente a ArtRio e a Artigo aqui no Rio de Janeiro e a Parte em São Paulo, com obras a preços acessíveis atingindo um público de várias classes sociais, e o resultado final foi um grande sucesso. Espero que possamos ter mais feiras como essas e que atinjam um número cada vez maior de pessoas e outras cidades também.  

O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
R:Contatos. E quanto a isso precisamos ficar atentos, nem tudo que está na galeria é sinônimo qualidade ou de validação de um bom artista. Tem muita gente que entra numa galeria por ser amigo de fulano ou por conhecer beltrano, como tem muito artista com potencial sem galeria. Infelizmente isso acontece muito no meio artístico. Acredito que o artista que quer entrar em uma galeria séria tem que pensar primeiro em fazer um trabalho sólido e com consistência, e deixar fluir que as coisas acontecem na hora que tem que acontecer. E claro, buscar sempre ser visto, isso é fundamental atualmente. Hoje em dia existem várias maneiras de buscar visibilidade e o artista tem que correr atrás delas, não adianta ficar produzindo no ateliê e ninguém ter o conhecimento dessa produção. Lembro que o Ricardo Basbaum falou uma frase que me marcou muito, ele falou que uma obra no ateliê não tem valor. E é pura verdade.

 Quais são seus planos para o futuro?
R; Dar continuidade ao meu trabalho em termos de estudo, pesquisa e produção. Estou com uma série recém terminada e já estou com algumas ideias para iniciar uma outra agora em 2015. Também tenho vontade de trabalhar com crianças carentes, passar um pouco do meu conhecimento para elas e quem sabe ingressar em algum projeto que tenha a arte como ferramenta de transformação social.



Lápis e óleo.


Pirogravura.


Nanquim.


Operário em Construção.



Sombra e Luz.



Máscara da Noite,



Balada do Mangue,



 Solilóquio.




Balada Negra,



A Mulher que Passa,






Nascido em 1983, Felipe Veríssimo começou a se dedicar a arte ainda criança quando ingressou em seus primeiros cursos de desenho e pintura. Atualmente desenvolve sua técnica na EAV - Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Com uma consciência artística mais madura devido a um processo sistemático de estudos e pesquisas suas obras chegaram a uma identidade visual bem intrigante e original, na qual a intencionalidade final do seu trabalho está mais presente no desenvolvimento do pensamento do que propriamente na estética. Dentre os principais conceitos explorados pelo artista estão estudos com a geometria imprecisa, redução de elementos pictóricos e simplicidade composicional.

O seu processo de criação é estruturado a partir de pesquisas fundamentadas em quatro estudos básicos da pintura que são: cor, textura (relevo), composição e linhas, sendo esse último determinante o artista utiliza um olhar pessoal e crítico para sua apresentação dentro do contexto do trabalho. Suas obras são marcadas por forte sentimentalismo, subjetividade, intensidade de expressão e construção, ideias contrárias à representação por si só.

Nos trabalhos desenvolvidos por Felipe Veríssimo é notável a grande influência da arte alemã e russa (Construtivismo e Suprematismo) justapostas a uma forma de pintar que remete, em partes, as famosas escolas americanas que ficaram conhecidas como action painting. Ideias que a priori podem parecer contraditórias e ultrapassadas, mas que, na prática vem conquistando um número cada vez maior de admiradores, suas obras apresentam grande vitalidade, força e um estilo único dentro da arte contemporânea. 

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Maurizio Cattelan

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