sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Gisele Camargo Noite Americana ou Luas Invisíveis Luciana Caravello Arte Contemporânea.




Abertura 14/10 De 19h  às 22h

Manobrista no local.



ias de lua, noites de tinta
A lua é um ponto iluminado no céu cuja simbologia é plena de sentidos e representações criados pela humanidade. Buraco negro de deuses e medos, a lua é Jaci e Magritte. A lua é o amor romântico, o delírio das tribos, o desafio da guerra fria. A lua é uma bola redonda branca-amarela-vermelha-dourada que paira no ar, que organiza vidas zodiacais, que muda marés, que fica ao alcance da mão onírica da criança (quem quer ir ao Sol? A criança sempre quer ir à lua). A lua é oriental, ocidental, cruza classes, semeia transes, explode poemas. Crescer, minguar, ser nova ou cheia, a lua é parte do dia a dia de todos – talvez a nossa maior referência visual, já que, ao contrário do astro-rei, podemos fita-la pelo tempo infinito. Na base mais profunda disso tudo, talvez no grau zero desse amor imenso que temos por ela, a lua é uma bola de luz. Cheia ou não, é essa esfera cobrindo a noite que nos fascina.

A pintura de Gisele Camargo apresenta uma operação bem específica e, ao mesmo tempo, generosa em sua busca de imagens e motivos que movam sua obra. Durante um período recente de sua vida, a lua tornou-se uma dessas imagens capturadas pelo seu olhar e transformadas em uma forma quase íntima. Do alto de um edifício com janelas debruçadas sobre a baía de Guanabara e sobre as cadeias de montanhas da cidade, a lua cheia que surgia mensalmente para Gisele foi aos poucos tornando-se parte de uma composição que transcendia qualquer mito romântico. Era a fixação de uma bola perfeita em contraste com edifícios da cidade e suas luzes apontadas para cima. Gisele passou a ver a lua imponente se articulando com as formas do mundo. A dialética histórica entre Natureza e Cultura se manifesta aqui em mais uma de suas muitas versões contemporâneas. Afinal, Gisele é, fundamentalmente, uma pintora de paisagens. E quando a lua vira de vez sua paisagem, novos planos, novas perspectivas, novas superfícies e novos recortes precisam surgir.

Em uma fusão sugestiva de forma e conteúdo, a flutuação do satélite também se torna uma flutuação dos suportes em suas montagens compartimentadas – formato que aponta cada vez mais um caminho sólido de pesquisa e consistência na obra de Gisele e cujo passo decisivo foi o início de suas Cápsulas (2013). Sem lugar fixo em um suposto céu, sem necessidade de representar a luz, sem ter que reivindicar uma alegoria pictórica, a lua aqui assume sua força gráfica e torna-se elemento narrativo em sutis jogos de aproximação e rasura entre os outros planos da pintura. Nuvens, sólidos, líquidos, todos modulam a lua, assim como modulam as cores. Ampliando outro dado central em sua pintura, Gisele também escava o espaço, cria buracos sem fundo, insinua saídas para o nada, cria planos que não se estendem para além de seus limites abruptos. Suas retas produzem uma arquitetura onírica em paisagens que nos deixam no impasse entre estarmos vendo a lua no céu ou estarmos pisando na própria superfície lunar.

As obras dessa Noite Americana são, portanto, um convite para um passeio do olhar em suas múltiplas perspectivas. Gisele nos apresenta pontos de vista que conservam a cena, porém nos oferecem a possibilidade livre da edição – ou síntese – dessa paisagem. A lua, mais do que assunto das pinturas, é um tema a mais de fruição da aventura e do experimento que é pintar. Sem esconder o fascínio pelo ícone, não se furta em apontar para o seu lado escuro, pleno de vazio e mistério. As solidões e fundos negros são a marca de uma pintura que se guia por procedimentos, por um pensamento muito pessoal sobre forma, plano, superfícies, volumes, atingindo um equilíbrio entre figuração e abstração. Aqui, temos jogos entre profundidades, tonalidades, texturas (diferentes tintas, diferentes técnicas), em um mundo que muita coisa acontece e nos permite mergulhar sem foco obrigatório. Talvez o que nos faça encontrar uma unidade no conjunto é a disposição de Gisele em se aprofundar em uma abordagem autoral de pintura, em propor situações ao nosso olhar a partir de uma geometria que, ao invés de esquadrinhar o mundo, o abre para novos espaços poéticos.

Em nossas conversas ao redor desta exposição, Gisele falou algumas vezes do filme de François Truffaut que a batiza. Não pelo filme em si, mas pela ideia do cineasta de jogar com o nome da técnica que simula em um estúdio de filmagem, durante o dia, uma cena que precisa ocorrer à noite. Ter como mote esse efeito de noite simulada, de uma lua que não precisa da noite para surgir, de um dia que pode perfeitamente ter a lua em seu céu, ou até mesmo de uma lua que simula noite no dia claro do ateliê, é a força central da exposição. Gisele exercita uma forma (a esfera / a lua), aprofunda os múltiplos sentidos que essa forma sugere dentro de seu vocabulário pictórico, experimenta conexões e aproximações entre diferentes aspectos espalhados em seus suportes ao longo de sua trajetória. Se foi Truffaut e seu filme quem deram o título da exposição, trago por fim a frase de outro cineasta, o brasileiro Ivan Cardoso, quando em seu filme Nosferatu no Brasil (1972), precisava filmar a história de um vampiro no Rio de Janeiro. Em super-8 e sem recursos para criar “noites americanas”, Cardoso resolveu o impasse orçamentário e estético com a seguinte frase na abertura do filme: “Onde se vê dia, veja-se noite”. Que sejam feitos simultaneamente dias e noites de Gisele nas amplas obras dessa exposição.
 
