quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Conversando sobre Arte entrevistada a artista Ana Durães.



Quem é Ana Durães?
Nasci em Diamantina, MG, em dezembro de 1962. A minha vida inteira é dedicada à arte. Gosto do que não sei, sou muito curiosa, e acho que isto me impulsionou a experimentar várias técnicas. Transito em vários mundos, tenho por princípio a integridade, sinto-me alegre com coisas diversas, sofro com os problemas alheios. Sou artista plástica, pinto desde criancinha, embora pareça piegas, é verdade.  Aos cinco anos disse que seria pintora. Nasci numa cidade barroca, de mãe católica e pai comunista.  Sou pintora.Vivo desde os anos 80 no Rio de Janeiro.Foto: Pirelli by Steve McCurry. 


Como a arte entrou em sua vida?
Eu nunca pensara ser outra coisa. Sou a 7ª filha. Na minha cidade, nos anos 60, passavam vários pintores, copiando os casarios, Igrejas. Meus irmãos mais velhos me diziam: em frente a tal Igreja tem um pintor. Então lá ia eu, mas como ele era a representação de um Deus, eu não tinha coragem de chegar perto, e ficava aquela criança, horas a fio, andando do outro lado da calçada, maravilhada, olhando aquele poder mágico que saia das mãos dele. Um dia meu pai me disse que conhecia um pintor em São Paulo. Pronto. Formei a ideia de um pintor: Um cara de São Paulo, que usava um lenço no pescoço e tinha um poder mágico nas mãos.
Quando entrei pra escola, uma escola pública em Diamantina, obra modernista de Oscar Niemeyer, me deparei com a coisa mais surpreendente que eu vira, além dos copistas das Igrejas. Era uma pintura imensa, que mais tarde, bem mais eu descobrira ser uma têmpera, de Di Cavalcanti. Eu pensei: eu quero fazer isto também.


Qual foi sua formação artística?
Comecei desenhando sozinha, depois aos 10 anos entrei para um curso particular de pintura a óleo. Quando fui prestar o vestibular, fui para a escola Guignard em BH, fazer pintura e para a Fundação Mineira de Arte fazer Comunicação Visual. Depois me transferi para a Escola de Belas Artes do Rio. Frequentei também cursos livres no MAM.



Que artistas influenciam em sua obra?
 Esta pergunta é muito difícil. Guignard me influenciou, foi um dos primeiros. Quando entrei para a EBA os expressionistas me influenciaram muito, principalmente os pintores alemães. Para citar alguns, eu diria: Georg Baselitz, Anselm Kiefer, Iberê Camargo, Flávio Shiró, o Grupo Cobra, dentre outros.


Como você descreve seu trabalho? 
 Eu trafego entre várias técnicas. Depende do que vou fazer. Trabalho com acrílica, óleo, spray, carvão. Nos trabalhos que faço para os meus heterônimos ou para os trabalhos de televisão (Sou ghost painter de alguns personagens de novela), utilizo diversas materiais. Recentemente eu fiz as obras do Rodinei, na novela Cheias de Charme, da TV Globo e ele era um grafiteiro. Tive que me aprimorar nesta linguagem. Atualmente faço as obras do "Salvador", da novela Império, que é um esquizofrênicos, então minha pesquisa se voltou para a Art Brut e uso carvão, pastéis, acrílica.




É possível viver de arte no Brasil?
 Cito aqui Guimarães Rosa: "Viver é muito perigoso. Viver... o senhor já sabe: viver é etcétera... Acho que em primeiro lugar, o campo da arte é vasto. Acredito que viver de arte não significa viver somente de venda das obras. Deve-se ter enorme dedicação, seriedade e humildade para se abraçar  qualquer atividade artística com o mesmo empenho. Como já disse, sou curiosa e inquieta, então faço pintura, cenografias, direção de arte: trabalhei em gestão pública (fui diretora do Centro de Artes Laurinda Santos Lobo, Centro de Artes Helio Oiticica, e fui Gerente de Artes Visuais da Secretaria Municipal de Cultura). Vivo de arte no Brasil.


O material nacional para pintura já tem a qualidade desejada?
Acho que sim. O que é bom também é que hoje podemos comprar qualquer material importado no Brasil. 


A mulher e o homem estão em iguais condições no mercado de arte?
Não vejo diferença entre obra de artista, homem ou mulher. Acho que a mulher no mercado de trabalho, na vida, de modo geral não tem o reconhecimento merecido. Em vários campos de trabalho sabemos que a mulher tem menor salário, a vida doméstica não tem o reconhecimento devido, mas na arte não sei se isto se aplica. Não sei te responder.



O que você pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?
Salões da arte? Acho que nem existem mais. Deveriam retornar sim. A partir da Exposição Geral de 1840 e durante o século 19, até princípios do século 20, o salão foi o evento mais importante para as artes visuais no Brasil. Muitos artistas viveram e aprimoraram suas artes com prêmios de viagem, etc, mas como o subsídio para a cultura só empobrece... a nossa cultura vive à míngua! O salão de arte foi instituído por lei, mas nossos dirigentes sequer mencionam as artes plásticas. O Brasil empobreceu e "embureceu". Triste.


O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
É muito complexo. Tem que ter empatia entre marchand e artista, o mercado é muito variável e difícil.


Rio e São Paulo, na minha opinião são muito afastados, há pouco intercâmbio entre os artistas, qual a sua opinião sobre esse fato?
 Acho que hoje em dia, ninguém tem muito tempo, e as proximidades se dão mais através das redes sociais. Por um lado isto aproxima, por outro afasta. Penso que é um fenômeno contemporâneo.


Quais são seus planos para o futuro?
Bem, estou no meio de um trabalho pra novela que vai até fevereiro. Também serei homenageada com o enredo do bloco carnavalesco Badalo de Santa Teresa. Imagina, virar enredo em vida. Fiquei muito honrada, com isto. Como disse Joãosinho Trinta,"a maior honraria que se pode ter no Brasil é ser tema de carnaval", e eu tive esta honra. Depois quero tirar umas férias e poder ficar pintando com um pouco mais de calma no atelier da serra, com meus bichos, até um novo turbilhão aparecer. Rs



 D'Aprés Leonardo e Oswald.




Paisagem 1. Técnica mista sobre tela.



 Paisagem 2. Técnica mista sobre tela.


Paisagem 3. Técnica mista sobre tela.



Candido Pardo. Técnica mista sobre tela. 200 x 160 cm.



 Tereza Benama. Técnica mista sobre tela. 200 x 160 cm.



Thereza Conceição. Técnica mista sobre papel. 100 x 70 cm.



Sem título.



Ásia. Técnica mista sobre tela. 120 x 120 cm.



D' Aprés Brassai. Técnica mista sobre tela. 80 x 100 cm.


Ana Durães
anaduraesart@gmail.com
https://www.flickr.com/anaduraesart

Nenhum comentário:

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
Now