Frederico Coelho
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Moonlit Days, Painted Nights

The moon is a source of light in the sky that human beings have endowed with numerous symbolic meanings. A black hole of gods and fears, the moon is Jaciand Magritte. The moon is romantic love, delirium among tribes, the challenge of the Cold War. The moon is a yellow-white-red-golden ball hanging in the air;it influences lives through the zodiac, changes the tides, it lies within reach of children’s dreams. Who, after all, wants to go to the sun? Children always want to go to the moon. The moon is Oriental, Western, straddles class divides, brings on trances, inspires poetry. Waxing and waning, new or full, the moon is part of the daily lives of us all – perhaps our strongest visual point of reference, since different from the sun, we can look at it for as long as we desire. At the deepest level, perhaps the degree zero of this great love we bear it, the moon is a ball of light. Full or not, we are fascinated by this sphere that illuminates the night sky.

Gisele Camargo’s painting presents a very specific operation and is at the same time generous in its quest for inspiring images and motifs. In recent years, the moon has become one of these images captured by her gaze and transformed in an almost intimate manner. In a high building with windows looking out over Guanabara Bay and the city’s hills, the full moon that appeared monthly to Gisele gradually became part of a composition that transcended any romantic myth. She became fixated by this perfect ball that contrasted with the buildings of the city with their upward pointing lights. Gisele came to see the imposing presence of the moon joining with the shapes of the world. The historical dialectic between culture and nature manifests itself here in yet another of its many contemporary versions. Afterall, Gisele isbasically a landscapepainter. And when the moon definitively becomes her landscape, new plans, new perspectives, new surfaces and new divisions of space need to emerge.

In a suggestive melding of form and content, the floating satellitealso makes the supports float on their compartmentalized montage – a formatthat increasingly points to the consolidation of a new development in Gisele’s consistent body of work,beginning with the decisive step she took with C
apsules (2013). Without a fixed place in a supposed sky, without no need to represent the light or to appeal to a pictorial allegory, the moon here assumes its full graphic power and becomes a narrative element in the subtle interplay of planes of perspective. Clouds, solid objects and liquids all modulate the moon, as they modulate its colors. Developing another central feature of her painting, Gisele also digs out space, creates bottomless holes, suggests exits that go nowhere, produces planesthat do not stretch beyond their abrupt boundaries. Her straight lines produce a dream-like architecture in landscapes that leave us in doubt as to whether we are looking at the moon in the sky or setting foot on its surface.

The works of this 
Day for Night/Nuit Americaine thus invite the eye to explore their multiple perspectives. Gisele presents us with vantage points that preserve the scene butgive us the option of editing – or synthesizing – this landscape. The moon is more than a subject for the painter; it is yet another theme full of possibilities for the adventure and experimentation that painting is. Without hiding the fascination of the icon, she does not shy from revealing its dark side, full of emptiness and mystery. The solid forms and black backgrounds are features of a painting technique guided by procedures, by a very personal way of thinking about planes, surfaces, and volume, producing a balance between the figurative and the abstract. There is a play of depths, tones, textures (different paints, different techniques), in a world in which much is going on and into which we can dive without being obliged to focus on anything in particular. The unity we perceive in the series may derive from Gisele’s willingness to explore to the full an authorial approach to painting, presenting us with situations based on a geometry that does not frame the world but opens it up to new poetic spaces.

In our conversations about this exhibition, Gisele sometimes mentioned the François Truffaut film from which it took its name. Not because of the film itself, but because of the film-maker’s idea of playing on the term for the technique of simulating a night-time scene in the studio during the day. The central theme of the exhibition is this effect of simulated night, of a moon that does not need the night to appear, of a day that can easily have the moon in its sky, oreven a moon that simulates night in the daylight of the studio. Gisele uses a shape (the moon’s sphere)to work on the multiple meanings it suggests within her pictorial vocabulary.She has experimented with a range of different connections and juxtapositions in the course of her career as a painter. Just as Truffaut’s film provided the title of the exhibition, I shall conclude with a quotation from a Brazilian film-maker, Ivan Cardoso, who, for his film 
Nosferatu no Brasil (1972), needed to shoot the story of a vampire in Rio de Janeiro on Super-8, without recourse to the technology of “day for night”. Cardoso resolved this budgetary and artistic challenge by urging the audience at the première of the film to “see night, where you see day”. Night and day appear simultaneously in the broad works of Gisele’s exhibition.

 
Rua Barão de Jaguaripe 387, Ipanema - Rio de Janeiro, Brasil 
Tel: (21) 2523.4696 l contato@lucianacaravello.com.br
De segunda a sexta, das 10h às 19h. Sábado das 11h às 15h.
 

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Maurizio Cattelan

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